Como foi o mês da Visibilidade Lésbica em Bauru

Coletiva Visibilidade Lésbica organizou dois dias de eventos pela cidade trazendo luz às suas demandas e a sua existência

Publicado em 04 de Setembro de 2019

Por Paula Betteli 

há um grande perigo
– há muito maldito –
apontado por pastores
generais
professoras
mães e
pais
:
o amor
entre mulheres
há um grande perigo
em palavras que começam
com “L”
um destino assombroso
um desejo em erro
um desvio dos trilhos
o risco de morte
como ousam
se amar
estas mulheres?
Mariana Amaral de Queiroz

Deixadas à margem do movimento feminista e LGBT – é assim que mulheres lésbicas se sentem, de acordo com as fundadoras da coletiva feminista Visibilidade Lésbica Bauru.
Em atividade desde maio de 2019, as integrantes já atuavam anteriormente em coletivos feministas da cidade. Mariane Santinello Longhi conta que foi no movimento Março das Mulheres, de 2016, onde mulheres integrantes de movimentos sociais, trabalhadoras e estudantes se organizaram e realizaram encontros durante todo o mês de março, com rodas de conversa, reuniões e oficinas para mulheres, finalizando com uma marcha no centro da cidade.

As mulheres que hoje são da coletiva, através do coletivo feminista Resiste Mulher, nascido desses encontros, organizavam eventos em agosto, celebrando e trazendo luz ao mês da Visibilidade Lésbica. Depois sentiram necessidade de se reunirem com mais frequência para discutir de forma mais específica e aprofundada as pautas das mulheres lésbicas e bissexuais.

“Eu sempre senti a necessidade de fazer uma coletiva só de mulheres lésbicas e bissexuais, mas esse ano foi mais latente por conta do nosso governo e tudo mais. Falar de nós para nós, falar de nós para a periferia. Da gente buscar essas meninas e acolher”, conta Mayara Letícia, uma das fundadoras. O que era um evento se tornou uma coletiva.

Os encontros em agosto permanecem, organizado pelas mesmas mulheres, mas agora representados pela coletiva Visibilidade Lésbica. Mariane lembra que se não fosse a coletiva, Bauru não discutiria o tema.

“Não tinha quem fizesse esse movimento em Bauru. Se não fosse a coletiva ia passar essa data, que agosto é o mês da Visibilidade Lésbica, uma data nacional, e ninguém ia ficar sabendo. As mulheres lésbicas de Bauru não poderiam nem pensar em um espaço para discutir essas pautas”, reforça.

Durante os dias 16 e 18 agosto elas se reuniram em cinco rodas de conversa e uma exposição de mulheres lésbicas e bissexuais, de nome Oitava Marca, no hall do Teatro Municipal de Bauru. Na abertura da exposição, além das artes visuais, quatro cantoras, todas lésbicas, se apresentaram.

“Foi um pouco de um levantamento de questões que a gente tinha e queria falar sobre. Foram surgindo como necessidades que nós entendemos como mais urgentes”, conta Laura Croce, integrante da coletiva, em relação à organização da agenda do evento.
Entre as pautas abordadas houve uma conversa sobre afetividade da mulher negra e lésbica, sobre mulheres que não performam feminilidade e sobre saúde sexual da mulher lésbica.

Todas as discussões foram abertas apenas para mulheres e pessoas de gênero não-binário. “Por uma questão de proteção, porque primeiro a gente tem que se fortalecer como mulheres lésbicas para depois começar a abrir. Sem se policiar, para uma poder falar com a outra tudo o que sente sem ficar pensando o que outras pessoas estão achando”.

Mayara ressalta que em Bauru há muitos casos de lesbofobia mas não há repercussão. “Bauru é uma cidade muito falocêntrica. Acontecem muitos casos de lesbofobia que a gente nem escuta, que a gente nem sabe”.

Quando se trata de políticas públicas para essa população é tudo muito tardio, é o que dizem as integrantes da coletiva. Isso porque a falta de dados afeta o estudo de casos que demonstram as demandas mais urgentes.

O termo lesbocídio, designado como a morte, seja por negligência médica, assassinato ou suicídio ocasionada por motivo de lesbofobia ou ódio, repulsa e discriminação contra a existência lésbica, é recente, surgido em 2017 juntamente com o lançamento do Dossiê Sobre Lesbocídio no Brasil.

Elaborado pelas pesquisadoras Maria Clara Dias, Milena Cristina Carneiro Peres e Suane Felippe Soares, o documento mostra que entre 2014 e 2017, 126 mulheres lésbicas foram vítimas de mortes violentas no país. No ano seguinte à pesquisa, de janeiro a setembro de 2018, 117 lesbocídios foram notificados. Sobre 2019 ainda não há dados.

O trabalho apresenta São Paulo como o estado brasileiro que mais mata lésbicas, responsável por 20% das mortes contabilizadas pelo Dossiê. Expõe, também, que diferente do feminicídio, que tem em sua maior parte pessoas próximas como autores, cerca de 83% das vítimas de lesbocídio foram mortas por homens que não necessariamente possuíam parentesco com elas, mas que tem aversão a lésbicas.

Em Bauru não há dados que mostrem a quantidade de lesbocídios e lesbofobias sofridas pelas mulheres lésbicas da cidade. A discussão, inclusive, é recente no coração do estado de São Paulo. Não existem registros de organizações de mulheres lésbicas bauruenses, sendo possível que a coletiva Visibilidade Lésbica seja a primeira marca de resistência lésbica por aqui.

Exposição de mulheres lésbicas e bissexuais, no entanto, as integrantes da coletiva dizem com certeza que é a pioneira. “Eu vejo que é uma necessidade de Bauru abrir espaços públicos para aceitar mais a diversidade. A gente tem a Galeria e a Pinacoteca de Bauru, mas o ano começa com exposição fechada e a gente está sempre à margem. A gente está fazendo no hall do teatro, a gente não está dentro da galeria. Isso já mostra que a gente não está tendo espaço e está lutando para conseguir espaço”. Diz Mariane Longhi, sobre a falta de espaço e apagamento que mulheres lésbicas sofrem em relação a seus trabalhos.

“Então eu acho que essa exposição é para afirmar nosso posicionamento. Afirmar que nós somos mulheres, somos artistas, e somos mulheres que amam mulheres, e que as pessoas precisam olhar para a gente e precisam nos ouvir. Através da arte visual, através da música, através das rodas de conversa. É uma afirmação e uma posição”, finaliza ela.

As integrantes e fundadoras da coletiva afirmam que, para o futuro, a ideia é se aproximar cada vez mais das mulheres da periferia e se aprofundar nas questões que fazem partes das pautas lésbicas com os devidos recortes de raça e classe.

A Prefeitura de Bauru não colaborou com a organização de nenhum dos eventos.

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