Estamparia independente fortalece o street wear bauruense

Silkpalas desenvolve estampas autorais para skatistas da cidade

Publicado em 10 de agosto de 2019

Do skate, marcenaria à serigrafia conheça a criação de uma estamparia independente (Arte: Letícia Sartori/JORNALDOIS sob Foto: Eduardo Kenji)
Por Luca Willian
Arte e edição Letícia Sartori

A cena do skate sempre foi bastante agitada em Bauru, basta visitar a pista de skate, na zona sul da cidade, para verificar o grande número de meninas e meninos que praticam o esporte todos os dias por lá. A construção do espaço, inaugurado em 2015, é fruto da mobilização dos próprios skatistas, que durante anos reivindicaram um espaço dedicado à prática do esporte.

Eles são muitos e não são fracos, movimentam todo um mercado próprio no cenário esportivo, cultural e de moda no centro-oeste paulista. Dentro desta cena surge a Silkpalas uma estamparia local que movimenta a cena desenvolvendo estampas para a crew de skate Nopalas, marcas independentes e parcerias com centros culturais da cidade.

A nível nacional, marcas de street wear vivem um momento de crescimento: segundo a consultoria Iemi Inteligência de Mercado, a moda casual, categoria que engloba o street wear, cresceu 10,3% de 2016 para 2017, uma taxa acima da média do varejo de vestuário em geral (de 8,1%), alcançando 2,8 bilhões de peças vendidas e um faturamento de R$ 116,5 bilhões.

Em Bauru, a serigrafia Silkpalas marca sua presença, desenvolve estampas para skatistas profissionais e amadores, movimenta a cena local com parceria com centros culturais e marcenarias.

Confira a entrevista com skatista e criador da Silkpalas, Mateus Batista mais conhecido como Pilaco. O artista de 21 anos transforma a realidade cotidiana através da serigrafia e do skate no interior do estado.

(Vídeo/Fotografia/Edição/Cor: Eduardo Kenji)

Tête-à-Tête

Como surgiu a ideia de trabalhar com serigrafia?

Quando tinha 16 anos, conheci o Fernando Galhano. Ele tralhava com serigrafia na época e tinha uma marca que chamava Nicolau SM. A gente era brother, trocava umas ideias e pá. Aí quando eu fiz 18 anos ele me chamou pra andar de skate pela marca dele, foi aí que eu conheci mesmo a serigrafia e vi como funcionava como ele fazia e tal. Esse foi meu primeiro contato lá pelos 18 anos.

Depois de um tempo o Fernando foi morar em Fartura, a marca meio que morreu e tal, aquela história triste… Aí eu tive a ideia de montar uma estamparia e pedi o auxilio dele. Perguntei o que ele achava e se podia me ajudar. Nisso ele disse que virava e que super podia me ajudar.

Nopalas

A gente já tinha a Nopalas, nossa crew, e a ideia era montar uma estamparia pra gente poder estampar as nossas camisetas e eu poder fazer uns trampos paralelos também.

Grana

Assim que eu tive essa ideia, passou um tempo e eu consegui um freelance na Cacau Show no shopping. Peguei uma grana porque trampei o mês todo e usei essa grana toda pra montar a estamparia. Montei no fundo do quintal da casa de um brother meu, uns caras de agudos que moram aqui em Bauru, e tem um quintalzão monstro. Aí eu montei a estamparia lá.

Estrutura

O berço da estamparia, a mesa de luz foi tudo eu mesmo que fiz junto com um brother meu, o Caio Forte, que tem uma oficina a Rover Marcenaria. Eu também ‘tava fazendo uns bicos de marceneiro com ele na época. Então o projeto todo do berço, da mesa de luz foi do Caio, mas a mão de obra foi de nós dois.

Como você aprendeu a técnica serigráfica?

Todas as técnicas serigráficas que eu aprendi foram através do Galhano porque antes dele eu não tinha nenhum contato com serigrafia. E até hoje é ele que me ensina e me auxilia de certa forma – porque eu ainda tenho muito que aprender.

Linhagens e Sr. Terra

Hoje ele tem a estamparia dele que chama Sr. Terra Bad Friends Printing que significa Senhor Terra Maus Amigos Estampando e a Silkpalas é um seguimento da estamparia dele também. Uma continuidade sabe, é Silkpalas Bad Friends Printing, são duas estamparias da mesma linhagem.

Porque o conhecimento que a gente tem é compartilhado em nós. Tudo o que eu aprendi foi ele que me ensinou, mas o que eu vou aprendendo e desenvolvendo vou passando pra ele, ele aprende comigo e assim a gente vai seguindo.

A Silkpalas desenvolve trabalhos exclusivamente autorais ou aceita encomendas para outras marcas e clientes?

A gente não desenvolve só os trampos autorais não. Fazemos todo tipo de trampo. É porque também esse é o inicio, então a gente precisa pegar o máximo de trampo possível pra poder fazer o nosso capital girar e aumentar a estamparia.

Ideologia

Lógico que a gente seleciona o trampo e não é qualquer um que vai fazer. Não vamos pegar umas camisetas pra uma passeata de bolsominiom, uns trampo badarosca que não representa a gente. Mas a gente visa sempre trampo pra virar capital e poder expandir os negócios. Mas se a pessoa abrir uma marmitaria e quiser fazer as camisetas da marmitaria ou como um parceiro nosso que trampa com transporte e pediu umas peitas pro trampo dele, tá ligado. Fazemos sim, isso e as autorais também.

Quem desenvolve as artes que são estampadas?

Se alguém tem alguma marca ou vem fazer um trampo com a gente normalmente ela já tem um logo, Então eles só mandam a foto do que eles querem e a gente vetoriza no PC, eu passo pra tela e daí pra camisa.

Mas se a pessoa quer fazer um trampo com a gente e ela não tem um logo, ou só tem uma ideia e quer criar um logo com a gente, aí à gente pede pro Galhano que além dele ser serigrafista é um puta desenhista e artista.

Como funciona o processo de passar as artes pra tela e da tela para o tecido

Então, tem dois jeitos com computador e sem (manualmente). Sem PC você pega um papel vegetal, liso sem desenho algum. Nele você desenha o que você quiser, com caneta de tinta nanquim, e depois revela a tela. Depois de revelada você passa pro tecido. Se for usar o computador, você escolhe o desenho, vetoriza ele, imprime no papel vegetal, passa para a tela e daí pro tecido.

Quanto tempo demora para uma camiseta ser estampada? 

Do inicio ao final do processo… Mano são dois processos aí. Um deles é o de revelar a tela e o outro de passar pra camisa. Pra revelar a tela eu demoro cerca de uns 40 minutos, daí pra secar são mais uns 15 – nisso já foram 55min. Ainda tenho que ajeitar as fitas na tela, em torno de 15 minutos. Aí em 5 minutos eu passo pra peita. Então em uma hora e meia eu consigo fazer uma camisa – se for uma cor só, aí é rapidão.

No canto esquerdo, tela de silk que dá origem as estampas da marca e a modelo Mariana de Moraes veste top da Nopalas (Arte: Letícia Sartori/JORNALDOIS sob Foto: Letícia De maceno e Foto: André Cardoso)

Qual é a ligação da Silkpalas com o skate?

Ela surgiu através de uma crew de skate, a Nopalas, então de certa forma ela é fruto do skate. Eu conheci o Galhano através do skate, conheci a serigrafia porque eu andava de skate. 

Sou eu, porque eu sou responsável pela Silkpalas e sou skatista então é 100% ligada com o skate.

Quais são os objetivos da serigrafia para o futuro?

Nossos objetivos pro futuro mano, é como eu disse no começo, expandir nossos negócios. No momento eu só trampo com camiseta então ainda é muito primitivo. Acho que o futuro mais próximo é começar a fazer adesivos também. Eu já fui saber quanto que fica o material de adesivo e tô no corre pra juntar essa grana.

Parcerias locais

Mas a gente pensa em muitas coisas, fazer uns móveis serigrafadas, tá ligado. Porque eu fazia uns bicos de marceneiro com o Caio Forte e a Rover Marcenaria e mano ele faz uns móveis da hora mesmo, de criação dele. Mas isso é o futuro do futuro, no momento mesmo a gente tá focado nas camisetas e em começar a fazer uns adesivos.

Presente

A gente também não fica brisando muito não tipo “Ah, nosso futuro” tá focado mais no presente mesmo. Eu também não sei o que vai virar o que vai vingar ou o que vai ser. Eu nem sabia que ia rolar uma parceria com a Fumacê quando eu tive a ideia, nem tinha intenção de fazer parceria com ninguém, era pra fazer na minha casa mesmo. A gente não sabe, então é melhor focar no presente mais próximo. O futuro, o rumo que vai tomar, acho que só deus sabe.

Colaborações Locais

Atualmente a Silkpalas trabalha com a (Tabacaria) Fumacê. Mas colaboração, tipo eu faço as camisas e a Fumacê paga pelo meu trampo de estamparia. Eu alugo um espaço lá e eles pagam pelo meu trabalho, ninguém faz favor pra ninguém. No máximo a gente troca trampo, eu faço umas camisas e eles não cobram o aluguel.

Escambo artístico

Tem um mano que tem uma skate shop, eu fiz umas camisas pra ele e o mano me deu um shape porque eu tava sem. Eu precisava de um shape pra andar de skate, porque quebrei o meu, tava sem grana e eu falei “ow, te faço umas camisa. cobro só as camisas lisas da costureira e o meu trampo crê me paga com o shape”.

Fumacê e redes criativas

Quando a Fumacê abriu eu colei na inauguração e conheci os manos, o trampo underground, o corre independente e tal. E pensei comigo, nossa tenho que fechar com esses caras, tenho que trampar com eles também.

Passou um tempo o local onde eu trampava antes, no fundo do quintal dos meus amigos moi e eu precisei de outro local.  Aí já aproveitei que tinha trocado ideia com o Igor* de fazer uns trampos com a Fumacê e falei “mano, tô precisando de um lugar pra trampar, tá ligado. Se acha que aí na Fumacê tem um lugar pra eu trabalhar, pra montar a estamparia?” Ele super abraçou a ideia, gostou pra caralho, eles já estavam com planos de juntar outros trabalhos e a estamparia só ia somar junto.

O primeiro trampo que eu fiz lá foi as peita da Nopalas e daí já fiz as da Fumacê e foi assim que surgiu. Precisava dum espaço pra trampar, entrei em contato com os mano e eles disponibilizaram o espaço pra mim.

A Tabacaria Fumacê funciona como um ponto de resistência e fomento para artistas, skatistas e a juventude 014. Da esquerda para direita:Fernando prado, músico; John Cristian sócio da Fumacê; abaixo o skatista Adrian Fernando. (Arte: Letícia Sartori/JORNALDOIS sob Fotos de Letícia De Maceno e Nopalas Crew)

Como a cena do skate se relaciona com a moda sob seu ponto de vista?

O skate com a moda, então mano. O que eu observo é o seguinte. Cada marca de skate tem sua identidade, então é em cima dessa identidade, desse conceito eles criam os produtos deles – seja roupa, peça de skate o que for. E é isso o que a Nopalas faz também, a partir da nossa identidade a gente cria nossas roupas. A gente não vai fazer umas camisas que vão vender, mas que não tem a nossa cara, tá ligado.

Skatistas da Nopalas crew no exercício da função, da esquerda pra direita: Gabriel Oliveira @bielskate_014 e Pilaco @pilacomb. (Arte: Letícia Sartori/JORNALDOIS sob Foto:Vinicius Bomfim/SKATEMAGDIGITAL e Foto: Nathalia Acorsi)

Qual sua opinião sobre o street wear no Brasil? Quais são suas marcas favoritas?


Na minha opinião o street wear aqui no Brasil tá muito focado pro Hype. Tá deixando de ser o que é mesmo, tá muito hypezera. Mas marca favorita, nem sei, acho que nem tive. É mais a Sr. Terra e a Nopalas mesmo. Internacional a tem umas marcas que eu curto tipo a GX1000.

Para conhecer mais a fundo o trabalho das marcas, espaços e crews dessa reportagem:

@Silkpalas
@nopalascrew
@Rover.marcenaria
@Fumacebauru
@srterra

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