Memórias de 2013: Um passado ainda vivo (Parte 3)

Buscando contribuir um pouco para os registros de nossa história, colunista do J2 publica lembranças dos protestos de junho de 2013 e as consequências políticas do movimento na cidade

Publicado em 14 de agosto de 2019

"O clima interno do Bauru Acordou com o tempo foi piorando. Algumas reuniões ocorriam com baixo nível, nos quais os direitistas manobravam a discussão para nos criticar" (Foto: Reprodução/Facebook)

PARTE 1

Leia o texto "Memórias de 2013: As Jornadas de Junho", primeira parte da série que resgata a história dos protestos que abalaram o Brasil, e as consequências políticas dos atos no país e em Bauru.

parte 2

Leia o texto "Memórias de 2013: O Bauru Acordou", segunda parte da série sobre os protestos de junho de 2013 e seus desdobramentos em Bauru.

Por Arthur Castro, colunista do Jornal Dois

O movimento Bauru Acordou estava dividido. Apesar disso, nós do Coletivo entendemos que haviam pessoas dialogáveis, e por isso insistimos em participar, mesmo sendo alvos de críticas. Eu fui um dos principais defensores dessa postura, acreditando que era possível alcançar uma conciliação e uma unidade de lutas. Para muitos dos meus colegas do Coletivo, eu era excessivamente idealista. Hoje acredito que minha posição se deu pelo fato de eu ser um dos menos criticados pelo Em Frente – afinal, é fácil você defender um acordo quando não se é alvo de ataques e intrigas.

O racha no movimento, contudo, não impediu que outras lutas ocorressem. O Bauru Acordou – a essa altura com cerca de 50 participantes – construiu com o Movimento Estudantil da Unesp e com o MST uma ocupação da Prefeitura. Ela ocorreu logo pela manhã, e tive a chance de estar nessa ocasião. A Polícia Militar pediu para entrar, para “verificar” se estava tudo em ordem internamente – aliás, alegaram que queriam ver se o elevador estava no lugar! Me opus, mas acabaram por deixar eles entrarem – a nossa ocupação foi ocupada aos poucos, e no dia seguinte precisou ser encerrada.

O clima interno do Bauru Acordou com o tempo foi piorando. Algumas reuniões ocorriam com baixo nível, nos quais os direitistas manobravam a discussão para nos criticar, sob a omissão dos demais do Em Frente. Mesmo assim intensifiquei os diálogos , na esperança de construir um acordo. Um aspecto curioso é que apesar de toda essa disputa, isso NUNCA era colocado abertamente nas conversas públicas e em reuniões do Bauru Acordou. Ninguém falava do elefante na sala.

Se não me engano, havia ocorrido uma deliberação de panfletagem na Parada LGBT; o Coletivo participou, o Em Frente faltou para ir em um churrasco. Confesso que eu também faltei, porque estava de ressaca de uma festa no dia anterior – não sou imune a erros e não tenho preocupação em colocar esse aqui. Como consequência, na próxima reunião do Bauru Acordou, o Coletivo optou por não ir; eu, por outro lado, fui. Tentei costurar um acordo de paz, fiz uma fala sobre como era absurda aquela disputa – e o resultado foi positivo. A ala esquerda do próprio Em Frente, somada com o grupo despolitizado, votou a meu favor, contrariando o pessoal de direita, e decidindo pela conciliação.

Vejam só: minha articulação foi feita individualmente, não discutida em coletividade com minha própria organização. Fiz certo ou fiz errado? Não sei, mas hoje eu não agiria assim de tomar iniciativas por conta própria. Hoje possuo uma visão mais madura sobre disciplina militante e unidade organizacional, isso é, respeito pela organização e pelas decisões coletivas. Mas foi o que fiz na época, e acreditei que estava dando certo.

Na mesma reunião que só estava eu, foi decidido por uma ocupação na Secretaria de Saúde. A bandeira seria contra as mortes nos hospitais por falta de leitos. Já era mês de Setembro, se não me engano. Informei os demais membros do Coletivo da ação, e eles foram contrários. Disseram que era mal planejada e que estava se perdendo o foco. Mesmo assim, acreditei que era necessário somar para fortalecer os sinais de conciliação, e decidi participar individualmente com os demais do Bauru Acordou.

Éramos cerca de 20 quando, umas 16h, nos reunimos para ocupar a Secretaria. Houve um erro de informação: tinham nos dito que os funcionários estariam de saída, liberados mais cedo – isso não ocorreu. Acabamos entrando em pleno funcionamento, o que gerou certas complicações. A Tropa de Choque logo cercou o local e acabamos nos entregando às 20h. Fomos encaminhados para a delegacia, da qual só fomos liberados de madrugada.

Os demais membros do Coletivo compareceram durante o cerco policial e ofereceram apoio durante todo o momento, mas um boato rolou de que realizaram críticas sobre a ocupação e isso tornou o racha inevitável. Olhando hoje, acredito que essa ocupação foi equivocada, e dou razão à posição do Coletivo Primeiro de Maio, na época, de não participar. Apenas serviu para sermos qualificados pela polícia e haver o início de um inquérito (investigação) que, felizmente, não tornou-se processo.

O Coletivo votou pelo abandono no Bauru Acordou. Eu decidi, individualmente, contrariar a posição majoritária e continuar dialogando. No entanto, pouco depois optei por me desligar de ambos os grupos.

O Bauru Acordou e o Em Frente se tornaram a mesma coisa, e encontraram seu fim ainda em 2013. A maior parte dos seus integrantes abandonaram a vida política, um se tornou liderança direitista e outros se uniram (ou permaneceram) ao campo da esquerda, continuando até hoje.

Alguns meses depois, o Coletivo mudou o nome para Coletivo Maria Lúcia Petit, se não me engano – sei que hoje ele já deixou de existir, mas alguns de seus integrantes ainda permanecem construindo lutas nas cidade.

Reflexões tardias

Esse não foi um ano fácil. E nem é simples explicá-lo. Eu tenho muitas dificuldades em apresentar o que foi o Bauru Acordou para as pessoas de hoje, e mais ainda para militantes de outras cidades. Não era um movimento avançado e exemplo de lutas, como alegam vários dos que atuaram com o Em Frente; também não foi uma organização fascista que deveria ser boicotada, como foi alardeado por algumas pessoas ligadas a partidos de esquerda. Nesse sentido, concordo com as leituras dos meus antigos colegas do Coletivo: foi algo contraditório, em disputa, complexo e cuja necessidade de participação da esquerda era um fato. Não me arrependo de ter atuado nele.

Há um ponto engraçado. Alguns membros do Em Frente, do Coletivo e também daqueles que boicotaram o Bauru Acordou acabaram, ao longo de 2014 e 2015, convergindo para o Psol. Isso alavancou o partido na cidade, que eu arriscaria dizer ser o maior agrupamento de esquerda local atualmente. Não há uma ironia em três leituras diferentes e opostas entre si terminarem unidas na mesma organização?

Igor Fernandes, que posteriormente se filiaria ao Psol e seria um dos responsáveis pela ascensão do Juntos em Bauru, foi um dos principais nomes do Em Frente com os quais busquei dialogar e sempre demonstrou comprometimento com a construção de uma conciliação interna no Bauru Acordou.

Do Coletivo, gostaria de destacar a atuação de Marcos Chagas e Tathiane Nunes, também do Psol. Eles eram recém chegados a Bauru, mas se aproximaram de nós durante o processo de lutas. Hoje, ambos são destacados militantes sindicais na Apeoesp . Tenho bastante respeito por ambos, e considero que o Sindicato dos Professores Estaduais apenas avançou devido a atuação deles no espaço.

A Esquerda Marxista é uma representante da terceira opinião, mais crítica ao movimento, e ingressaria no Psol entre 2015 e 2016. Igualmente, apesar das divergências, cabe ressaltar que sempre participei de diversas atividades lado a lado com seus militantes, pelos quais tenho muita estima.

Como eu já havia dito anteriormente, apenas UM membro ativo do Bauru Acordou caminhou para a direita. Ele organizou o Direita Bauru em conjunto com integralistas, mas hoje atuam como parte da Juventude do PSDB. Se compararmos com a força que o Psol conquistou, a esquerda foi muito mais beneficiada com as Jornadas de Junho.

E eu? Acredito que errei mais do que acertei. Era jovem, e apesar de esquerda, me faltava teoria e prática. Talvez devesse ter continuado no Coletivo, tenho admiração pelos meus colegas da época, e busco ter boas relações até hoje. Também não me arrependo de ter atuado no Bauru Acordou e de ter tentado uma conciliação, mas não faria isso individualmente como fiz naqueles tempos.

Após as Jornadas de Junho, me afastei por um tempo da militância. Isso envolveu uma série de motivos que não vem ao caso; uns acertados, a maioria não. Só iria retornar ativamente para as ruas e para as lutas em 2016, na articulação da luta contra a Lei Antifestas, e no surgimento da Não Empata Meu Rolê. Mas isso, meus amigos, é uma outra história.

 

As colunas são um espaço de opinião. As posições e argumentos expressas neste espaço não necessariamente refletem o ponto de vista do JORNAL DOIS.

PARTE 1

Leia o texto "Memórias de 2013: As Jornadas de Junho", primeira parte da série que resgata a história dos protestos que abalaram o Brasil, e as consequências políticas dos atos no país e em Bauru.

parte 2

Leia o texto "Memórias de 2013: O Bauru Acordou", segunda parte da série sobre os protestos de junho de 2013 e seus desdobramentos em Bauru.

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