Gael: “A trajetória artística é um navio e você não sabe aonde vai chegar”

Dos caminhos bauruenses, um artista independente, ator e poeta: disso é que Gael Gramaccio quis fazer a sua arte

Reportagem publicada em 2 de janeiro de 2018

Por Bibiana Garrido

Na praça Rui Barbosa tem todo tipo de gente. O calor que acompanha a passagem de ano marca o coreto com sol à pino pela tarde. Gael está sentado sozinho em um dos bancos de madeira quando uma viatura passa a dois metros de distância. Em Bauru é comum ver a PM motorizada sobre as pedrinhas do calçadão. A velocidade do carro diminui e os policiais demoram seus olhos naquele homem de pele negra — e o poeta retribui.

Até que não tá tão úmido e, depois de comentar o que é que ele poderia estar fazendo de suspeito, a gente fica mesmo é procurando uma sombra debaixo de alguma árvore.

“Você quer começar do começo?”, pergunto, sem saber ainda como conduzir a entrevista que propus. Não sei se isso passa com a experiência, mas toda vez, antes de conversar com alguém, me vejo diante de um universo muito particular que é aquela pessoa e, mesmo que tenha ensaiado ou planejado algo antes, é como se a coisa me pegasse de surpresa.

Gael ensaia para acender um cigarro e me manda um “cê que sabe”. Então deixo para falar do começo outra hora e lanço minha primeira jogada:

Sobre o que é a sua arte? Ele dá uma risada e aprova a escolha. A busca das palavras para a resposta toma um certo tempo.

 
Eu não sei se eu posso falar o que é minha arte de maneira geral, tipo, minha arte é isso, porque ela pode e é pra ser vista e interpretada, sabe? De várias formas, pras pessoas receberem e criarem a partir da visão delas. Eu gosto de deixar tudo o que eu faço meio aberto pra possíveis interpretações. Pra mim, a minha arte é veículo de manifestação, de autoexpressão, é como um ritual.

 

Performance do poema “Sacerdócio”, de autoria de Gael, no Sarau do Viaduto (Filmagem e edição: Bibiana Garrido/JORNAL DOIS)
 
Todas as áreas artísticas nas quais eu atuo, eu faço elas porque eu preciso colocar coisas pra fora, eu preciso me expressar às vezes de uma maneira que eu não consigo falando, simplesmente, ou escrevendo, ou só fazendo teatro. Por isso eu acabo, muitas vezes, misturando todas. É impulso vital pra continuar estando no mundo e me entender como ser humano.

 

Aos 23 anos e atuando nos espaços culturais da cidade desde os 18, Gael perambula entre as formas de expressão na poesia escrita e falada, nas colagens, no trabalho como ator em curtas-metragens e peças teatrais, na dança, produção e apresentação de performances. De berço na capital São Paulo, veio para o interior logo que completou a primeira década de vida.

É autor de Ópio, projeto literário que carrega poemas e montagens feitas com recortes de revistas — as colagens. De edição mais ou menos bimestral, Ópio circula no formato de um amontoado de folhas sulfite A4 que, quando dobradas ao meio e grampeadas, recebem o nome de zine.

À esquerda, na performance “Madame Satan” (2016); no centro e à direita, duas edições de Ópio, “Erótico” e “Releituras”, respectivamente. Há também o número “Senhora” e “Releituras II”, todos lançados em 2017 (Fotos: Gael Gramaccio/Acervo)

A performance é uma maneira de juntar tudo isso? É um tipo de arte cênica?

De certa forma… pode ser e pode não ser. Mas aí vem a Marina Abramovic e acaba com essa argumento, porque as performances dela não tem nada de cênico, são experiências realmente mais espirituais, mais sensitivas, mais carnais do que cênicas. As performances que eu fiz até então normalmente tem um quê mais cênico. Existe um figurino pra eu executar uma ação, que às vezes eu não sei direito como vai funcionar, mas existe esse pensamento antecipado. Não que a performance tenha que ter essa linearidade, só que como ela tem essa amplitude, com certeza me dá abertura juntar tudo isso.

Essa história tem impulso no Grupo Maquinaria, composto por Gael, Fernanda Diniz, Joyce Rodrigues e Izabelle Garcia. Juntos, experimentaram a produção teatral e performática com diversas apresentações em Bauru.

Para Gael, maioridade foi o momento mais importante da sua vida porque representou descobertas como essa em um mergulho artístico.

 
Nós éramos um grupo de teatro só que eu fui fazer performance porque precisava fazer uma coisa que eu não ia conseguir fazer em grupo. Eu precisava fazer uma coisa minha. E chamava-se Corpórea.

 

Corpórea — Humano Delírio Qual Todos os Deuses é o nome completo da performance que esteve “em cartaz” no corpo do artista nos anos de 2012 e 2013. Depois da primeira, vieram: A Gaia Ciência, Senhora, Madame Satan, Arcano XV e Necrológio — essa última ainda pode virar espetáculo.

Fora a lista de trabalhos que são resultados de criação e preparação pessoal, Gael participa com frequência de eventos artísticos que acabam rendendo oportunidades para intervenções inéditas.

Como que é apresentar uma performance várias vezes? Ela tem um prazo de validade?

Todas as vezes, até hoje, em qualquer coisa cênica que eu vá fazer, eu lembro do momento que eu subi no palco, que eu tava de costas e dei uma respirada pra começar Corpórea. Eu não apresentaria essa performance de novo porque não tem como, não existe a possibilidade, foi um momento único. A graça da performance é isso. Por isso que tem essa divisão do teatro, uma peça de teatro você apresenta ela várias vezes, decora todos os textos, movimentos, como você deve fazer e o que você deve falar. A performance é pra ser visceral.

Registro do espetáculo-instalação “O Inferno são as Outras” (2015), do Grupo Maquinaria, na Pinacoteca Municipal de Bauru — Casa Ponce Paz (Foto: Guilheme Caixeta/Acervo)

O que você pensa da arte ser um reflexo das experiências particulares colocadas para o coletivo?

Eu não vejo como não ser, eu não sei como fazer uma manifestação artística que não venha de dentro, que não seja baseada no que você vive. Mesmo que seja falando sobre a sociedade, por exemplo, dos malefícios sociais, você tá falando da sua visão sobre aquilo. Você precisa tentar fazer com que isso seja o mais sincero possível porque aí vai conseguir levar pro coletivo de uma maneira que as pessoas se identifiquem. É esse o negócio, eu acho. Você pode falar de um problema que é só seu, só que você não é único, então com certeza outras pessoas passam por algo parecido ou até pela mesma coisa.

Estamos no meio do banco, uma ripa de madeira está faltando e um senhor de cabelos brancos se aproxima. Ele pergunta se pode sentar ali na beirada, e como dissemos que sim, nos cumprimenta e passa a olhar com frequência para nossa conversa-entrevista.

Seja como for, você precisa fazer da forma mais humana e verdadeira pra que não seja simplesmente uma coisa egocêntrica: eu tô passando por isso, isso me afeta muito. Mas eu tenho certeza que alguém aqui, aqui ó, vai se afetar. Se eu faço isso com verdade alguém vai sentir.

Você acredita que isso é um dom ou uma prática?

Como qualquer outra área na vida, tudo é prática, não só dentro da arte. Essa coisa de dom eu não gosto muito. Ah, você foi abençoado com esse dom e você serve pra fazer isso… ah, eu tenho um dom e sou artista. Isso faz com que todo mundo se sinta meio acomodado e parece que divide as pessoas. Todo mundo tem pré-disposições. Você precisa fazer autoanálises pra descobrir o que você quer e o que você faria de graça, o que gostaria de passar a vida inteira fazendo. Não tem essa de dom, é trabalho.

 

 

No cotidiano do processo criativo, como é o trabalho do artista?

Olha, eu não posso te responder como é o trabalho do artista até porque existem bilhões de artistas e zilhões de áreas artísticas. Eu posso te responder sobre mim. É tudo, no fim das contas. O caderno na bolsa quando eu tô no ônibus e vejo alguém conversando na rua, me traz uma imagem que eu posso escrever sobre. Eu vejo a forma como uma pessoa se veste e isso me inspira, seja pra uma cena, uma letra. Tudo ao redor é conteúdo artístico.

É claro que você precisa estabelecer uma rotina, ter seus momentos de pesquisa e de estudo. Pensando na área cênica, performática e até mesmo de escrita, tudo acaba influenciando. Absolutamente todas as conversas que você tem são material. Tudo que você pensa e constrói, você acaba usando mesmo que inconscientemente. Eu, como artista, é assim que funciona.

Criar algo novo sempre pode parecer uma necessidade para quem trabalha na arte. Gael comenta que fazer isso é impossível, porque estamos rodeados de referências a todo momento e nada daquilo que sair de nós pode ser uma criação exclusivamente da nossa cabeça— tem base em uma história, uma música, uma troca de ideias. “Você só pode criar a partir do que você conhece” é uma das coisas que ele disse e que ficou na minha cabeça.

Corpórea (2012–2013) é inspirada no livro de Nietzsche, Assim Falou Zaratustra; dilemas pessoais do persongem literário remetem a muito do que Gael vivia na época (Foto: Gael Gramaccio/Acervo)

E como é ser artista em Bauru?

Eu gosto bastante de Bauru artisticamente, a cena daqui é uma cena forte e que tá em crescimento. Eu acho que Bauru é uma cidade em progresso e por ser uma cidade pequena as coisas acabam sendo de fácil acesso. Hoje em dia eu conheço vários ambientes artísticos, que se eu tivesse em São Paulo, eu até poderia, mas seria muito mais difícil chegar.

É bom por ser uma cidade ativa. Ativa pra quem sabe ver e pra quem sabe procurar, né? Muita gente fala que é parada, muita gente reclama muito, só que as pessoas não saem de casa. Elas querem que esteja tudo ali pronto num evento no Facebook. Só que se você procurar vai encontrar muita coisa, uma galera muito ativa e muito forte fazendo isso. É um ambiente inspirador.

Para o novo ano, está em cartaz no artista presente a gravação de mais um curta, dessa vez baseado n’O Auto da Barca do Inferno — “Eu vou fazer o Diabo e tô muito ansioso!”.

Do projeto Ópio surgirá O Opiário, tarot formado por colagens e que pretende trazer novas estéticas e intepretações para as tradicionais cartas e variações já criadas. A ideia de Gael é produzir uma zine com conteúdo explicativo sobre o baralho.

Primeira apresentação do ano? 13 de janeiro, na Casa Alunte. Trata-se de um pequeno experimento, nas palavras do ator, com a peça “O Balcão”, que parte do livro de mesmo nome do francês Jean Genet.

No ensaio fotográfico “Arte Gera Arte” (Foto: Gabriel Woelke/Acervo)

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