Espaços de discussão e política na cidade sem limites

Entenda como se deu a construção da greve geral e a importância do debate político

Publicado em 13 de Junho de 2019

Roda de conversa sobre os cortes na educação pública e reforma da previdência organizada pelo Cursinho Popular Acesso Hip Hop na Praça Rui Barbosa
(Colagem:Letícia Sartori/Jornal Dois)

Por Letícia Sartori

Debates, rodas de conversa, panfletagens e assembleias marcaram o calendário bauruense no último mês. Nada muito fora da curva para uma cidade que tem em média 20 eventos culturais e políticos semanais – se contarmos aqui somente os eventos gratuitos. O diferencial dos últimos 30 dias se dá na linha do horizonte. Mais do que discussões sobre a realidade política atual, os cortes da educação, a reforma da previdência e outras temáticas que permeiam a vida do brasileiro moderno às reuniões de estudantes, trabalhadores, jovens, velhos, adultos e adolescentes bauruenses ecoavam em direção a uma data: 14 de junho.

Às vésperas da primeira greve geral do mandato de Jair Bolsonaro a cidade fecha um ciclo de debates que trouxeram a tona problemas trabalhistas, raciais e de gênero dentro das diversas esferas da vida pública bauruense. Fosse nos sindicatos, no chão da Praça Rui Barbosa, em quiosques da USP, auditórios da UNESP ou no calçadão da Batista de Carvalho bauruenses se reuniram para construir espaços de discussão e informação criando o esboço naquele velho trabalho de base, formiguinha a formiguinha a manifestação desta próxima sexta-feira.

Ocupação e discussão pública                                                         

A praça Rui Barbosa é um ponto estratégico no dia a dia do bauruense, serve como ponto de encontro, local de partida para vários atos políticos, espaço para um respiro e um cigarro na correria do dia a dia. E é também palco para inúmeras discussões políticas e sociais. No último mês o Cursinho Popular Acesso Hip Hop, iniciativa educacional pré-vestibular que de maneira independente se articula junto a Casa do Hip Hop de Bauru no prédio da antiga estação ferroviária; puxou estudantes, sindicalistas, artistas e trabalhadores para rodas de discussão no centro da praça.

Tathiane Nunes, professora da rede pública e membro da diretoria da Associação dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo na subsede de Bauru, esteve presente na nos debates organizados pelo Cursinho para ela “são iniciativas como essa do cursinho que vão fazer com que esse discurso, que toda essa revolta da rua, ganhe qualidade no discurso, ganhe unidade pra que a gente construa lutas ainda mais fortes.

Para Tathiane “é preciso que a população se aproprie dessa discussão porque a mídia tradicional tá fazendo um discurso cada vez mais ideológico de criar uma verdadeira cortina de fumaça sobre o orçamento brasileiro, sobre a forma que a previdência funciona, e as pessoas estão ficando confusas”. E continua “é importante mobilizações, eventos, aulas públicas, panfletos, enfim. A gente precisa chegar à população e tentar entender de fato como funciona todo o sistema, como funciona esse governo porque daí a gente ganha cada vez mais argumentos para destruir essa reforma”

A apropriação do discurso e conhecimento político vem no dia a dia da vida em sociedade e também nos momentos de construção e debate sobre a realidade atual, seja dentro ou fora das salas de aula.  Jorge Neves, professor de sociologia e membro da coordenação do cursinho hip hop pontua que “nossos cursinho popular esta dentro do movimento hip hop então a gente entende as nossas atividades educativas não só como um treinamento pro vestibular, mas também como ferramenta de compreensão e transformação da realidade” e continua “Então esse tipo de iniciativa pública da praça ele supera o ato educativo puro e simples de aprender conhecimento. É o ato de socializar conhecimento, coletivamente de maneira horizontal e usar isso como ferramenta de transformação.”

Sindicatos, trabalhadores, estudantes e a união das categorias.

As reuniões públicas para debate e discussão serviram como espaço de aproximação entre diferentes categorias trabalhistas, movimentos sociais, sindicatos, estudantes e artistas da cidade sem limites. Proporcionando a união entre seguimentos que atuam em múltiplas áreas e de diversas maneiras mas que se unem neste momento de defesa da educação e dos direitos trabalhistas.

“A gente entende o sindicato dos professores como uma parte, a gente entende que é impossível melhorar a qualidade da educação, melhorar a qualidade do trabalho dos professores sem necessariamente melhorar a sociedade.” coloca Tathiane.  “A gente entende que só quando a população sem terra conseguir terras é que vamos ter apoio o suficiente pra conseguir um salário digno pros professores; só quando as pessoas não estiverem mais morando nas ruas é que a gente consegue investimentos reais e que façam a diferença dentro das escolas né. É impossível mudar a realidade da educação sem mudar toda uma realidade, um conjunto de coisas que também são afetados e que precisam se mobilizar.”

Estudantes e pesquisadores da pós-graduação da USP Bauru compartilham uma ideia semelhante no que diz respeito à relação de educação como agente transformador: “A Universidade deve se pautar em uma educação libertadora, como uma ferramenta de transformação da sociedade. O evento organizado por nós, estudantes residentes multiprofissionais, teve como objetivo principal a organização da comunidade acadêmica em torno de temas que circundam o nosso contexto político atual; foram convidados alunos, professores, funcionários da própria universidade e o convite se estendeu a toda comunidade bauruense. Entendemos que a pluralidade do debate é imperativa para se construir estratégias de ações, portanto a Universidade não vai cumprir seus objetivos, sua função social, sem a efetiva participação popular, podendo ser transformada e efetivada apenas de fora para dentro.”

A discussão organizada dentro do campus da Universidade de São Paulo teve como pauta Cortes na educação e reforma da previdência, momento que contou com a presença de um representante do Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP) e num segundo momento um grupo de debate sobre “O acesso da população negra à Educação”, com Igor Fernandes – professor de Atualidades do Cursinho popular acesso hip hop e militante do movimento negro em Bauru.

“No Brasil, desde a década de 90, está em curso um modelo econômico pautado no neoliberalismo. Isso reflete as dificuldades que enfrentamos para consolidar direitos, especialmente sociais, nesse contexto do autoritarismo neoliberal.” Contextualizam os estudantes da usp em declaração ao jornal dois e pontuam “Sindicatos e os Movimentos Sociais, no geral, são formas de organizações históricas para a luta e concretização desses direitos. É muito importante a unidade na luta”

Questionados sobre a importância do espaço de discussão os estudantes colocam que “Este foi o primeiro “aulão público” da história do campus da USP de Bauru. É muito simbólico o quão engessado é o campus. Acreditamos que seja necessário, antes de tudo, espaços dentro da USP que propiciem o debate do ‘politizar-se’.” E mostram a necessidade de embate político dentro das universidades: “Engana-se quem pense que seja um campus hegemonicamente crítico. É ainda muito conservador, ao ponto que mobilizar ainda é estranho dentro do campus. Acreditamos que a atividade tenha sido um pontapé inicial, para um maior envolvimento, ou pelo menos, para mais eventos que propiciem um trabalho conjunto com sindicatos da própria USP e movimentos sociais no geral”

E finalizam a lembrando a importância do debate: “Essas discussões têm como finalidade o empoderamento dos trabalhadores e estudantes de modo geral, sendo importante que isso se dê para além dos muros universitários e capilarize na sociedade como um todo, já que são temas de grande relevância social. O envolvimento e unidade entre Universidade sindicatos e movimentos sociais no final se forja em estratégia de luta e resistência.”

Agora, e depois?

Estamos hoje, na noite de quinta-feira às vésperas da greve geral. Amanhã, 14 de junho de 2019, por todo o Brasil pessoa se reunirão em manifestações, atos, passeatas e demonstrações públicas de descontentamento a política bolsonarista.

Passados um mês da primeira grande manifestação, após diversas atividades de construção, ao brasileiro cabe o sono na noite de hoje e a luta a partir da manhã. Em Bauru, o ato terá inicio as 09h da manhã com concentração em frente à Câmara Municipal, na Avenida Rodrigues Alves.

Segundo dados da APEOESP cerca de 50 escolas de Bauru e região paralisarão suas atividades para construção da greve, espera-se presença de estudantes e trabalhadores das duas universidades públicas da cidade USP e UNESP, a seccional bauruense da Ordem dos Advogados do Brasil se posicionou por nota de maneira favorável ao ato e une-se então aos diversos sindicatos e trabalhadores da cidade que irão compor o ato. O Jornal dois estará presente na manifestação durante todo seu trajeto, com transmissão ao vivo e produção constante de conteúdo sobre a greve geral em Bauru.

A falta de limites do bauruense se traduz em ânsia de debate logo após uma manifestação e greve nacional que ainda nem aconteceram. Sábado à tarde, já esta marcada mais uma roda de discussão na cidade monte. Dessa vez quem faz a ponte é a Tabacaria Fumacê lançando a primeira edição do Fumacê com Política. Aproveite a roda de conversa e análise e de conjuntura com Pryscila Galvão e Igor Fernandes a partir das 17h, na Rua Engenheiro Saint Martin 15-86.

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