Por Arthur Castro, colunista do JORNAL DOIS


Bolsonaro representa o militarismo. Desde a origem de nosso país, o Exército se achou no direito de agir politicamente, e isso marcou nossa história com massacres (Canudos, Paraguai, Balaiada) e com golpes (incluindo 64).

Nessa lógica autoritária, incluem-se não apenas as Forças Armadas (na qual muitos dos membros estão ligados à Bolsonaro), mas também as polícias Civil e Federal, bem como setores do Judiciário e do Ministério Público. Nosso Estado mata, principalmente populações negras das periferias. Milícias ganham força nas favelas cariocas, grupos de extermínio chacinam por todo o país, e a Bancada da Bala cresce no Congresso Nacional, a serviço dos interesses das empresas de armas.

Bolsonaro representa o fundamentalismo religioso. As igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais, com sua Teologia da Prosperidade, são a ponta de lança do conservadorismo na América, e não poderia ser diferente no Brasil. Fazem oposição ao aborto, forçando milhões de mulheres a arriscarem sua vida na clandestinidade; promovem o ódio à comunidade LGBT, usando discursos que associam essas pessoas à pedofilia; atacam e perseguem as religiões afro e indígenas, acusando-as de servirem ao demônio. Com forte mobilização, lideranças religiosas ocupam cargos políticos, e seguem adiante o plano de poder que Edir Macedo, da Igreja Universal, havia revelado em seu livro.

Bolsonaro representa o agronegócio. As elites rurais que dominam nosso país há séculos, e também as novas multinacionais estrangeiras que tomam o controle local. Envenenam a população com agrotóxicos, assassinam indígenas e quilombolas, usam o trabalho escravo, formam grupos armados no campo para matar sem terras.

Bolsonaro representa o neoliberalismo. Com a crise de 2008, os governos de esquerda latino-americanos ficaram com uma bomba nas mãos: apesar de terem garantido ampla participação democrática às populações mais pobres, não romperam com o Capitalismo, e foram vítimas da situação. Isso permitiu que as elites locais, associadas ao poder econômico da América do Norte e da Europa, organizassem um contra-ataque. Paraguai, Venezuela, Bolívia, Chile, Argentina, Brasil: em todos esses países ocorreram ações de organizações liberais alinhadas aos Estados Unidos.

O assessor econômico de Bolsonaro, Paulo Guedes, é membro de uma delas: Instituto Millenium, do qual também faz parte membros importantes de grandes empresas e da mídia. A vitória da chapa significa, então, a destruição dos direitos trabalhistas e dos programas sociais. Não por acaso, receberam também o apoio do presidente chileno, Sebastian Piñera, e do líder de direita radical fã do ditador Pinochet, José Antonio Kast.

Donald Trump (EUA), Marine Le Pen (França) e Jair Bolsonaro, representantes do conservadorismo e da intolerância a nível internacional (DeviantArt/DaniloZ5)

Bolsonaro representa o neofascismo. Também como consequência da crise, um populismo de direita construído ao redor de líderes autoritários ganhou força no mundo: Erdogan (Turquia), Putin (Rússia), Orbán (Hungria), Duterte (Filipinas), Le Pen (França), Farage (Reino Unido), Trump (EUA), Netanyahu (Israel), Abe (Japão) e Modi (Índia) são apenas alguns exemplos. Matteo Salvini, líder italiano do partido de extrema direita Liga e vice-premier do país, declarou apoio à Bolsonaro, enquanto Steve Bannon, ex-assessor de Trump, diz que o Brasil está alinhado à sua rede de extrema direita mundial.

As práticas e modo de ação dos bolsonaristas são semelhantes às dos radicais de direita de outros países, como a Direita Alternativa americana, o que indica que estão trabalhando juntos.

É urgente a mobilização de toda a esquerda para barrar a ameaça bolsonarista. Mas é preciso que aprendamos com o passado.

Em 1936, uma polarização entre esquerda e direita levou a Espanha à Guerra Civil. Os golpistas, de direita, recebiam o apoio da Igreja Católica, da Alemanha Nazista e da Itália Fascista. O Governo de esquerda recém-eleito, em uma coalizão que unia Republicanos (liberais progressistas), Socialdemocratas e Comunistas (stalinistas), desejava o apoio das principais potências liberais da época: Reino Unido, França e Estados Unidos.

Quando os grupos armados mais radicalizados — em sua maioria anarquistas — decidiram abraçar uma Revolução, a esquerda moderada ficou contra, dizendo que isso impediria uma frente progressista e afastaria apoio internacional. Alguns anarquistas abandonaram seus princípios e aceitaram. Muitos outros ficaram contra e decidiram avançar com a Revolução, e foram reprimidos pelo Governo.

Buenaventura Durruti, um dos revolucionários espanhóis, declarou:

“Nenhum governo do mundo combate o fascismo até suprimir-lo. Quando a burguesia vê que o poder lhe escapa das mãos recorre ao fascismo para manter seus privilégios, e isso é o que ocorre na Espanha. Se o governo republicano tivesse desejado eliminar os elementos fascistas, podia tê-lo feito a muito tempo. Ao invés disso (…) gastou seu tempo buscando compromissos e acordos com eles. Mesmo no atual momento existem membros do governo que desejam tomar medidas ‘muito moderadas’ contra os fascistas. É, quem sabe se o governo ainda não espera utilizar as forças rebeldes para esmagar o movimento revolucionário desencadeado pelos trabalhadores. (…) Como democratas burgueses esses senhores não poderiam ter outras ideias a não ser estas que defendem. Mas o povo, a classe trabalhadora, está cansada de ser enganada. Os trabalhadores sabem o que querem. Nós lutamos não pelo povo, senão com o povo. Quer dizer, pela revolução dentro da revolução. Nós temos consciência que nessa luta estamos sozinhos e que não podemos contar como ninguém senão com nós mesmos”.

Por isso, este colunista se alinha à posição anarquista clássica e nega o voto crítico em Haddad, pois entende que o projeto petista não impede o fascismo. Todavia, votando ou não votando, a luta continuará independentemente do resultado das eleições, e urge a necessidade de uma esquerda mais radical e que se ponha em favor de enfrentamentos aos privilégios, às opressões e as classes dominantes, ou continuaremos a ver o surgimento de novos Bolsonaros e Trumps.


As colunas são um espaço de opinião. As posições e argumentos expressas neste espaço não necessariamente refletem o ponto de vista do JORNAL DOIS.