Vereadora faz BO contra radialista da Jovem Pan por ameaça

Durante programa, apresentador Alexandre Pittoli falou em “se livrar de algumas personalidades” presentes em audiência da Câmara Municipal, presidida por Estela Almagro (PT)

Publicado em 24 de setembro de 2021

Boletim de ocorrência feito pela vereadora contra Alexandre Pittoli (Imagem: Whatsapp/Reprodução)
Por Michel F. Amâncio
Edição Camila Araujo

A vereadora Estela Almagro (PT) registrou um boletim de ocorrência nesta quinta-feira (23) contra o radialista Alexandre Pittoli, âncora da rádio Jovem Pan News de Bauru, por incitação ao crime, ameaça e injúria. Em seu programa matinal no dia 23 de setembro, o radialista fez declarações sobre uma audiência pública da Comissão de Fiscalização Permanente, da Câmara Municipal, presidida pela vereadora petista, em que se discutiu a legalidade da intervenção da Praça Portugal, em que mais de 50 árvores foram suprimidas do local com autorização da Prefeitura. “Eu gostaria de ver as luzes apagadas e uma foice na mão de cada um ali, e a gente iria se livrar de algumas personalidades”, afirmou Pittoli na ocasião.

A vereadora estava em uma oitiva da Comissão Especial de Inquérito (CEI) que investiga a relação da Fundação Estatal Regional de Saúde da região de Bauru (FERSB) com a Prefeitura, quando soube das declarações do radialista: “Considerei tão grave o que aconteceu que interrompi as oitivas da CEI pra poder buscar providências no campo jurídico, no campo policial e também do ponto de vista político”. O Jornal Dois entrou em contato com Pittoli, que não quis se manifestar.

Estela procurou apoio jurídico da Câmara Municipal e registrou um boletim de ocorrência contra Pittoli, em que ele é apontado como possível autor de crimes “contra a pessoa e contra a paz pública”. Estela também enviou uma representação à Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, pedindo a apuração da conduta do apresentador. A representação se baseia no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros e destaca os seguintes artigos:

Art. 7º O jornalista não pode (…) V – usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime;

Art. 10. A opinião manifestada em meios de informação deve ser exercida com responsabilidade;

Art. 12. O jornalista deve (…) III- tratar com respeito todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar.

Na última segunda-feira (20), em outra manifestação de Pittoli, o radialista chegou a afirmar que a ocupação na Praça Portugal entre os dias 16 e 19 de setembro foi “movida a muita maconha e muita festinha”. Ele também chamou de “vagabundos e maconheiros” os ativistas, militantes e moradores da região da praça que estiveram presentes no protesto.

Crianças, idosos e moradores da região estiveram na Praça Portugal entre os dias 16 e 19 deste mês, compondo as atividades do acampamento "Levante Pelas Raízes" (Foto: Camila Araujo/Jornal Dois)

“A forma como ele se referiu a todo o levante, que incluía movimentos sociais, estudantes, professores, cidadãos e partidos políticos, foi extremamente desrespeitosa”, disse a vereadora ao J2, afirmando que após sua intervenção na tribuna na Câmara na segunda-feira a respeito dos comentários do radialista, ele teria entrado em contato com a parlamentar dizendo que não estava se referindo a ela. “Eu disse que quando ofendem aos meus, ofendem a mim também. Eu estava num coletivo, e não isolada”, acrescentou.

Na quinta-feira (23), depois das falas contra a petista, Pittoli reafirmou seu posicionamento contra as pessoas que estiveram na Praça Portugal: “Eu falei dos maconheiros e vagabundos que tinham ali no final de semana, além de pessoas do bem”, acrescentando que não estava “nem aí para os que estão bravos, porque a família que lá foi sabe que não é dela que eu estou tratando”.

De acordo com a vereadora, o radialista ligou para o seu gabinete ao saber da repercussão dos seus comentários. Estela disse que não quis falar com o comunicador. No mesmo dia, à tarde, ele falou na rádio que teria brincado pela manhã. “Foi uma sutil brincadeira. Mas ela entendeu como uma ameaça de morte”, disse.

“À tarde eu soube que ele me mencionou em vários momentos dizendo que era brincadeira e eu que não tinha entendido. Além de querer me matar, também me chama de burra? Eu sei muito bem o que alguém faz com o outro com uma foice na mão, que inclusive é uma arma branca. A frase dele é inequívoca. Tentar se fazer de desentendido é ainda mais absurdo”, afirmou Estela ao J2.

Após o episódio, a vereadora disse ter sido procurada pelo Observatório Nacional da Mulher na Política, lançado em junho deste ano por iniciativa da Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados. O órgão é composto por pesquisadoras, parlamentares e representantes de organizações governamentais e não-governamentais, e tem como objetivo mapear a atuação de mulheres na política nas esferas federal, estadual e municipal.

“Meu espaço de atuação e de luta é a tribuna, o Plenário da Casa. E quando o mandato foi atingido, sobretudo na minha condição de mulher, foi um crime de misoginia. Há leis que garantem a livre atuação parlamentar das mulheres”, afirmou, referindo-se ao artigo 326-B da Lei 14192 de 4 de agosto de 2021.

A lei prevê reclusão de 1 a 4 anos e multa para quem “assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar, por qualquer meio, candidata a cargo eletivo ou detentora de mandato eletivo, utilizando-se de menosprezo ou discriminação à condição de mulher ou à sua cor, raça ou etnia, com a finalidade de impedir ou de dificultar a sua campanha eleitoral ou o desempenho de seu mandato eletivo”.

Alexandre Pitolli é apresentador da rádio Jovem Pan News Bauru (Colagem por Letícia Sartori do Jornal Dois sobre imagem reprodução/Twitter)
Alexandre Pitolli é apresentador da rádio Jovem Pan News Bauru (Colagem por Letícia Sartori do Jornal Dois sobre imagem reprodução/Twitter)

“Ele tem uma postura de direita, o que até então é um direito dele, mas agora tem avançado para o fascismo”, opinou Estela. De acordo com a vereadora, Pittoli “tem sido extremamente agressivo com os movimentos progressistas, preconceituoso, e isso quebra com o ofício de um jornalista, porque ele tem que considerar posições distintas, ainda que ele se incline por uma delas”.

Assim como todas as emissoras de rádio e televisão do país, a Jovem Pan News local é uma concessão pública. Segundo o Artigo 221 da Constituição Federal, todo veículo de comunicação que dependa de licença do Estado deve “respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família”.

Em agosto de 2020, durante apresentação de seu programa na rádio, o radialista afirmou que educadores da rede de ensino municipal deveriam ter “vergonha na cara” pelo atraso da Prefeitura na distribuição do vale-merenda e questionou os salários de diretores de escolas públicas. Em janeiro de 2021, quando o número de mortos pela covid-19 no Brasil chegava a 225 mil pessoas, Pittoli chamou os professores do município de “covardes e vagabundos” por estarem ministrando aulas à distância. “Pode chamar a rádio de fascista, do que vocês quiserem, não tô nem aí”, acrescentou.

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