Uma breve história do Anarquismo – Parte 1: origem

O Anarquismo é, historicamente, uma das ideologias de esquerda mais importantes da história e, talvez, a mais difamada, distorcida e perseguida

Publicado em 20 de setembro de 2021

Bandeira anarquista (Reprodução/Desconhecido)
Por Arthur Castro, colunista do J2

O Anarquismo é, historicamente, uma das ideologias de esquerda mais importantes da história e, talvez, a mais difamada, distorcida e perseguida. Minha intenção, com essa série de cinco textos, é contribuir um pouco para desmistificar o que é contado sobre essa doutrina política e jogar um pouco de luz sobre o assunto.

Antes de mais nada, é preciso dar o “papo reto”: o anarquismo é um tipo de Socialismo, de extrema esquerda, que defende uma transformação revolucionária da sociedade. O que é isso na prática?


Socialistas anarquistas querem o fim de todos os sistemas de dominação social, onde um grupo de pessoas impõe sua vontade sobre outros grupos de pessoas. Ao invés disso, defendem uma sociedade baseada na democracia direta: todas as pessoas podem discutir, debater e decidir por consenso ou voto da maioria.

Se isso parece absurdo, se prepare: anarquistas não só foram, por muitos anos, a maior força socialista mundial, como tiveram suas próprias revoluções. Nas próximas linhas, pretendo contar um pouco sobre o surgimento dessa ideologia, como primeira parte de uma série em seis partes.

Todas as fontes podem ser encontradas nos artigos, dissertações, teses e textos disponíveis gratuitamente no Instituto de Teoria e História Anarquista (ITHA). Entre no site e aproveite o conteúdo.

Um mundo de cabeça para baixo

Tudo começou na Idade Moderna (século 16 a 18). O mundo passava por grandes mudanças na política, na economia e na cultura. E foram essas mudanças que prepararam o caminho para o nascimento do Anarquismo.

Vamos começar olhando para um pequeno pedaço de terra que se chama Europa (essa história vai se espalhar para o mundo inteiro mais para frente). Depois de séculos de controle religioso da Igreja Católica, o Papa via seu poder diminuir. Primeiro veio a Reforma Protestante, que criou várias novas interpretações do cristianismo, enfraquecendo o domínio católico. Mas a maior e mais profunda mudança de pensamento foi iniciada pelo Renascimento e, continuada, pelo Iluminismo.

Basicamente, a religião estava deixando de explicar tudo. Físicos, químicos e biólogos mostravam que era possível entender o mundo sem precisar de explicações espirituais, e isso não era a mesma coisa que ateísmo (alguns eram ateus, a maioria acreditava em Deus). Isso irritou e muito a Igreja, que tentou, sem sucesso, abafar as descobertas com a Santa Inquisição (a famosa arte de mandar para a fogueira).

Quando o mundo passou a ser explicado pela razão, deixou de fazer sentido para muitas pessoas a existência de reis e nobres. Começou, assim, uma época de revoluções. A primeira de todas ocorreu na Inglaterra (1688), e quase 100 anos depois os Estados Unidos (1776) e a França (1789) também fizeram. Não parou na Europa. Na mesma inspiração, o Haiti protagonizou uma revolução do povo negro contra a escravidão e o colonialismo francês, e pouco depois a América Latina como um todo se libertou do controle de Portugal e Espanha.

“Revolução” é uma palavra que significa uma mudança muito rápida. No caso acima, as revoluções políticas significaram uma mudança rápida de sistemas monárquicos absolutistas (o rei manda em tudo) para sistemas parlamentares e republicanos (políticos eleitos). Não foi simples e não foi do dia para noite – tiveram guerras civis, guerras entre países, caiu rei, voltou rei, caiu rei de novo, golpe de Estado, golpe dentro do golpe. Mas no fim, os antigos donos da Europa – a nobreza, os senhores feudais e os reis – foram derrubados.

Mas nem toda revolução acontece na política – esse foi o caso da Revolução Industrial. Até então, a maior parte da Europa era rural, baseada em camponeses trabalhando para nobres donos de terras. Algumas poucas cidades eram organizadas em torno da manufatura e do comércio (pessoal fazia as coisas na mão mesmo e vendia), até que começaram a surgir as primeiras indústrias com máquina à vapor.

O surgimento da fabrica e da produção de larga escala virou o mundo inteiro de cabeça para baixo. O impacto começou na própria Europa, de três formas: (l) os pequenos comerciantes não conseguiam competir com as grandes indústrias e foram à falência; (ll) em vários países, os ricos conseguiram aprovar leis que retiravam o direito das famílias camponesas sobre a terra e as concentravam nas mãos dos próprios ricos; (lll) os donos dos negócios começaram a mandar na política e na cultura.

Toda aquela mudança de pensamento, todas aquelas transformações políticas, que haviam mobilizado milhões de pessoas em diversos países na busca pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, tudo passou a ser comandado por uma nova classe social: a Burguesia. Vamos entender a diferença. No passado, a maioria das terras eram propriedade da nobreza de sangue azul e o governo pertencia ao rei, tudo isso pela vontade de Deus. Agora, os governos poderiam ter ou não reis simbólicos (função decorativa), mas o verdadeiro poder pertencia à burguesia porque ela tinha a propriedade privada e a maior parte dos cargos políticos. Assim surgiu o Capitalismo, um sistema social que divide todas as pessoas em duas classes: a própria burguesia, dona da propriedade, e o proletariado, que só tem como opção trabalhar por salário. Patrões e trabalhadores/as.

Radicalizando a esquerda

A classe burguesa não havia feito essas revoluções sozinha, mas agora excluía a maior parte da população dos ganhos sociais. O voto era censitário (para ricos), masculino (para homens) e branco (nos Estados Unidos ainda existiam escravizados). Mas a época revolucionária não poderia ser parada. Nas Américas acumulava força o movimento abolicionista, que exigia o fim da escravidão, e não demorou muito para o feminismo ganhar corpo e garantir importantes conquistas para as mulheres. Em meio a todos esses conflitos sociais, no século 19, a Europa estava dividida em quatro “facções”.

Na extrema direita estavam os reacionários, ligados às famílias aristocráticas e ao clero religioso, e que queriam fazer o mundo voltar ao passado feudal e monárquico. Mais moderados eram os conservadores, setores burgueses que desconfiavam da participação popular e desejavam governos de ricos para ricos.

Na esquerda haviam os republicanos, uma parte progressista da burguesia, apoiadora do sufrágio universal (todo mundo votando) e simpática a alguns direitos sociais. Por fim, vinha nascendo o Socialismo, uma diversidade de ideologias políticas que defendiam o fim da desigualdade econômica e a construção de um mundo onde não existisse pobreza, fome e opressão.

Os primeiros socialistas não defendiam novas revoluções, mas mudanças pacíficas, que ocorreriam por meio de uma evolução no pensamento humano. Isso poderia se dar de várias formas, como criação de redes de apoio mútuo, comunidades alternativas igualitárias, entre outras. Dois nomes, entretanto, se destacaram no estabelecimento de uma esquerda socialista mais revolucionária: Pierre-Joseph Proudhon e Karl Marx.

O francês Proudhon, conhecido pelas obras O Que é Propriedade? e A Filosofia da Miséria, foi o fundador da doutrina política conhecida como mutualismo. Economicamente, ele defendeu uma estratégia baseada em cooperativas organizadas pela classe trabalhadora que rivalizariam, disputariam o mercado contra as empresas capitalistas. Isso significa que o mercado e o comércio continuariam a ser a base da sociedade, mas sem a figura do patrão.

Politicamente, Proudhon defendia o federalismo: a substituição do governo centralizado, o Estado, por uma democracia direta.

É preciso aqui diferenciar democracia representativa e delegação. No primeiro caso, políticos são eleitos por um mandato fixo, e durante esse período podem governar como bem quiserem; no segundo caso, delegados devem apenas transmitir decisões tomadas pela base que o indicou, e a qualquer momento podem ter seu mandato revogado.

Imaginemos da seguinte forma: cada bairro da cidade possui uma assembleia popular, na qual todos os moradores debatem e votam. Então, o delegado eleito daquele bairro se reúne com outros delegados (de outros bairros) e apresenta o que sua base votou. Se em algum momento sua atuação desagradar, o bairro, em assembleia, pode substituí-lo por outra pessoa.

Com propostas diferentes, o jornalista alemão Karl Marx vinha crescendo em popularidade com livros como A Ideologia Alemã, O Manifesto Comunista e, muito tempo depois, O Capital. Ao contrário do programa proudhoniano, o principal nome do comunismo defendia uma economia totalmente socializada sob controle da classe trabalhadora: não bastava não existirem patrões, era preciso superar a lógica de mercado.

Politicamente, Marx acreditava que, em um grau ou outro, a centralização política era necessária. Não rejeitava totalmente o debate sobre delegação, mas não a via como algo obrigatório, pois a estrutura hierárquica estatal poderia cumprir papéis importantes.

Dessa forma, as teorias proudhoniana e marxista, ainda que divergentes, teriam um grande efeito sobre um jovem revolucionário russo chamado Mikhail Bakunin.

Um Socialismo Federalista

Mikhail Bakunin era um jovem militar russo de origem nobre que, após se interessar por filosofia, foi estudar na Alemanha. No ano de 1848, se envolveu com a Primavera dos Povos: uma série de revoluções contra os reis de toda a Europa. Acabou preso e trancafiado por mais de 10 anos nas masmorras do Império Russo.

Após uma fuga mirabolante, com passadas pelo Japão e pelos Estados Unidos, Bakunin, finalmente livre, se juntou à organização conhecida como Liga da Paz. Era um grupo de burgueses progressistas e intelectuais liberais reunidos para criticar as guerras entre nações. Inicialmente esperançoso de que poderia surgir algo dali, logo se desiludiu, abandonando o grupo enquanto defendia um projeto socialista revolucionário.

Mikhail Bakunin já havia conhecido pessoalmente tanto Proudhon quanto Marx, e admirava ambos. Do primeiro, incorporou sua defesa da descentralização política, e do segundo, a proposta de uma revolução socialista e o controle social da economia. Assim, junto com um grupo de militantes, Bakunin participou da fundação da Aliança da Democracia Socialista.

Para os membros da Aliança, ou aliancistas, as classes populares – independente de cor, nacionalidade ou sexo – deveriam ser mobilizadas para um projeto revolucionário que destruísse três dominações sociais: (l) a dominação econômica, da classe capitalista, e sua substituição pelo socialismo; (ll) a dominação política, da burocracia estatal, e sua substituição pelo federalismo; (lll) a dominação cultural, do clero religioso, e sua substituição pela educação científica e racionalista.

E qual seria a estratégia para preparar essa Revolução? O dualismo organizacional. Para explicar esse pensamento, vou usar exemplos atuais, e depois voltar para o século 19.

Um sindicato é uma organização que representa um setor da classe trabalhadora. O sindicato dos bancários representa os bancários, o sindicato dos servidores municipais representa os servidores municipais, o sindicato dos professores estaduais representa os professores estaduais, etc. Para um sindicato ser forte, ele precisa do máximo de trabalhadores filiados e, principalmente, atuantes. Se o sindicato disser “só filio pessoas do Partido x ou da ideologia y”, esse sindicato provavelmente vai enfraquecer. Por isso, o sindicato deve ter uma filiação ampla e geral.

Mas o sindicato sozinho nunca irá construir uma revolução. Não é nem esse seu papel. Ele pode organizar a classe trabalhadora, fazer greve, conquistar direitos, e ponto final. Querer que um sindicato, com uma diversidade ideológica, caminhe automaticamente para o Socialismo seria sonhar demais. É preciso que os revolucionários tenham sua própria organização para influenciar os rumos do sindicato.

Se o sindicato é amplo, a organização anarquista deve ser restrita. Para entrar, o filiado, em primeiro lugar, precisa ser anarquista, ou seja, estar de acordo com programas políticos, estratégias e teorias definidas. O militante anarquista, organizado com outros anarquistas, deve atuar no sindicato, não para impor sua ideologia (o que racharia o sindicato), mas para influenciar sua luta para os rumos revolucionários.

Para Mikhail Bakunin, a organização anarquista era a Aliança da Democracia Socialista, e o sindicato era a Associação Internacional dos Trabalhadores.

A Associação Internacional dos Trabalhadores

Fundada em 1865, a AIT ou apenas Internacional era composta por uma diversidade de organizações trabalhistas de diversos países. Entre seus membros haviam pessoas de várias ideologias, incluindo mutualistas proudhonianos, comunistas marxistas, sindicalistas moderados, republicanos, entre outros.

Os seguidores de Proudhon, que já havia falecido, defendiam posições moderadas, desconfiavam da revolução e nem mesmo concordavam com direitos trabalhistas. Em 1868, os membros da Aliança entraram para a Internacional, e se juntam aos marxistas contra os mutualistas, que foram derrotados. Mas logo depois, uma divergência interna começou a crescer.

A disputa entre Karl Marx, de um lado, e Mikhail Bakunin, de outro, vai girar em torno de quatro temas principais.

Em primeiro lugar, o assunto mais conhecido, era sobre o papel do Estado. Para Bakunin, a máquina estatal era uma instituição hierarquizada, baseada na dominação de burocratas sobre a população, e deveria ser destruída por uma revolução. Para Marx, o Estado era uma ferramenta que poderia ser usada para garantir avanços para a causa da classe trabalhadora; dependendo do país, o socialismo até mesmo poderia ser implantado pelo voto de modo pacífico.

Isso necessariamente levaria ao segundo conflito. Como já explicado, a Aliança defendia a Associação Internacional dos Trabalhadores deveria se manter como um grande sindicato para toda a classe trabalhadora, independente de ideologias. Para Marx, a Internacional deveria se transformar em um partido político, seguindo o projeto do Manifesto Comunista, e lançando candidatos nas eleições.

O terceiro debate envolvia a “classe revolucionária”. Para Bakunin, qualquer setor oprimido poderia ser revolucionário: o proletariado (trabalhadores assalariados), o campesinato (agricultura familiar) e o “lumpenproletariado” (marginalizados, como moradores de rua, prostitutas, pessoas cooptadas pelo crime, etc) eram importantes para a transformação social e deveriam ser atraídos para um projeto radical. Para Marx, o contexto histórico havia colocado apenas a classe proletária como central, e a participação ou não do restante da sociedade era secundária.

Por fim, Bakunin acreditava que todo povo e toda nação, mesmo as menores, tinham direito à autodeterminação. Nenhum país poderia controlar o outro. Para Marx, isso também era relativo: apesar de ter defendido a luta irlandesa contra a dominação inglesa, viu com bons olhos a colonização da Índia pela Inglaterra como forma de gerar desenvolvimento. Engels, aliado e amigo de Marx, chamou os mexicanos de “preguiçosos” e elogiou a atitude dos Estados Unidos de ter conquistado, pela guerra, territórios do México.

A polarização entre federalistas e centralistas dividiu a Internacional, com ampla vantagem para o primeiro grupo. A tentativa de Marx de impor a transformação da AIT em um partido acabou por virar a maior parte dos membros contra ele. A Aliança era influente na Suíça, na Espanha, na Itália e na França.

Então, em 1871, ocorreu a Comuna de Paris, quando a população assumiu o controle da capital francesa. A influência anarquista era notável através da participação de militantes como Louis Varlin e os irmãos Élie e Élisée Reclus, bem como a implantação de um sistema político federalista. Mas a repressão logo veio, e o resultado foi mais ou menos 30 mil mortos e outros tantos presos. O governo francês endureceu contra qualquer atividade socialista.

Vendo uma oportunidade, Marx, que mantinha cargo de dirigente da AIT, convocou o próximo Congresso da entidade em Haia, Holanda. Quando olhamos para o mapa, é fácil entender a manobra: todos os países com maioria federalista e alinhados com a Aliança precisariam atravessar a França para participar. Não haviam viagens de avião e os delegados que tentassem atravessar terras francesas estariam com suas vidas em risco.

Assim, através dessa articulação, Karl Marx conseguiu a maioria dos votos para aprovar a expulsão de Mikhail Bakunin e James Guillaume, outro aliancista, da AIT. Em resposta, mais da metade da organização anunciou rompimento. Foi o fim da Primeira Internacional.

As cinco ondas

Nas próximas partes, abordarei o desenvolvimento histórico do Anarquismo ao longo de cinco ondas, conforme as pesquisas historiográficas mais recentes vem apontando. A primeira onda (1868-1894) envolveu a expansão da ideologia anarquista por todo o globo, em especial pela estratégia sindical; a segunda onda (1895-1923) foi marcada pela forte atuação do sindicalismo revolucionário no “Terceiro Mundo” e por duas revoluções com influência anarquista; a terceira onda (1924-1949) se destacou pela resistência internacional ao fascismo; a quarta onda (1950-1989) viveu um enfraquecimento das ideias libertárias diante de ditaduras de direita e de “esquerda”; por fim, a quinta onda (1990 em diante) se firmou na oposição ao neoliberalismo e ao capitalismo globalizado.

A história do Anarquismo é uma história recheada de vitórias e derrotas, de mulheres e homens que enfrentaram as poderosas estruturas de dominação do Estado e do Capital. Muita dessa participação foi apagada por outras forças políticas, mas graças à força de vontade de inúmeros pesquisadores e militantes, esses acontecimentos vão sendo descobertos e trazidos à luz do dia.

“…podem estar certos de que o trabalho não será perdido — nada se perde neste mundo — e as gotas de água, por serem invisíveis, nem por isso deixam de formar o oceano.” – BAKUNIN, Mikhail. Carta a Elisée Reclus (15/02/1875)

*Arthur Castro é professor de História e integrante da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL).

 

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