Tambores, hip hop e luta por direitos: a premiação Zumbi dos Palmares em 2021

Entrega do Prêmio Zumbi dos Palmares homenageou Casa do Hip Hop de Bauru, o músico Diogo Alves e o advogado Mário Henrique da Luz Prado (in memorian) 

Publicado em 21 de dezembro de 2021

Prêmio é realizado anualmente desde 2004, com candidatos indicados pelo Conselho da Comunidade Negra de Bauru (Colagem: Joyce Rodrigues/Jornal Dois)
Por Joyce Rodrigues
Edição de Michel Amâncio

“Peço todos os dias para que meus filhos encontrem pessoas igual a vocês”, declarou o vereador Julio Cesar (PP) na abertura da Sessão Solene de entrega do Prêmio Zumbi dos Palmares, realizada na última terça-feira (14), na Câmara Municipal de Bauru. O vereador direcionou sua fala aos três premiados da noite: Diogo Alves, músico e percussionista; Renato Magu, representante da Casa do Hip Hop Bauru; e Daiane Guimarães, viúva de Mário Henrique da Luz do Prado – advogado e presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB de Bauru, que faleceu em maio de 2021 em decorrência da Covid-19 e recebeu a homenagem póstuma na premiação deste ano. 

 

O Prêmio Zumbi dos Palmares é entregue anualmente desde 2004 a três pessoas físicas ou jurídicas em reconhecimento pela “luta contra o racismo, discriminação e preconceito, preservação e divulgação da cultura africana”. Os homenageados são indicados pelo Conselho da Comunidade Negra de Bauru, com aprovação prévia da Câmara dos Vereadores. A homenagem foi implementada pelo ex-vereador José Walter Lelo Rodrigues através da Resolução 430, aprovada em 2003. Desde a sua fundação, foram premiadas mais de 50 figuras importantes na cidade, entre instituições, entidades, coletivos e pessoas físicas.

Presidida pelo vereador Marcos Antônio de Souza (PSDB), a sessão de entrega do prêmio teve início por volta das 19h40, com cerca de 50 pessoas presentes, entre familiares e amigos dos homenageados. Além dos vereadores, estavam presentes Sebastiana de Fátima Gomes, presidente do Conselho da Comunidade Negra, e as conselheiras Jamile da Silva Gonçalves, Joelma Moura e Suzana Maria Pedra Andrade. Tatiana Sá, secretária de Cultura, esteve representando a prefeita Suéllen Rosim (Patriota), que não participou do evento. 

 

 

 ‘Reduto de nóia’

 
"Esse ano perdi minha vó, uma mulher negra e indígena [...]. O sonho dela era me ver formado. Então vó, tá aqui o diploma", declarou Magu ao receber o prêmio. (Foto: Joyce Rodrigues/Jornal Dois)

Em discurso de agradecimento, Renato Magu, produtor cultural e representante da Casa do Hip Hop, considerou como “representativo” o recebimento do prêmio na Câmara dos Vereadores. “Para nós, é muito representativo receber o prêmio nessa casa, onde nessa tribuna, a Casa do Hip Hop foi chamada de ‘reduto de nóia’ e acusada de ‘deseducação’”. A fala se refere ao comentário do vereador Benedito Meira (PSL), que em uma sessão da Câmara em setembro de 2018, se referiu à Estação Ferroviária, local que sediava a Casa do Hip Hop e o Cursinho Popular Hip Hop, como “reduto de nóia”. 

Na ocasião, o vereador declarou que a estação deveria ser utilizada para a construção de um “mercadão”, e que aquele era um local de “deseducação, negócio de hip hop, essa ‘porcariada’ de funk” A acusação gerou indignação de alunos, profissionais da educação e frequentadores do espaço. Na época, a Estação Ferroviária também sediava os ensaios da Banda Sinfônica Municipal de Bauru e Orquestra Sinfônica Municipal de Bauru. Atualmente, as atividades que aconteciam na Estação Ferroviária seguem paralisadas, em decorrência do comprometimento da estrutura do local, que apresenta riscos de desabamento.

 “Sim, lá era uma reduto de ‘nóias’, pois todos aqueles que parte da sociedade bauruense esconde ou finge que não vê, eram e sempre serão bem vindos em todos os nossos espaços” – Renato Magu

Para Magu, a premiação foi uma “resposta” ao poder público que, de acordo com o produtor, sempre tentou “fechar nossos espaços e danificar nossa imagem”. “A mesma tribuna que nos acusou foi palco da nossa premiação através do reconhecimento do nosso trabalho por quem de fato deve reconhecer, que são as pessoas atendidas pelos nossos projetos”, declarou o produtor. Como único representante da Casa do Hip Hop na entrega do prêmio, Magu fez questão de lembrar que o projeto é uma construção coletiva.

Ao agradecer pelo prêmio, Renato Magu pediu para que todos os colaboradores e apoiadores da Casa do Hip Hop presentes na audiência recebessem as palmas do público (Foto: Joyce Rodrigues/Jornal Dois)

O produtor também mencionou Roque Ferreira, ex-vereador falecido em setembro de 2020 em decorrência da Covid-19. “Sempre somou às nossas lutas e dividiu conosco as trincheiras quando ocupamos essa casa para pedir a aprovação da lei da Semana do Hip Hop”. O maior evento de Hip Hop da América Latina foi sancionado como lei em 2013, fazendo parte do calendário oficial da cidade. Magu também agradeceu à vereadora Estela Almagro (PT) e aos produtores Edson Timbá e Rayra Pinto, co-fundadores da Casa do Hip Hop.  

Musicalidade e resistência

Em seu discurso, Diogo Alves dedicou o prêmio à sua falecida mãe. "Foi a primeira pessoa a acreditar no meu trabalho". (Foto: Joyce Rodrigues/Jornal Dois)

Diogo Alves, percussionista e músico das religiões de matriz africana, ressaltou em seu discurso a importância dos tambores em sua trajetória, e que o ano tem sido de “vitórias”. “Estamos na batalha, e graças aos tambores, pudemos levar o nome de Bauru para o PROAC”. O músico se refere à aprovação de seu projeto no último edital do Programa de Estímulo à Cultura, promovido pela Secretaria de Economia Criativa do estado de São Paulo. Em meio a um total de 1.031 projetos inscritos, Diogo foi selecionado na categoria “Música – Filmagem e licenciamento sem exclusividade de espetáculos para exibição online”, sendo contemplado com o valor de 50 mil reais para a gravação do clipe da música “Um Canto Para Meus Ancestrais” – trabalho autoral em parceria com outros músicos bauruenses, onde os tambores e os ritmos de matriz africana são os protagonistas da composição. 

 

“Ser preto e ser macumbeiro nesse país custa caro, custa a vida. Toda honra e glória a Exu” – Diogo Alves

Em meio às lágrimas, Dayane Guimarães ressaltou a luta de Mario Henrique pelos direitos da comunidade negra através da advocacia (Foto: Joyce Rodrigues/Jornal Dois)

Visivelmente emocionada, Dayane Guimarães não conteve as lágrimas ao falar do ex-marido, Mário Henrique de Luz do Prado, que recebeu o prêmio postumamente. O advogado e ex-presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB de Bauru faleceu em maio de 2021, aos 33 anos, após dez dias entubado em decorrência da Covid-19. Na época, a taxa de ocupação das UTIs de Bauru estava em 100% e apenas 13,9% da população havia recebido as duas doses da vacina. 

 

No discurso de agradecimento, Dayane ressaltou que sete meses depois da morte de seu marido, sente-se “orgulhosa” de perceber que o trabalho do advogado “marcou a vida das pessoas”. “Ele diria algo bonito e inspirador e que despertaria uma voz dentro de nós e que nos encorajaria a seguir na luta pela vida. O Mário se dedicou muito por todos nós, por todos os direitos sociais e por um país livre do racismo”.

 

Chamado da ancestralidade

Sebastiana de Fátima Gomes homenageou também as mulheres presentes na sessão: "obrigada por resistirem contra o poder que continua querendo nos escravizar". (Foto: Joyce Rodrigues/Jornal Dois)

Ao ser convidada para falar, Sebastiana de Fátima Gomes, presidenta do Conselho Municipal da Comunidade Negra, ressaltou a importância de reconhecer a própria ancestralidade. Segundo a conselheira, o reconhecimento de suas origens africanas foi “tardio”, e relatou ter tido este reconhecimento pela primeira vez ao viajar para a África. “No caminho, lembrei dos meus ancestrais. Pensei ‘caramba, estou aqui no conforto. Como eles aguentaram tantos dias na violência do navio negreiro?”. Sebastiana também relatou que durante sua vida, ouviu muitos equívocos sobre a própria história. “Me disseram que sou descendente de escravos. Mas sou descendente de heróis. Líderes que tinham uma cultura e que foram sequestrados para servir esse país por 354 anos. Isso a escola não me ensinou”, desabafou.

 

“O 14 de Maio continua até hoje, porque após o 13 de maio (Dia da Abolição da Escravidão), nós negros não tivemos nenhum apoio para ganhar cidadania completa. É por isso que o Conselho da Comunidade Negra luta.” – Sebastiana de Fátima Gomes

Tatiana Sá, secretária da Cultura, esteve representando a prefeita Suéllem Rosim na premiação (Foto: Joyce Rodrigues/Jornal Dois)

Tatiana Sá, secretária de Cultura, destacou a importância dos premiados da noite na luta contra o racismo e pela identidade negra. “Eles vão ter que se acostumar com a gente nesses lugares de fala. Como secretária de Cultura, mulher e negra, tenho passado por muitos momentos como esse: de entrar em um lugar e não ser reconhecida como tal”, declarou Sá, ao mencionar a fala inicial do vereador Julio Cesar. 

 

“Eles vão precisar entender que existe uma secretária de Cultura negra sim, que existem homenageados sentados numa Câmara sim, e que nós podemos estar em todos os lugares que quisermos estar com dignidade.” – Tatiana Sá

 

A premiação se encerrou com a apresentação de Diogo Alves, acompanhado dos ogãs (título dado aos responsáveis pelos toques das religiões de matriz africana) Junior de Jaguinan e Damião de Obá Byií, da música “Um Canto Para Xoroquê” – composição autoral do percussionista interpretada pela cantora e conselheira Jô Moura. Antes, uma saudação a Exu, divindade do panteão africano cultuada na abertura das cerimônias das religiões de matriz africana, foi cantada para abrir a apresentação. 

Jô Moura: "Todos estes homens que foram representados hoje aqui, estão representando a nossa ancestralidade de Ogum, que é o que nos dá força para continuar" (Foto: Joyce Rodrigues/Jornal Dois)

Para Jô Moura, a apresentação na tribuna foi “extremamente simbólica”. “A gente luta pra estar nos espaços dos quais a gente sempre foi segregado. Estar ali apresentando foi um momento único por ser nesse momento de pandemia, onde estamos com o governo municipal completamente fora da realidade dessa nossa luta”. A cantora recebeu o Prêmio Zumbi dos Palmares em 2015, em reconhecimento ao seu trabalho com a musicalidade afro na cidade. Na ocasião, Jô Moura não pôde se apresentar na premiação. “Estarmos conseguindo nos apresentar em 2021 com o toque do tambor é um ato revolucionário. Me sinto muito feliz e honrada e não aceito menos do que isso”. 

 

A Sessão Solene do Prêmio Zumbi dos Palmares está disponível no canal da TV Câmara de Bauru.

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