Sexualidade, muito prazer

Aos leitores dessa coluna, um aviso: o texto a seguir não morde, não causa traumas e nem os supostos “desvios sexuais”

Publicado em 3 de fevereiro de 2022

(Arte por IRN, Iriane Leme, em colaboração com o J2)
Por Laura Hanitzsch, colunista do J2

Não é de hoje que a sexualidade é tabu em nossa sociedade, mas isso não impede que o tema seja abordado em novelas, filmes, livros e que esteja na boca do povo. É comum acreditarmos que só se fala (ou deve-se falar) sobre esse universo quando um profissional vai à escola palestrar sobre educação sexual, quando os pais têm “aquela conversa séria” sobre sexo com os filhos adolescentes ou quando uma jovem menstrua pela primeira vez. 

Venho aqui para contar algo muito importante, mas que talvez não seja tão óbvio: sexualidade não é apenas sobre isso. Sua amplitude nos foi escondida, usurpada e abafada. Esqueceram de nos contar que corpo, roupas, valores, amor, dança e maquiagem também são sexualidade. Ao contrário de esconder este universo, aqui nesta coluna a sexualidade humana será colocada em evidência. Vamos falar sobre sexo, menstruação, orientação sexual, família, flerte, identidade de gênero, gravidez e outros tantos assuntos que, na maioria das vezes, são debatidos sob viés conservador ou de maneira ressabiada (ou melhor, “cheia de dedos”).

Escrever sobre sexualidade humana não é tão simples, nem tão fácil: para mim, também é um desafio. Isso porque aprendi, quando pequena, que sexo era algo proibido, que transar com certeza resultaria em uma IST e que, se eu engravidasse, a culpa seria minha. Levou e ainda vai levar muito tempo para que certos imaginários negativos sobre a sexualidade sejam desfeitos. Convido-os aqui para que possamos juntos falar sobre o tema e abrir espaço para olharmos para nossos corpos e prazeres de maneira mais positiva, benevolente e carinhosa. É para isso que escrevo essa coluna.

Afinal, o assunto sexualidade, de forma não tão óbvia na maioria das vezes, está presente na mídia, na escola ou na política. Casamento, homossexualidade, aborto e sexo, não estão só na boca do povo, mas na boca do governo, no Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos e no Palácio do Planalto. Vamos relembrar que nosso presidente, Jair Bolsonaro, elegeu-se falando de “kit gay” e “mamadeira de piroca”, se mantendo no tema afirmando que é incomível, espalhando falsa relação entre HIV e vacina, supondo tamanho do pênis de pessoas asiáticas e dizendo que linguagem neutra e não-binarie “estraga a garotada”. Parece mesmo que, apesar de ser tão avesso ao tema, o chefe do executivo está com a boca cheia de sexualidade.

Não é novidade que o tema seja usado como moeda política. Para quem estuda história, fica muito nítido como a era vitoriana “caiu de boca” na repressão sexual para controlar todo um povo, afetando nossa compreensão sobre sexualidade até nos dias de hoje. Para transmitir o puritanismo da “moral e dos bons costumes” entraram em cena as religiões, os médicos, as escolas e as famílias, que precisaram falar sobre sexo para recomendar que não falassem sobre ele. Ou seja, parece que Bolsonaro e sua trupe são “old fashion” quando se fala em “toma lá dá cá” político. 

Toda essa história de coibição nos afastou, enquanto indivíduos e sociedade, do contato íntimo e sincero com a nossa sexualidade e com a do outro. Fomos condicionados a não ter essa percepção sobre nossos corpos e discursos, o que nos leva a encobrir o assunto. Não à toa estamos nessa confusão: não ecoam temas como a violência doméstica, a cultura do estupro, a feminilização da epidemia de HIV/AIDS, o casamento forçado infantil ou as altas taxas de mortalidade materna que temos na nossa pátria amada Brasil. 

Ao contrário de caminhos mais saudáveis para lidar com a sexualidade, o que bomba na internet, no “zap” e no Telegram é uma releitura da era vitoriana: repressão, vigilância e controle de corpos considerados impuros ou “inadequados”. Esse é o cenário que vemos quando pessoas adultas resolvem deliberadamente monitorar a expressão da sexualidade de professores e funcionários de uma instituição particular de ensino de Bauru. O que aconteceu não só me faz questionar “em que mundo estamos?!”, mas também relembrar que aqueles que proíbem esse tipo de debate são os que mais enchem a boca para falar sobre sexo, aborto, homossexualidade e educação sexual. Relembremos o falecido guru do presidente, Olavo de Carvalho, que mais falava sobre ânus e sexo do que os “defensores da ideologia de gênero”, como ele costumava chamar.

Na visão do governo, “aquela que não deve ser nomeada” (mas em sua boca, a mais pronunciada) é a polêmica sexualidade. Diferente disso, aqui serão colocados holofotes sobre o tema, o tratando sob uma perspectiva que defende a diversidade, o respeito e a democracia.  Sim, o assunto jamais falado, o tema jamais igualado, porém conhecidíssimo como a noite de Paris – parodiando a artista Leona Vingativa – será tema nesta coluna. Muito prazer, sexualidade.

 

Laura Hanitzsch é psicóloga formada pela Unesp de Bauru dedicada aos estudos de gênero e sexualidade.

As colunas são um espaço de opinião. Posições e argumentos expressos neste espaço não necessariamente refletem o ponto de vista do Jornal Dois.
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