Ruas de Bauru alagam há pelo menos 50 anos sem solução de planejamento

Mortes, pessoas feridas e arrastadas, perdas de bens e danos a estabelecimentos, de tudo já aconteceu em quase meio século de enchentes no município; período de chuvas no começo do ano não é o culpado: falta estrutura para drenagem e manejo das águas

Publicado em 19 de março de 2021

Falta de investimento em planejamento urbano é um dos fatores responsáveis pelas enchentes, segundo pesquisadora (Foto: Reprodução)
Por Ellen Sayuri
Edição Bibiana Garrido

O período de chuvas em Bauru ocorre no verão entre dezembro e fevereiro, os meses mais chuvosos da região sudeste brasileiro. Em 2021, a quantidade de chuva que caiu na cidade nesse período foi menor que no ano anterior, mesmo assim, houve alagamentos. Chuvas nos dias 25 de janeiro, 14 de fevereiro provocaram as maiores concentrações de água no município. De acordo com o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), foram 37,7 milímetros, 73,4 milímetros, respectivamente. Na quinta-feira, 18 de março, foram 52 milímetros de chuva. 

Há pelo menos 50 anos o problema se repete. Terezinha Silva, dona de casa, lembra os alagamentos em Bauru no século passado: “Na Baixada do Silvino, nos anos 60, toda vez que tinha enchente, a ponte sobre o rio Bauru, na rua Floresta, rodava e era improvisada uma passagem para pedestres, com alguma tábuas, era meu caminho para ir à escola , morria de medo de atravessar, era um transtorno para o trânsito o acesso ficava interrompido por um bom tempo!”.

Narrativa comum é que as chuvas e temporais “causam estragos”. Fato é que pessoas já morreram afogadas, arrastadas, sofreram acidentes, ficaram feridas, além de terem perdido bens e imóveis por conta das enchentes anuais na cidade. Para Ilza Machado Kaiser, professora do curso de Engenharia Civil e pesquisadora na área de Recursos Hídricos da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a questão é que falta planejamento na urbanização.

Bauru foi construída em meio a córregos e rios, sendo os maiores o Rio Bauru e o Rio Batalha. Em sua cobertura original, o fluxo de águas teria fácil absorção pelo solo arenoso  que é predominante no território. Obras de asfaltamento impermeabilizaram a terra, fazendo com que a água deixasse de ser absorvida por conta da barreira física do asfalto. Como bueiros e bocas de lobo não são suficientes para drenar chuvas fortes, a água acaba formando alagamentos em lugares de baixada. A vazão também pode se acumular nos cursos d’água, que transbordam por não suportar o volume.

Para a pesquisadora, é preciso que haja uma mudança no processo de urbanização da cidade para diminuir os estragos causados pelas inundações, com ações que possibilitem a absorção da água pelo solo. Um exemplo citado por Ilza é a transformação na modalidade de ocupação nas áreas atingidas, realocando avenidas e residências para serem substituídas por parques lineares. Os projetos de drenagem são necessários para fazer o manejo, mas contar somente com tubulações em galerias de drenagem não é o suficiente. Esses projetos de viés tradicional não dão conta de transportar de forma segura os volumes de água sempre crescentes em função do processo de urbanização”, diz. 

A mesma história, muitas perdas

Em dezembro de 2020, a placa do carro de Silas Souza, motorista de aplicativo, foi arrastada quando ele passava por uma enxurrada na Vila Paulista. No meio de uma chuva em 2019, Francisco Chagas da Silva, pedreiro, perdeu um relógio de pulso, em frente a um estabelecimento comercial na Avenida Nuno de Assis. Ele conta que a água quase o arrastou para um bueiro. 

Em 2019, mãe e filha tiveram o corpo arrastado pela enchente ao tentar passar pela ponte sobre o Córrego da Gama. A enxurrada que ocorreu na Avenida Daniel Pacífico, transbordou o córrego e fez com que o veículo em que elas estavam fosse levado pela água. Em 2010, um jovem de 24 anos também foi arrastado pela água na Avenida Nações Unidas. Ele estava dentro de um táxi no momento da chuva e, ao desembarcar, foi levado por vários metros, até ficar preso em um carro na Praça do Líbano

Henrique Alexandre, técnico de sistemas de segurança eletrônica, viu o asfalto na frente de sua casa ceder por conta de uma forte chuva, em 2018, no bairro Bela Vista. O prejuízo não se limitou à estrutura da rua, segundo ele. “Entrou água dentro do motor do carro, pelo escapamento, e tive que desembolsar cerca de R$ 500. Acabei não conseguindo reembolso”, conta.

Sara Isabel Constâncio, cuidadora de animais de estimação, comenta que as inundações na cidade não são recentes. Em 2001, quando morava na Rua Padre João, perto da Avenida Nações Unidas, ia a pé para uma festa com sua mãe e começou a chover “assustadoramente”. Elas desistiram de ir e voltaram para casa. “Quase fui arrastada pela enchente, meu sapato foi embora e a gente viu as placas de trânsito boiando pela avenida”.

Uma bauruense que preferiu não ser identificada vivenciou um episódio parecido na década de 1980, dentro de sua casa. Ela precisou ser resgatada por bombeiros, e conta que tudo que ficou lá dentro foi perdido. “Restaram apenas as roupas do corpo”, lamenta. E ressalta que a única ajuda recebida foi a dos vizinhos.

São áreas com maior risco de inundação na cidade: Avenida Alfredo Maia, Rua Benevenuto Tiritan, Vila Santa Inês, a Vila Falcão, Avenida Comendador José da Silva Marta e a Avenida Nações Unidas na altura da Linha Férrea e na quadra 17. Regiões que abrangem as zonas oeste, sul e central, identificadas pelo Mapeamento de Eventos Hidrológicos da Cidade de Bauru.

Herança administrativa

A gestão de Rodrigo Agostinho (PSB, à época no MDB ) realizou obras da Barragem da Água do Sobrado, que fica entre o Jardim Jussara e a Vila Nova Paulista, e na Bacia de Contenção da Nações Norte. Também foi elaborado o Plano de Atuação Emergencial que possui “por finalidade, instruir, orientar e definir quais as ações e procedimentos a serem realizados pela Prefeitura Municipal de Bauru e demais envolvidos, nos casos de alagamentos, enchentes e inundações”.

Na gestão do Clodoaldo Gazzeta (PSDB, à época no PSD), foram executadas obras para recuperar o Bairro Popular Ipiranga e asfaltamento na região do Jardim Ferraz com drenagem. Também foi implementado o Parque Linear do Bauru XVI e manutenção das galerias de águas pluviais, que são as tubulações responsáveis por drenar as águas da chuva. 

No plano de governo para as Eleições de 2020, a prefeita eleita Suéllen Rosim (Patriota) apresentou proposta de implementar o Plano de Prevenção de Desastres Naturais – Enchentes, se iniciado pela “revisão de bocas de lobos  que estão inadequadas”. O documento não elenca ações para evitar inundações, tampouco explica quando o plano seria colocado em prática, nem de que forma a gestão faria isso. 

Após enxurrada, em 18 de março, prefeita publica vídeo em ponto de alagamento da cidade em que diz: "sem dúvidas mais um dos nossos grandes desafios" (Foto: Reprodução)
Ocupação ferroviária

No início do século XX, Bauru se tornou um dos maiores entroncamentos ferroviários do interior do Brasil. O município teve seu crescimento econômico, cultural, comercial e urbano ao ser ponto de encontro das ferrovias Estrada de Ferro Sorocabana, Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) e Companhia Paulista de Estradas de Ferro. 

Os projetos urbanísticos iniciais não levaram em conta o desenho natural da geografia da cidade, e não havia sequer estudos sobre as bacias hidrográficas da região – o que resultou na ocupação e expansão irregular da zona urbana.  Com desgaste no solo e diminuição de espaços verdes, formou-se o cenário para a ocorrência de enchentes e alagamentos

Soluções possíveis

A falta de investimentos no setor do planejamento urbano é uma das principais barreiras para colocar projetos efetivos em prática, aponta Fernanda Foloni no estudo Rios sobre o asfalto: conhecendo a paisagem para entender as enchentes. “A análise dos cenários urbanos brasileiros revela a forma desordenada de apropriação do espaço, norteada pela ausência de um planejamento que considere o disciplinamento do uso e ocupação do solo como prerrogativa básica de seu ordenamento. Essa ocupação desordenada traz como conseqüências níveis abusivos de degradação ambiental evidentes no cotidiano urbano”. 

Mestre em Arquitetura e Urbanismo, a pesquisadora ressalta que as Prefeituras Municipais brasileiras “têm uma atuação tímida em relação ao problema” porque “não dispõem de um orçamento voltado à adoção de medidas de alto custo”. E destaca medidas estruturais e não estruturais para contenção das enchentes em longo prazo.

Como exemplo de obra estrutural, o trabalho cita desvios e escoamentos do volume de água – alertando que podem trazer “grave impacto à dinâmica ambiental, além de significar altos custos aos cofres públicos”.

No âmbito não estrutural estão: zoneamento de áreas inundáveis; políticas de uso e ocupação, que definem maior índice de área permeável em locais onde o solo favoreça a infiltração; maior fiscalização, visando ao cumprimento dos índices de permeabilidade definidos em Código Sanitário; leis de incentivo fiscal para preservação de áreas verdes em propriedades particulares; programas de educação ambiental para reduzir, por exemplo, o lixo em vias públicas e impedir a obstrução de galerias e bocas de lobo; e, ainda, o uso de reservatórios de contenção nas residências. 

“O uso de medidas não estruturais tem mostrado na prática resultados importantes, embora se aconselhe o uso simultâneo de duas ou mais medidas”, afirma a pesquisadora. E conclui: “a progressiva redução do pico de cheia de uma área pode estar relacionada não apenas ao planejamento do uso do solo, como à ocorrência de áreas verdes e reservatórios”. A administração pública deve levar em conta áreas já ocupadas e em processo de ocupação, enfatiza, para minimizar esses e outros impactos da intervenção humana nos espaços.

Em Brasília

Em busca de recursos da União, a prefeita se reuniu com o presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) e ministros do governo em janeiro de 2021. No Ministério da Infraestrutura, falou ao ministro Tarcísio Freitas sobre a necessidade de verbas para as obras de drenagem da Avenida Nações Unidas.

Em nota ao Jornal Dois a Prefeitura de Bauru informa que está “atuando nas grandes erosões de formas simples e paliativas, sendo obras de contenção de erosão e recomposição”. Existem 19 erosões prioritárias que necessitam de contenção na cidade. 

Questionado sobre a execução das propostas de governo de Suéllen Rosim para a situação das enchentes, em contato através de e-mail e Whatsapp, a assessoria de imprensa do governo municipal não retornou até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado quando e se assim o fizer.

Defesa civil

Com caráter preventivo e de orientação diante das chuvas, a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (CEDEC/SP) iniciou a Operação Verão em todo o estado de São Paulo. “Em Bauru, são intensificadas ações preventivas, de preparação, de resposta e recuperativas, visando prevenir ou minimizar as consequências típicas geradas pelas chuvas”, afirma o órgão em nota à imprensa. As ações vão até abril de 2021. 

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