A quarentena para as pessoas com deficiência em Bauru

O Jornal Dois conversou com atletas e alunos PCDs sobre os desafios durante a pandemia

Publicado em 07 de julho de 2020

Foto de Pedro Hernique Brittes, aluno da APAE segurando um papel com as atividades escolares que tem feito em casa.
Com a suspensão das aulas presenciais, Pedro Henrique Brittes Fernandes, aluno da APAE, tem feito as atividades escolares em casa, com o auxílio da mãe-avó. (Foto: Renata Brittes Camilo/ Arquivo pessoal)
Por Marcela Franco, colaboradora do J2

As pessoas com deficiência passam por situações mais desafiadoras no dia a dia, antes mesmo da chegada do novo coronavírus. A falta de acessibilidade nas ruas da cidade, em transportes públicos e na educação são só alguns dos obstáculos enfrentados por quem vive em uma cidade com poucas políticas públicas voltadas para um grupo que representa 15% da população mundial.

No Brasil, 6,7% dos brasileiros têm algum tipo de deficiência. As pessoas cegas estão em maior número no país, seguidos de pessoas com deficiência auditiva e física. Os dados são do último censo do IBGE (2010). Em Bauru, o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência (COMUDE) estima que 20 mil moradores façam parte desse grupo

A dinâmica da quarentena interrompeu tratamentos e práticas diárias que são  fundamentais para o bem-estar das pessoas com deficiência. Elas precisaram se adaptar a uma rotina com ainda mais desafios. A equipe do Jornal Dois conversou com PCD’s para saber como elas estão lidando com as mudanças desse período. 

Glauciene

O que Glauciene Ribeiro, atleta da Associação Bauruense de Desportos Aquáticos (ABDA), mais sente saudades é da rotina de treinamentos. A nadadora possui uma patologia rara chamada Porfiria Intermitente Aguda, que provoca limitações dos movimentos e dor crônica. Segundo Glauciene, lidar com o distúrbio tem sido pior por conta da falta da natação: “por incrível que pareça, eu estou tendo mais dores crônicas, estar parada me traz mais dificuldades”, conta a atleta.

Foto de Glauciene Ribeiro apoiada à margem da piscina.
Glauciene terminou o primeiro ano de competições como recordista nacional em sua categoria, na prova de 50 metros livre. (Foto: Donato Fídelis/ Reprodução)

A ABDA parou as atividades presenciais no início da pandemia. O projeto incentiva a inclusão social por meio do esporte e da música para crianças, adolescentes e pessoas com deficiência. A associação oferece aulas de polo aquático, atletismo, judô, natação e músicas para sete mil atletas bauruenses, entre eles, Glauciene. 

A instituição decidiu suspender treinos, mesmo à distância, para preservar a imunidade dos atletas. De acordo com Rodney Antônio da Silva Sampaio, preparador físico da ABDA, “essa escolha aconteceu porque a maioria dos atletas são imunossuprimidos, não se sabe ao certo os riscos de submetê-los ao esforço físico, podendo ter uma resposta imunológica um pouco diferente quando em eventual contato com o vírus”, explica. 

Sem os treinos, a atleta pratica exercícios físicos “no limite”, como ela mesmo contou, sempre que possível. Mas as atividades não trazem os mesmos benefícios como o treino na piscina. “Eu não tenho uma movimentação muito boa, a água é o lugar que eu me sinto melhor. É muito mais fácil me exercitar dentro d’água do que fora dela.” 

Além dos exercícios, a nadadora tenta criar uma rotina para se manter ocupada. “Eu acordo às 6h30, faço trabalhos manuais porque gosto de artesanato, assisto lives, leio livros tudo isso para deixar o tempo menos ocioso”, conta Glauciene. Com as aulas remotas do filho, a  atleta também tenta aproveitar o período da manhã para ajudá-lo nas tarefas escolares. Toda semana, Glauciene conversa com a psicóloga e compartilha as inseguranças sobre a Covid-19: “às vezes me pego muito preocupada de como meu organismo reagiria se eu tivesse contato com o vírus, mas a gente tenta tirar isso da cabeça e ocupar o tempo”, explica.  

Glauciene e o filho são atletas PCD da ABDA desde 2017
Glauciene e o filho são atletas PCD da ABDA desde 2017. (Foto: Glauciene Ribeiro/ Arquivo pessoal)

Pedro

Pedro Henrique Brittes Fernandes é aluno da APAE. Seguindo as diretrizes do município, a Escola de Educação Especial da entidade antecipou o período de férias para abril e retornou com as aula remotas. Renata Brittes Camilo, a mãe-avó de Pedro, conta que ela tem buscado o material didático na instituição e grava cada etapa das atividades do filho para enviar à professora. “O Pedro até gosta do novo jeito [de fazer as atividades]”, comenta.  

As dificuldades são a falta de contato e o ficar em casa: “o Pedro sente muita falta dos colegas, da professora e da escola, mas estamos dando um jeito. Com esse material vindo da APAE, eu ilustro bastante, converso e ele fica feliz quando a tia responde sobre as atividades dele”, desabafa Renata.

Para se distrair, o Pedro brinca com os cachorros e os gatos, assiste televisão e joga no celular. “É um pouco difícil pela falta que ele sente da escola porque gosta muito. Mas a gente vai chegar lá, se Deus quiser”, finaliza.  

Goalball Bauru

O Goalball Bauru é um projeto voltado para pessoas com deficiência visual. O esporte é uma modalidade paralímpica, que consiste em arremessar uma bola com as mãos para acertar a baliza do adversário. Cada equipe conta com com três jogadores e três reservas, e a percepção da posição da bola é feita a partir do tato e da audição

Em Bauru, a iniciativa foi idealizada pela professora Marli Nabeiro. No começo, a iniciativa era um projeto de extensão da Unesp, mas, no ano passado, a equipe se vinculou à Federação Paulista de Esportes para Cegos e agora tem como foco principal as competições. 

Gabriela Toloi é integrante do projeto, responsável pelas questões financeiras e estrutura dos treinos, relata que as  atividade não tem somente o intuito da prática esportiva: “agora estamos focados em competições, claro que o esporte tem como consequência a socialização dos participantes e a melhora do condicionamento físico, mas os atletas são bastante envolvidos na característica de competição”. 

Como a suspensão das atividades presenciais, os treinos de Goalball pausaram no dia 15 de março. Pouco tempo depois, Gabriela propôs aos atletas um treinamento online individual, no qual a professora passava as atividades por videochamadas para cada atleta. Apenas as meninas da equipe toparam o desafio e, durante um mês, o time de Bauru treinou a distância. Segundo Gabriela, o trabalho era bastante complexo: as atividades duravam 20 minutos e o treino era dividido entre alongamento, aquecimento, parte aeróbia e trabalho de força. Além disso, elas praticavam yoga. 

A animação do time não acompanhou as prorrogações da quarentena, e os treinos remotos também foram interrompidos. “Foi muito trabalhoso montar os treinos com as descrições. O resultado foi bacana, mas eles foram desanimando, por isso decidimos finalizar. Mas continuamos tentando motivá-los, esse é nosso intuito”. 

O Goalball Bauru possui 3 grandes patrocinadores e, recentemente, o grupo perdeu um deles. “Esse auxílio era destinado aos alunos de Educação Física que davam aula no projeto, um tipo ajuda de custo para o transporte até o local de treinamento”, conta Gabriela. Os outros patrocinadores continuam em parceria com o projeto e os valores serão utilizados quando os treinos voltarem para custear as viagens e as  compras de materiais, afirma a professora. 

Como ficam as doações para a APAE durante a quarentena? 

Roberto Franceschetti Filho, coordenador geral da APAE, revela que a associação se mantém com parcerias públicas com os governos municipal, estadual e federal nas áreas de assistência social, educação e saúde. Além disso, a ajuda da comunidade por meio de doações e participações em eventos são fundamentais para o funcionamento da instituição e o bem-estar dos usuários.

Agora, como não é possível realizar os eventos, a APAE está desenvolvendo estratégias para captar recursos na comunidade. “É muito importante a participação da comunidade, assim, cada pessoa pode exercer o seu papel enquanto cidadão, por que todo mundo conhece o trabalho de relevância realizado pela APAE Bauru”, conta o coordenador. 

As doações ocorrem pelo site da instituição no endereço  e, em algumas situações, são recolhidas pela APAE.

 

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Comments

  1. Eu não conhecia esse periódico (JORNAL DOIS). Ficamos felizes com a matéria. O relato sobre as várias pessoas, cada uma com suas limitações, nos da uma dimensão de como é viver num país, onde a pessoa deficiente, não tem muito o que regozijar. Só há pouco tempo a Justiça obrigou as Prefeituras a rebaixar as guias das calçadas, para facilitar a locomoção de usuarios de cadeira de rodas. Além daquelas calçadas, construidas de maneira irregular, prejudicando deficientes, idosos e outros, a transitarem pelo meio da rua, correndo o risco de serem atropelados. São tantos os obstáculos as serem vencidos, que a pessoal deficiente, torna- se um atleta nato.
    O PH, é um aluno fantástico da APAE. Um exemplo a ser seguido. Venceu muitas barreiras até aqui. Pra nossa surpresa, quando achamos que ele chegou no seu limite, algo acontece, e uma nova etapa de aprendizado se inicia. Por isso, o PH é a nossa inspiração.
    Os nossos agradecimentos à APAE, ABDA e clao, o JORNAL DOIS.

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