O presidente que acampa

Sandro Bussola (PSD) entra na corrida eleitoral de 2020 como candidato à prefeitura, após um mandato com protestos inusitados

Publicado em 12 de novembro de 2020

Ao longo de sua carreira política, Sandro filiou-se a três partidos. Eles são, respectivamente: PT, PDT e PSD. (Ilustração: Laura Poli | Foto do vereador: Pedro Romualdo)
Por Natália Santos

Alexsandro Bussola diz que começou o contato com a política aos 18 anos, quando foi presidente do Conselho de Moradores do Núcleo Habitacional Presidente Geisel. Na Câmara, sua carreira foi iniciada em 1994 como assessor e, em 2012, foi eleito pela primeira vez como vereador e, conseguiu reeleger-se em 2016, com 3.464 votos, pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT).

Pastor da Assembleia de Deus Ministério de Madureira, Sandro assumiu o seu segundo mandato com uma bandeira em defesa da vida, dos interesses da família, da saúde e da educação. Além disso, o vereador tinha como pauta as igrejas evangélicas do município.

Nas eleições de 2020, Sandro abandonou o lema que usou na campanha de 2016, “Fé na vida e no trabalho”, para assumir a posição de candidato à Prefeitura de Bauru pelo Partido Social Democrata (PSD). Agora, ao lado do vice Thyago Cezar, ele carrega um novo slogan: “Bauru vai voltar a sorrir”.

Direitos de alguns

Sandro foi o vereador que mais apresentou Projetos de Lei durante a 32ª legislatura. Ao todo, foram 14, sendo 12 aprovados pela Casa. Seguindo sua bandeira, a área que mais recebeu proposições do parlamentar foi a saúde, com cinco propostas.

A proposição de destaque foi o PL 82/2019, que obriga as unidades de saúde municipais a publicarem a fila de espera e o número de médicos atendendo em cada local. Por meio de um sistema online, a Prefeitura deve indicar, em tempo real, informações extras como tempo médio de espera, tempo de consulta e possível avaliação do atendimento. Até agora, entretanto, a lei não saiu do papel. No site da Prefeitura de Bauru só está disponível a lista de espera para internação, resultado da Lei Municipal nº 6.384 de 2013.

Outro projeto voltado à transparência de informação na área médica foi o PL 72/2019, que obriga os hospitais, clínicas e laboratórios privados a informar, previamente, os pacientes sobre cobertura dos convênios médicos e planos de saúde em consultas. Na justificativa da proposição, Sandro afirma que o projeto visa assegurar o direito constitucional de proteção ao consumidor.

Na educação, Sandro foi autor de um Projeto de Lei (PL 120/2019) que defendia a garantia do princípio de liberdade de expressão ao professor, com foco no respeito à diversidade de opiniões, e proteção frente aos casos de violência durante o exercício da profissão.

A proposição foi considerada inconstitucional pelo consultor jurídico da Câmara de Bauru. Segundo ele, a função de proteger o profissional em Bauru é do Executivo, “cabendo só a esse a responsabilidade de criar leis sobre essa temática”. Mesmo com esse parecer, entretanto, o projeto continuou a tramitar pela Casa. Após cinco dias, Sandro optou por retirar a proposição de defesa aos professores. A reportagem buscou entender o motivo de sua atitude, mas o vereador optou por não dar entrevista. 

Manifestai-vos

Diferente de seus pares que usaram exclusivamente a tribuna para tecer críticas, Sandro inovou na hora de se expressar.

Em 2019, o vereador levou um caixão durante sessão da Câmara para protestar contra a demora no atendimento da rede pública de saúde da cidade. Bussola criticou a atuação da Secretaria Estadual da Saúde, que havia prometido, durante a gestão 2018-2019 de Márcio França (PSB),  21 novos leitos no Hospital de Base (HB) para serem disponibilizados aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).

Sandro não se limitou e foi de manifestações em tribuna para protestos presenciais. Em abril de 2019 ele acampou em frente ao Departamento Regional de Saúde (DRS-6), para protestar por mais leitos hospitalares. Na época, o vereador defendeu que a ação não era populista: “sempre atuei politicamente pautado pelo diálogo, mas a gravidade da situação exige medidas drásticas porque envolve a dignidade das pessoas e, principalmente, vidas”, disse. 

Durante a pandemia, a cena se repetiu: Sandro ocupou o Hospital das Clínicas da USP (HC), ao lado dos vereadores Markinho Souza (PSDB) e Yasmin Nascimento (PSDB). Carregando uma faixa com a frase “O HC é nosso!”, a movimentação buscou pressionar o estado de São Paulo pela abertura da unidade. Vinte dias após a manifestação dos vereadores, o governador João Dória anunciou a abertura do hospital para atendimento de pacientes com covid-19. 

Como traz em sua bandeira, Sandro atuou na “defesa das igrejas evangélicas do município”. Ele enviou 37 moções de aplausos, sendo que 13 foram direcionadas a instituições ou líderes evangélicos. 

A fé cristã também apareceu em dois projetos de lei do vereador: o PL 10/2019, que permite visitas de assistência religiosa a pacientes internados em hospitais, e o PL 282/2019, que autoriza entidades religiosas a utilizarem as praças esportivas da Prefeitura sem nenhum custo adicional. Essa segunda proposição foi feita em conjunto com os vereadores Serginho Brum (PDT) e Yasmim Nascimento (PSDB). Os dois projetos foram aprovados na câmara. 

Painel com todos os dados numéricos do mandato de Sandro Bussola. Dados coletados até dia 16 de outubro de 2020. (Ilustração: Laura Poli e Natália Santos | Foto do vereador: Pedro Romualdo)
Além do limite municipal 

Sandro foi além das pautas vinculadas ao município. O vereador promoveu encontros para debater sobre assuntos a nível federal que impactam diretamente a população, como a PEC da Reforma da Previdência, que teve uma audiência para debate em 2017 e outra em 2019. Na época do primeiro encontro, o vereador classificou a Reforma como “um golpe contra a classe trabalhadora” e reiterou a necessidade de luta pela geração que não terá direito à aposentadoria, caso a proposta fosse aprovada.

O vereador enviou, ao Governo Federal e ao Congresso Nacional, uma moção de repúdio à Reforma da Previdência, solicitando a suspensão da tramitação do processo. Em 2019, ele também enviou uma moção de apelo pela não privatização dos Correios, temática que ganhou maior destaque a partir do segundo ano do governo Bolsonaro (sem sigla). 

 

Adm da Casa

Ao longo dos quatro anos de mandato, Sandro atuou como presidente da Câmara durante o primeiro biênio (2017-2018). Eleito por unanimidade, o vereador assumiu a posição ao lado de Telma Gobbi (PP), Natalino da Silva (PV) e Roger Barude (PPS).

Durante sua gestão, a Câmara reduziu os custos fixos, como material de consumo, serviço de terceiros e despesas de capital. No primeiro ano, foi devolvido R$ 1,7 milhão aos cofres da Prefeitura de Bauru. No segundo, R$ 2,7 milhões.

Ao deixar a presidência da Casa em 2018, Sandro não ficou longe de um cargo de liderança por muito tempo. No ano seguinte, ele assumiu a presidência da CEI dos Precatórios, que apurou as consequências financeiras pelo pagamento de milionárias indenizações por desapropriação de terras. Atuou também como membro da CEI da Cohab, que investigou as denúncias de má gestão da Companhia de Habitação Popular de Bauru.

Em novembro de 2020, Sandro foi denunciado por suposto recebimento de passagens aéreas que teriam sido pagas com recursos públicos, aprovado pelo ex-presidente da Cohab, Edison Gasparini Júnior. A situação será apurada por uma Comissão Processante (CP) que também investigará as acusações feitas ao prefeito Clodoaldo Gazzetta (PSDB) e ao vereador licenciado Fábio Manfrinato (PP).

Até setembro de 2020, Sandro recebeu R$ 282 mil pelo ser cargo de vereador, segundo o Portal de Transparência da Câmara. A sua atuação como presidente da Câmara não lhe rendeu benefícios extras. 

A equipe tentou agendar uma entrevista, mas o vereador negou. A assessoria de Sandro alegou que a equipe estava em uma “correria gigantesca” por causa da pré-campanha eleitoral. 

Pílulas do Poder é o Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo de Egberto Santana e Natália Santos na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp, com orientação da Profª. Drª. Suely Maciel e tem o apoio e a revisão da equipe do Jornal Dois.

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