Poesia, música, resistência: a rua está cheia de arte

Sarau do Viaduto acontece uma vez por mês e reúne público diverso no encontro da Duque de Caxias com a Nações Unidas

Reportagem publicada em 17 de dezembro de 2017

“Os carros passam e a poesia fica!” é o grito entoado pelo público nos intervalos entre performances e apresentações (Foto: Sarau do Viaduto/Acervo)
Por Bibiana Garrido

Sexta-feira é dia de movimento em Bauru. Final de tarde, pessoas voltando do trabalho, outras a caminho de começar o turno. Trânsito parado nas principais ruas e avenidas da cidade. Por debaixo do viaduto que cruza a Nações Unidas com a Duque de Caxias, cones em laranja e branco são os primeiros sinais de que algo diferente vai acontecer ali.

Fechar a rua é um ato simbólico quando isso significa dar mais espaço para as pessoas ocuparem. É um ato político quando o asfalto vira palco e artistas, poetas, rappers e MCs podem se apresentar de maneira livre e aberta para quem quiser ver.

O Sarau do Viaduto é uma realização da Biblioteca Móvel Quinto Elemento e acontece desde 2015 em Bauru.

Além dos artistas da casa como Renato Rap Nobre, Gael Gramaccio, Dom Black, Mariana Lacava — vulgo Poexistindo, Vitória Shimiguel, Guilherme Afonso, Vinão, Gaia, David MC, Noah, entre tantos outros, o evento também conta com participação de visitantes: Luiza Romão e Emerson Alcalde integraram as duas últimas edições.

“É a primeira vez que eu vim, já tinha colado em outros saraus mas não especificamente no do viaduto”, diz Gabriela Bittencourt. Conversamos na esquina, um pouco afastadas do movimento porque o espaço está tomado de gente e todos fazem muito barulho para aplaudir quem se apresenta.

A menina de 16 anos fala comigo enquanto seus olhos percorrem tudo em volta. “Tô achando muito foda, tá ligado? É um ambiente que é marginalizado que a gente tá tomando conta”.

É noite de 15 de dezembro e acontece o último sarau do ano. A edição #PoetasSemLimites convida artistas da cidade e faz homenagem a Banks Back Spin, Bboy, poeta e educador social que morreu no final de novembro.

Poetas de Jaú, com o Literocupa, e de São Carlos, com o Slam da Quebrada, também aparecem para somar no evento.

Cérebro IDP e Banks juntos eram os Eternos Suspeitos. Foram pioneiros do Slam Resistência, da capital São Paulo. O parceiro de Banks veio à Bauru participar do Sarau do Viaduto e receber uma placa em memória do amigo, entregue pela organização do evento e pela Casa do Hip Hop Bauru.

Para falar não precisa microfone: alguns artistas preferem se apresentar no meio da roda que se forma na rua (Foto: Sarau do Viaduto/Acervo)

No calor da noite bauruense, os carros passam, a poesia fica e o rap toma conta do viaduto. Ouro D’Mina se apresenta: Mina Min, Amanda Maloka e Julia Parra são as três MCs do grupo que traz letras sobre a vida da mulher negra, o machismo e o preconceito.

“A mulher no rap, independente se ela tá ali pra cantar ou não, os caras acham que ela tá ali atrás de cara, tá ligado? E não é assim, a gente só quer fazer o nosso som, a mina só quer curtir a batalha”, conta Julia Parra. “Generalizam a mulher, principalmente dentro do rap”.

Renato Rap Nobre, organizador do Sarau do Viaduto, convida diversas vezes todas as pessoas presentes para se expressar naquele espaço. “Ainda bem que existem esses que dão espaço pra gente, é muito bom, muito importante o Renato”, comenta a MC.

Tabata Iris é quem fica cuidando dos beats nesse show do Ouro D’Mina e diz o que pensa do evento: “É importante pra passar uma mensagem pra todo mundo que cola aqui”.

A rua fica cheia lá pelas 20h30 e o sarau segue até quase 23h. Mariana Lacava se apresenta pelo vulgo Poexistindo, projeto que é zine e performance e vai virar livro em fevereiro do ano que vem.

“Eu me criei na poesia aqui no Sarau do Viaduto. Muita coisa do que eu sou e do que eu escrevo vem da construção de base que o sarau proporciona”, fala a poeta e artista que compartilha o seu trabalho no Viaduto desde as primeiras edições.

Espaço para toda manifestação cultural e poética, o Sarau do Viaduto encerra 2017 com a presença dos artistas bauruenses e convidados que desenvolvem sua expressão na arte de rua.

Quem passa na calçada e vê o movimento, pode chegar.

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