Parasita: uma crítica ao capitalismo predatório

Filme sul coreano com temática crítica ao capitalismo representou uma quebra de paradigma ao ser o primeiro filme de língua não inglesa a vencer a categoria de Melhor Filme, saindo da cerimônia ao todo 4 estatuetas

Publicado em 11 de fevereiro de 2020

"Parasita" foi o primeiro filme de língua não inglesa a vencer o Oscar de melhor filme
Por Lucas Maldonado, colunista do Jornal Dois

O Oscar é um prêmio industrial que representa a campanha dos maiores estúdios de cinema do mundo para eleger os melhores filmes da indústria. Trata-se puramente de uma eleição, com direito a campanhas milionárias financiadas pelos estúdios. Não busco relativizar a vitória de Parasita, mas a equipe do filme se mudou para Los Angeles, cidade em que ficam os principais estúdios, para fazer campanha para o Oscar três meses atrás. Repito, isso não diminui em nada o feito do filme, como direi mais abaixo.

Muito já se disse sobre o fato de que o Oscar não é um prêmio de qualidade, mas sim comercial. É o que torna a vitória de Parasita ainda mais significativa. Muitos vão dizer que a Academia busca manter a audiência e que os estúdios lucrem com seus filmes ao redor do mundo e a vitória de Parasita revela essa intenção, certamente. Sua vitória ressalta sua força e a do cinema sul coreano como todo, um dos melhores do mundo há muitos anos e, portanto, não se deve jamais minimizar a vitória do filme, pelo contrário. 

A maior contribuição de Parasita é a sua temática. Foi um consenso que o filme abordou a luta de classes entre empregados e patrões, e é valioso vermos a declaração do diretor do filme Bong Joon Ho que o filme é uma crítica ao sistema capitalista.

É este ponto que eu gostaria de tocar em relação a esse filme. Em um momento que ressurge várias revoltas e manifestações contra o neoliberalismo, que vão desde o Chile, a França, o Haiti, ao Iraque e recentemente os petroleiros no Brasil entraram em greve com a participação de cerca de 20 mil trabalhadores, a cultura se inserir neste questionamento ao capital é importante. Parasita é a trajetória de bilhões de trabalhadores ao redor do mundo que se veem entre a competitividade gerada por um desemprego cada vez maior, aliado a uberização da economia, com aumento de empregos precarizados e o ódio entre os próprios trabalhadores. A deterioração da consciência de classe é um agravante e Parasita revela o que acontece com os oprimidos.

Junta-se a essas questões o desemprego alarmante, que empurrado para debaixo do tapete, não mostra o que realmente está por trás do crescimento econômico da Coréia do Sul, em que o receituário neoliberal é descrito como fórmula de sucesso que na verdade representa a destruição dos direitos sociais da maioria da população.

Em um momento que a intensidade das chuvas, diante de um processo de urbanização desorganizado ocorrido no século passado, causam um caos a população do Brasil, não poderia ser mais visível a vitória deste filme, enquanto vemos pessoas não chegando aos locais de trabalho ou mesmo sendo ilhadas, ao mesmo tempo a classe política e os mais ricos não são afetados de maneira alguma com esse acontecimento, e ainda exigem que a população não falte ao trabalho.

É um fato que existe um parasitismo de classe em Parasita e o filme deixa claro de que lado está, e pouco importa se Paulo Guedes vai reconhecer ou não o conteúdo negativo da sua fala, depois de dizer que os servidores públicos são parasitas. São claras as intenções de Guedes, já que colabora os verdadeiros parasitas deste sistema, que são banqueiros, latifundiários e especuladores financeiros e empresários.

De todo o modo, o que fica é o sentimento de que Parasita não apenas seja visto, mas entendido e ganhe o terreno da prática e de uma luta a longo prazo para derrotar o capital e todos os seus sistemas de opressão.

As colunas são um espaço de opinião. Posições e argumentos expressos neste texto não necessariamente refletem o ponto de vista do Jornal Dois.

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