O que realmente deveria importar

Maior empresa do Brasil, a Petrobrás, desde sua criação nos anos 1950, nunca teve um governo digno suficiente para colocar todo seu potencial produtivo e desenvolvimentista a serviço do povo brasileiro

Publicado em 6 de fevereiro de 2020

(Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)
Por Silvio Durante*, colunista do J2

O escândalo da compra milionária de leite condensado pelo governo Bolsonaro, alardeado em janeiro pela grande mídia, a cúmplice fiel deste governo destruidor do bom futuro do país é mais uma manobra utilizada desde a primeira hora que este governo anti-povo e pró-banqueiro se instalou em Brasília: desviar a atenção de fatos que realmente importam e teriam a capacidade de inflamar o povo contra os parasitas sanguessugas que estão destruindo as bases da incipiente autonomia brasileira.

Governo Bolsonaro e grande imprensa: ratos do mesmo bueiro

A grande imprensa é a cumplice mais fiel dos ataques deste governo ao povo brasileiro. O teatro montado é tão perfeito que seus fiéis seguidores cegamente acreditam e, por incrível que pareça, setores da chamada oposição de esquerda fazem coro com os grandes veículos de comunicação alardeando pequeninos escândalos, grosserias xucras e demais fanfarronices do (p)residente do Palácio da Alvorada. A suposta briga do boçal nato com a grande imprensa é uma cortina de fumaça que já deveria ter sido percebida há muito tempo, pois, ao fim e ao cabo, tanto o primeiro, quanto o segundo, e mais ainda os milionários patrocinadores, investidores e anunciantes do segundo, que de certa forma bancaram a eleição do primeiro, estão todos do mesmo lado quando o assunto é defender pautas que interessam os verdadeiros donos do poder: os banqueiros e grandes oligopólios empresariais nacionais e internacionais com negócios neste país.

Bolsonaro precisava de um “adversário” para levar adiante sua “Guerra Híbrida” (1). Criar fake news [divulgar conteúdo duvidoso] não basta, pois é preciso ter fake enemies [inimigos falsos] para lastrear a produção de fake news. Assim, suas brigas contra a Folha e a Rede Globo parecem ser reais, pois ambos os grupos de comunicação fazem seu papelão vulgar de explorar factoides junto ao povo, enquanto escondem a sete chaves a pilhagem que o governo pratica dia após dia. 

Um país desafiado

Não falaremos aqui das latas de leite condensado compradas pelo governo para as Forças Armadas, mas, falaremos dos barris de petróleo entregues para o cartel internacional. A maior empresa do Brasil, a Petrobrás, desde sua criação nos anos 1950, nunca teve um governo digno suficiente para colocar todo seu potencial produtivo e desenvolvimentista a serviço do povo brasileiro e o discurso oficial há décadas tem sido que esta estatal está quebrada e que a solução é privatizar; há pelo menos duas décadas escuto o mantra que diz que a Petrobrás não dá lucros e a saída é privatizar. Neste ponto, há uma santa aliança entre Bolsonaro e seus falsos inimigos da grande imprensa e qualquer projeto entreguista e de destruição da soberania nacional que se preze deve englobar o desmonte da Petrobrás e, neste quesito, Bolsonaro tem sido um ótimo serviçal para atender aos interesses do cartel internacional do petróleo.

Antecedem, em algumas semanas e dias, o escândalo do leite condensado, os seguintes fatos envolvendo nossa gigante estatal petroleira:

I – A Petrobrás encerrou em 2020 a venda da totalidade da sua participação na Liquigás Distribuidora S.A. e toda uma cadeia produtiva que envolvia o engarrafamento, distribuição e comercialização de gás liquefeito de petróleo (GLP) no Brasil. Presente em quase todos os estados, foi colocada nas mãos de apenas duas empresas privadas do setor (2). No ano de 2020, o gás de botijão acumulou um avanço de 5,66%, contra uma inflação geral de 2,22%. Em janeiro de 2021, o gás de cozinha era encontrado valendo mais de R$ 100 em algumas cidades e regiões metropolitanas do Brasil.

II – Bolsonaro concedeu um benefício fiscal bilionário para a empresa privada 3R Petroleum, que, em 2019, tinha comprado postos de exploração no nordeste brasileiro (polo Macau, no Rio Grande do Norte). Curiosamente um dos impostos deixados de ser arrecadados pela empresa petroleira foi o CSLL (Contribuição Social de Lucro Líquido), imposto esse que constitui uma das fontes de receita da Previdência Social, que eles diziam estar quebrada. Também foi concedida isenção fiscal do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), mostrando que isenções fiscais para conglomerados empresariais é prática comum ao governo, e desmontando o argumento utilizado por Bolsonaro quando ao negar isenções fiscais para a montadora Ford.

III – Em 7 de janeiro, Bolsonaro, dando continuidade à sua vigorosa e vergonhosa política de desinvestimento na soberania brasileira, autoriza a Petrobrás a anunciar a venda de três usinas eólicas, também no nordeste, para uma empresa privada do tipo holding, atendendo ao apelo de uma meia dúzia de milionários acionistas em detrimento do desenvolvimento de novas fontes de energia, num momento que energias renováveis estão sendo largamente pesquisadas nos países mais desenvolvidos. (3)

IV – A Petrobrás entra 2021 com um baixo efetivo de trabalhadores diretos, ocasionando o que especialistas chamam de “insegurança por esvaziamento”, isto é, quando se reduz o efetivo ideal para realização de tarefas e processos, que em último caso é um fator favorável ao sucateamento e à privatização. A empresa conta hoje com cerca de 52 mil trabalhadores, mas, a estimativa é que até o final do governo Bolsonaro, se continuar esta gestão de encolhimento da estatal petroleira, o quadro ficará em cerca de 35 mil trabalhadores. Segundo a representante dos trabalhadores no Conselho de Administração (CA) da Petrobras, Engª Rosangela Buzanelli Torres, tal diminuição drástica de efetivo traz graves danos e riscos, e compromete não só a segurança do trabalhador, da companhia e da comunidade vizinha, como também a qualidade operacional. (4)

V – Na segunda quinzena de janeiro 2021 foi divulgado o número alarmante de quase 14 milhões de desempregados no Brasil. A crise sanitária, causada menos pela pandemia de covid-19 em si, mas muito mais pela inoperância em combatê-la, faz despencar a popularidade do governo. Bolsonaro sempre teve uma vaidade peculiar com índices de aprovação e, não à toa, tem a necessidade comum a homens inseguros de serem o tempo todo bajulados e adulados, tal como faziam os antigos adoradores de mitos. O pêndulo oscila e Bolsonaro logo faz uma fanfarronice para ganhar as páginas de jornais e portais da internet, além de ganhar likes em suas redes sociais, principal meio de comunicação do (p)residente do Palácio da Alvorada.

O que realmente deveria importar

Que a polêmica do leite condensado tem que ser averiguada com rigor não temos dúvida, dado o aumento expressivo dos gastos do governo com alimentos comparado a períodos anteriores. Porém, as sete mil latas de leite condensado abertas diariamente (5) pelo governo não deveriam chocar mais do que os 2.145 barris de óleo produzidos por dia no complexo do Recôncavo Baiano, que teve sua privatização consumada em dezembro de 2020. Da mesma forma, os R$ 15 milhões gastos no ano que passou com leite condensado, não deveriam ser mais conhecidos do que os velados R$ 2 bilhões pagos por hora para honrar os juros da dívida pública.

Importante dizer que o valor do Auxílio Emergencial pago a quase 70 milhões de brasileiros (inicialmente R$ 600/mês e reduzido para R$300) somou apenas R$ 293 bilhões em 2020. Uma mixaria perto dos R$ 3,535 TRILHÕES pagos, principalmente, a grandes bancos e investidores nacionais e estrangeiros. (6)

É com estas questões centrais que se ligam diretamente a uma estratégia de desenvolvimento de país que as oposições deveriam levantar alto sua voz. Ao contrário, setores da oposição caem nas armadilhas preparadas pela grande imprensa e pedem CPI do leite condensado enquanto a Petrobrás é destruída.

Por outro lado, reconhecemos que estas informações aqui apresentadas circulam para um número restrito de pessoas, normalmente, setores de trabalhadores, profissionais de comunicação, trabalhadores petroleiros e uns poucos intelectuais academicistas encastelados em suas universidades e alguns outros segmentos específicos. Ao restante da população que deveria saber a verdade, é relegado o teatro espalhafatoso do escândalo com leite condensado e dos memes de internet.

Não é a brancura do leite condensado que deveria escandalizar e provocar o impeachment do (p)residente do Palácio da Alvorada, mas, é a negritude do petróleo brasileiro que deveria ser a prioridade de defesa e luta de qualquer oposição que tivesse um projeto alternativo de desenvolvimento soberano para este país.

(1) O conceito de Guerra Híbrida e as ações políticas veladas: http://www.dialogosinternacionais.com.br/2019/10/o-conceito-de-guerra-hibrida-e-as-acoes.html 

(2) Petrobras conclui venda da Liquigás. Disponível em: https://www.agenciapetrobras.com.br/Materia/ExibirMateria?p_materia=983251

(3) Petrobras assina contrato para venda de usinas eólicas Mangue Seco 3 e 4. Disponível em: https://www.agenciapetrobras.com.br/Materia/ExibirMateria?p_materia=983278

(4) Petrobrás cada vez mais esvaziada. Disponível em: https://rosangelabuzanelli.com.br/petrobras-cada-vez-mais-esvaziada/

(5) Escândalo do leite condensado no governo Bolsonaro chega às páginas do
Le Monde. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2021/01/30/escandalo-do-leite-condensado-no-governo-bolsonaro-chega-as-paginas-do-le-monde.htm

(6) Gastos com a dívida pública cresceram 33% em 2020. Disponível em: https://auditoriacidada.org.br/conteudo/gastos-com-a-divida-publica-cresceram-33-em-2020/


*Silvio Durante é professor de História, bacharel em Arquitetura e integrante de movimentos artísticos e culturais de Bauru.

As colunas são um espaço de opinião. Posições e argumentos expressos neste espaço não necessariamente refletem o ponto de vista do Jornal Dois.
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