O que Bauru tem a ver com a delação do dono da Gol envolvendo políticos de Brasília

Henrique Constantino admitiu que pagou propina milionária a fim de conseguir financiamento para a Via Rondon. Seu irmão preside o Conselho de Administração da concessionária e administra a empresa de ônibus Grande Bauru

Reportagem publicada em 19 de maio de 2019

Família Constantino tem participação no transporte coletivo de Bauru e em várias empresas de ônibus Brasil a fora (Foto: Bibiana Garrido/JORNAL DOIS)

Por Lucas Mendes

O empresário Henrique Constantino, um dos donos da empresa aérea Gol, disse que pagou propina a políticos de Brasília a fim de conseguir um financiamento de R$ 300 milhões para a Concessionária Via Rondon. 
 
A concessionária administra 330 quilômetros do trecho oeste da rodovia Marechal Rondon, entre as cidades paulistas de Bauru e Castilho, na divisa com Mato Grosso do Sul.
 
Uma das empresas de Constantino, a Comporte Participações, é sócia junto com a Vaud Participações no consórcio Br Vias, que administra a concessionária. O consórcio Br Vias venceu a licitação de concessão da rodovia Marechal Rondon em outubro de 2008. 
 
A Comporte também possui 50% de participação na empresa Transporte Coletivo Grande Bauru Ltda, que opera 164 linhas do transporte coletivo em Bauru. 
 
Constantino fez as declarações depois de fechar um acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal (MPF). O juiz federal Vallisney de Souza Oliveira, da Justiça Federal do Distrito Federal, homologou o acordo dia 16 de abril. A decisão do juiz só veio a público na última segunda-feira, 13.
 
O que ele confessou?
 
Na delação, Henrique Constantino afirmou que pagou propina ao grupo político do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (MDB-RJ). Do grupo também fariam parte o ex-ministro Geddel Vieira Lima (MDB-BA) e o lobista Lúcio Funaro. A propina serviu para que os políticos liberassem o financiamento de R$ 300 milhões vindos do Fundo de Investimentos do FGTS (FI-FGTS) para a concessionária Via Rondon.
 
O financiamento saiu em 2012, conforme aponta o relatório de demonstrações financeiras do fundo.  Na época, Fábio Cleto era o vice-presidente de fundos de Governo e loterias da Caixa Econômica Federal. Cleto integrava o conselho curador do FGTS e o comitê de investimentos FI-FGTS, com o poder de decidir onde a Caixa deveria investir o dinheiro do fundo. 
 
Como expôs o jornal Valor Econômico, o suposto pagamento de suborno por parte de Constantino já foi alvo da delação de Fabio Cleto, indicado ao cargo pelo grupo de Eduardo Cunha, que admitiu ter recebido propina para ajudar o empresário a conseguir dinheiro FI-FGTS.
 
Em novembro de 2018, a Justiça aceitou a denúncia proposta pelo Ministério Público Federal sobre fraudes na liberação de verbas da Caixa. Conforme reportou o G1, a ação penal acusa que Constantino pagou R$ 7,077 milhões a Geddel, Cleto, Cunha e Funaro a fim de obter para o grupo BRVias R$ 300 milhões, por meio do FI-FGTS.
 
A denúncia foi apresentada na Operação Cui Bono, deflagrada pela Polícia Federal em 2017.
 
As empresas
 
Henrique Constantino é filho do bilionário Nenê Constantino, fundador da Gol e empresário do ramo do transporte rodoviário. Como narra o jornal Correio Braziliense, Nenê dividiu seus negócios entre os filhos (Henrique, Joaquim, Ricardo e Júnior) em 1994. “Em 2000, os Constantinos já tinham a maior frota de ônibus do país e uma das maiores do mundo. Eram quase 6 mil coletivos espalhados por sete estados e o DF. Transportavam 1,2 milhão de passageiros por dia”.
Ação do grupo Tarifa Zero Bauru no centro da cidade (Foto: Bibiana Garrido/JORNAL DOIS)

O irmão de Henrique, Ricardo Constantino, é presidente do Conselho de Administração da concessionária Via Rondon, conforme ata da assembleia geral da empresa, realizada dia 29 de abril. 

Ricardo Constantino também figura como um dos administradores da Transporte Coletivo Grande Bauru. Suas primas, Maraluce e Deise Constantino, aparecem como administradoras da Cidade Sem Limites, empresa responsável por operar 70 linhas do transporte coletivo em Bauru.

Entre 2008 e 2017 a tarifa de ônibus na cidade cresceu 90%, segundo dados da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), que gere o transporte público na cidade. No mesmo período, a inflação acumulada foi de 74%.

De acordo com pesquisa realizada pela Emdurb, a tarifa alta é o motivo de maior preocupação para quem anda de ônibus na cidade, sendo esse o índice mais mal avaliado da Emdurb, com 80% de desaprovação. Além disso, problemas com a lotação dos coletivos e o elevado tempo de espera aparecem como queixas constantes na pesquisa.

 

Comments

  1. Pois é, o monopólio do transporte coletivo em Bauru foi pretensamente quebrado, com a licitação que alijou o Quaggio , empresa bauruense e hj estamos nas mãos do monopolio do Constantino.

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