Nos trilhos do ferroviário: a vida de Roque Ferreira

Nascido em Birigui, se mudou ainda menino para Bauru, onde desenvolveu parte de suas lutas políticas. Em 4 de setembro de 2020, se tornou mais uma vítima da covid-19, deixando uma legião de amigos e companheiros de militância, depois de uma vida inteira dedicada à luta

Publicado em 5 de setembro de 2021

Roque teve atuação destacada na luta contra a privatização das ferrovias (Foto: Tatiana Calmon/Acervo pessoal)
Por Silvio Durante, colunista do J2

Roque José Ferreira nasceu em 15 de maio de 1955 na cidade de Birigui, interior de São Paulo, e construiu uma história de luta política reconhecida não apenas pela população da cidade de Bauru, mas que extrapolou as fronteiras nacionais. Filho de um ferroviário da Noroeste do Brasil e uma dona-de-casa, Roque chegou à Bauru ainda menino e estudou no colégio São Francisco de Assis e na escola Morais Pacheco, ambos no bairro Jardim Bela Vista, e se formou como mecânico geral no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), tendo estudado posteriormente Comunicação Social na Fundação Educacional de Bauru, hoje Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Trabalhou como metalúrgico ferramenteiro em várias empresas da cidade e região como a Máquinas Bauru, Promog, Laredo, Ajax, Equipamentos Clark, Volvo, Nardini, entre outras. Em 1980, prestou concurso público e ingressou na Rede Ferroviária Federal em Bauru como professor técnico no Centro de Formação Profissional Engenheiro Aurélio Ibiapina. Trabalhou até se aposentar na ferrovia, exercendo a função de Analista de Gestão.

Roque foi fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), onde permaneceu filiado por mais de 30 anos, sendo candidato pelo partido a diversos cargos como vereador, prefeito, deputado federal, deputado estadual, até que em 2008 conquistou o mandato de vereador, tendo sido reeleito em 2012.

Integrava a corrente Esquerda Marxista, grupo político marxista-leninista que reivindica o comunismo. Em 2015, Roque e sua corrente política ingressam no Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), onde disputou novamente as eleições de 2016 e, mesmo ficando entre os seis mais votados da cidade, não foi eleito por conta do coeficiente eleitoral.

Roque participou ativamente do movimento de construção do novo sindicalismo no Brasil a partir dos anos 1980, colaborando com a fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983.

Ajudou a construir em 1984 o Movimento da Unidade Ferroviária (MUF), que organizava as oposições sindicais dos ferroviários a nível nacional, criando as condições para retirar os interventores impostos pela ditadura militar nos sindicatos de ferroviários. Em 1988 é eleito presidente do Sindicato dos Ferroviários de Bauru e Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Em pouco tempo firma-se como uma liderança nacional da categoria ferroviária e dos trabalhadores em geral.

Teve destacada atuação na luta contra a privatização da rede Ferroviária, efetuada por Fernando Henrique Cardoso, então presidente pelo PSDB, cujo resultado foi a destruição das ferrovias e o fechamento de milhares de postos de trabalho em todo país. Organizou e impulsionou a luta pela reestatização das ferrovias e a volta dos trens de passageiros. Em todas as lutas dos trabalhadores da cidade de Bauru sempre esteve presente representando os ferroviários.

Desde muito jovem Roque tem participação ativa junto ao movimento popular e social. Organizou a primeira associação de bairro na Vila Nova Esperança, participou da luta pelo  asfalto das ruas do Núcleo Beija Flor, o que deu origem a primeira Associação de moradores daquele bairro. Em 1978, participa da fundação do Movimento Negro Unificado (MNU) que organizava  nacionalmente a luta contra o racismo e a discriminação racial. Integrou o Movimento Negro Socialista e desenvolveu nacionalmente a luta por vagas para todos nas universidades, sendo um crítico ao sistema de cotas raciais.

Roque também participou de várias atividades internacionais ligadas aos movimentos dos trabalhadores. Em 1997, integrou a delegação brasileira que participou da Conferência Anual da Organização Internacional do Trabalho (OIT) da ONU, onde fez um discurso se posicionando contra a flexibilização das Convenções de proteção ao trabalho, e reivindicando a ratificação pelo Brasil da Convenção 158 que proíbe a demissão de trabalhadores sem justa causa, até hoje não assinada por nosso país. No mesmo ano, a convite da confederação sindical Força de Trabalhadores (CGT-FO) participou em Paris do Encontro Internacional de Ferroviários, onde esteve em pauta os impactos das políticas de privatização das ferrovias para os trabalhadores. Em 1998, participou em São Francisco (EUA) da Conferência Mundial Aberta que organizou a luta em todo mundo contra os tratados de livre comércio que na prática destruíram os direitos dos trabalhadores nos países onde foram implantados.

Pela sua militância junto ao Movimento Negro, foi convidado a participar em 1999, em Paris, do ato de lançamento da Campanha Mundial em Defesa da Vida do Jornalista Negro americano Mumiah Abu-Jamal, ex-militante do Partido dos Panteras Negras (dos EUA), que foi condenado à morte por denunciar o racismo americano e por um crime que não cometeu. Roque foi então eleito membro do Comitê Internacional de combate ao racismo e em defesa da vida de Jamal.

Foi um dos organizadores da Conferência Internacional Contra a Desregulamentação e a Flexibilização dos Direitos Trabalhistas realizada em Berlim (Alemanha), principalmente a manutenção do direito à licença maternidade. De volta ao Brasil impulsionou a campanha para derrubar o projeto do senador Luiz Pontes do PSDB que acabava com a estabilidade no emprego da trabalhadora grávida. 

Nos anos 2000, a convite do Sindicato dos Estudantes da Espanha e da Fundação Friedrich Engels participou e proferiu palestras na Universidade Aberta de Barcelona sobre a realidade política e social da América Latina.

Em 2002 Roque apoia e ajuda a impulsionar o Movimento das Fábricas Ocupadas (MFO) através da luta pela estatização sob controle dos trabalhadores e, em 2005, participa do Encontro Latino Americano de Empresas Recuperadas pelos Trabalhadores que reuniu representantes de 13 países, 20 centrais sindicais e 235 empresas sob controle operário ocorrido em Caracas, capital da Venezuela.

Em 2006 ajuda a criar o Movimento Negro Socialista, aliando a luta contra o racismo e o racialismo com a luta contra o capitalismo.

Torna-se presidente municipal do PSOL em 2017. É reeleito ao mesmo cargo em 2020, sendo escolhido pelo partido como pré-candidato a prefeito nas eleições municipais que ocorreriam naquele ano, mas na segunda quinzena de agosto, Roque é internado no Hospital Beneficência Portuguesa com covid-19 e após uma heroica luta pela vida, descansou em paz ao final da tarde, junto com o pôr do sol do dia 4 de setembro de 2020, deixando a esposa Tatiana Calmon, os filhos Michelle, Karen, Vinícius, Dandara e Tales, além de uma enorme legião de amigos e companheiros que se formou ao longo de uma vida tão intensa e dedicada à luta dos trabalhadores e das trabalhadoras.

Roque, presente hoje e sempre!

Este texto foi lido na abertura da sessão solene da Câmara Municipal de Bauru em memória de Roque Ferreira realizada na última sexta-feira, 3 de setembro de 2021. 

* Silvio Durante é professor de História, bacharel em Arquitetura e integrante de movimentos artísticos e culturais de Bauru.
As colunas são um espaço de opinião. Posições e argumentos expressos neste espaço não necessariamente refletem o ponto de vista do Jornal Dois.
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