Marcha das Mulheres Indígenas é adiada para evitar conflito com apoiadores de Jair Bolsonaro

A 2ª Marcha das Mulheres Indígenas aconteceria na quinta-feira (9) e foi remarcada para sexta-feira (10); primeira marcha aconteceu em 2019

Publicado em 10 de setembro de 2021

Por Victória Ribeiro
“Essa noite a gente não conseguiu dormir”, comentou Irinéia Terena sobre o motivo que levou ao adiamento da II Marcha de Mulheres Indígenas, prevista para acontecer, inicialmente, nesta quinta-feira (9) em Brasília. A marcha, que agora acontecerá na sexta-feira (10), foi remarcada por causa da tensão envolvendo a presença de grupos bolsonaristas na capital federal.
 
Em nota, a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA), destaca que a decisão, tomada após plenária realizada com todas as delegações de mulheres que compõem a mobilização, tem como objetivo garantir a vida das mulheres, anciãs, jovens e crianças presentes na mobilização.
 
“Grupos extremistas, fascistas, armados, muitos identificados com camisetas escrito Agro seguem invadindo a Esplanada dos Ministérios, com olhares coniventes do governo do DF (Distrito Federal) e em apoio a Jair Bolsonaro. Em virtude disso, a Esplanada está bloqueada”, aponta o documento.
A entidade ressalta em nota que todos os olhos do mundo estão voltados para o Brasil.
 
“A imprensa nacional e internacional está acompanhando a nossa mobilização, repercutindo em todo o mundo a nossa luta e o que pode acontecer. Jamais aceitaremos que nossas mulheres e povos sejam submetidos novamente a tamanha violência! Esses capítulos são páginas de um passado, que estamos reescrevendo com a nossa luta, a partir do chão dos nossos territórios”.
 
Desde o início da mobilização no domingo (5), o acampamento, que reúne por volta de 6 mil indígenas, foi marcado por duas situações envolvendo bolsonaristas. Por volta das 3h da manhã desta segunda-feira, 6 de setembro, cerca de 10 pessoas do movimento pró-bolsonaro tentaram invadir o acampamento.
 
A segurança da área, feita na ocasião pelo voluntariado de 70 indígenas, conseguiu impedir que a invasão acontecesse. Lucas Cravo, que é advogado da Articulação de Povos Indígenas do Brasil (APIB), afirmou que o contato com a Polícia Militar (PM), para solicitar a ronda, vinha sendo feito desde julho, mas sem sucesso. Após o ocorrido, de acordo com ele, a segurança atual conta com os voluntários, 40 seguranças particulares e uma ronda permanente.
 
No mesmo dia, próximo às 9h da manhã, a frente do acampamento foi marcada pela presença de bolsonaristas que se deslocavam rumo à Praça da Cidadania, onde aconteceu a concentração da manifestação pró-bolsonaro. Durante o trajeto, manifestantes exibiram bandeiras do Brasil e fizeram um “buzinaço” com dizeres racistas. Um homem e uma mulher, ambos vestidos com roupas verdes e amarelas, tentaram entrar no acampamento e precisaram ser retirados pela PM, que ficou presente no local durante percurso.
 
Na sessão plenária, que aconteceu por volta das 12h da tarde, Ô-Kamrek Metyktire, anciã indígena Kayapó, afirmou que a luta indígena é “desarmada” e pediu às mulheres presentes na deliberação para que se mantivessem firmes na luta.
 
Irinéia, que está acampada em Brasília desde o início da mobilização “Luta Pela Vida”, no dia 22 de agosto, comenta que nunca vivenciou situação parecida em seus 25 anos de militância. “Viver durante esse governo tem sido uma tensão constante. As pessoas provocando, os caminhões subindo, buzinando. Não viemos para brigar, mas sim para lutar pelos nossos direitos”, afirmou.
 
Mariana Lacava, indígena do contexto urbano de Bauru e também acampada na capital federal, comentou que apesar da tensão, o “medo é menor do que a espiritualidade e a luta”. Para ela, a tensão mostra o quanto o movimento está forte e bem colocado.

Julgamento “marco temporal”

 
Com o adiamento da II Marcha de Mulheres Indígenas, o acampamento foi marcado pelo julgamento do “marco temporal”, retomado nesta quarta-feira (9) pelo Supremo Tribunal Federal. Só o ministro Edson Fachin conseguiu registrar integralmente seu voto, que foi favorável aos povos originários.
 
Com a Constituição em circulação, danças e cânticos, o acampamento, que reúne por volta de 6 mil pessoas, provocou emoção aos povos originários, que aguardavam o julgamento desde o dia 25 de agosto.
 
Para Janinha Paté, indígena do povo Xokleng, um dos protagonistas da ação em discussão no STF a que se refere o “marco temporal”, o voto significou um alívio em meio ao cansaço provocado pelos dias de acampamento, além de ter sido um sinal de uma vitória possível.
 
A continuação do julgamento está prevista para acontecer na próxima quarta-feira, 15. Nesta data, o Supremo chegará ao vigésimo dia de análise da tese do marco temporal, ainda sem definição clara de maioria.
A convite da Articulação de Povos Indígenas (ARPIN) do Sudeste e da Associação de Mulheres Indígenas de Tereguá, o Jornal Dois acompanha as delegações de Avaí, Arco-Íris e contexto urbano de Bauru na II Marcha de Mulheres Indígenas em Brasília.
 
 
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