Manifesto da clandestina tinta cheia de latas madrugada adentro

Artistas publicam manifesto pela cultura em tempos de barbárie e contra o moralismo nas artes

Publicado em 22 de maio de 2020

"Críticos de arte brotaram às pencas medindo com régua inquisidora o belo e o aceito" (Colagem: Letícia Sartori/Jornal Dois)
Por Amanda Helena, Lauro Neto  e Lázaro Carneiro

A lata de tinta clandestina explodiu madrugada adentro – barulhos – no grafite estampado do muro – ruídos, ruínas – , não bastando um recado ampliado em moldes garrafais, um recado-mensagem se fez destacar: Respeita o pixo!

O fato afrontoso gerou comentários inflamados em toda aldeia glocal. A cloaca em festa e fúria varria ventos de adjetivações às solitárias promessas de prover os raios de sol – as raias da curvatura-solidão que não é curva, mas reta, retidão – . Críticos de arte brotaram às pencas medindo com régua inquisidora o belo e o aceito em calmo palmo de recursos e escassez permitidas, toleráveis, as línguas de vidro sobrevoam sem horror.

As conversas como lavas vulcânicas prontas a soterrar o pixador marginal, esse Vesúvio moderno, isso que está aí […], essa contábil força da ignorância, da mendicância-indigência, tacapes, ferrolhos surdos, a natureza expressionista a golpes (há golpes) de lenhaço, venda e vendagem. Verminose valentia vadiagem. Verborragia vil.

Poços. O Posso do impossível. O estilhaçar da gema sôfrega ao redor do tísico pomar. Silenciamentos tortos ao pé de breque feito na outra face, folhas em frente e verso da moita, forma da aurora boreal acima dos trópicos.

Lavas vindas de conservadores, progressistas e artistas. Homens. Gente? Diego Rivera também provou da hostilidade quando levou seu grito político aos muros. Quem não entendeu a amplidão social do pensamento do artista, contentou-se, apenas, com migalhas das cores. Também sacaram a arma quente dos bolsos e dispararam suas selfies rudimentares na Life (a Veja séria) com o artista enquanto moço do ano. Manuel Bandeira diria: “Tão Brasil!”. Tão pau-brasil, tão espelhinhos e luvinhas.

O outro lado logo ali à frente da parte de trás, enquanto isso, em vivo braseiro vivo, chamusca em novidades belas e arde em fogo cálido e anti-nominal. O ouro, a prata – é o ouro que procuram ter – ao cair discreto das salas modernas, de resto, fazem marcha os pierrôs invertidos.

Se o pixador, diferente do grafiteiro, não agrada as massas, ele deixa de ser artista? Uma arte anula a outra? Queda de braços do ostracismo visceral? Ou mensura se a arte de acordo com tamanho louro de seus padrões-patrões lá dos altos, confere apoio recebido pelo público órgão do poder?

A pintura rupestre não teve apoio governamental, mas é luz para o conhecimento humano. O respeito aos nossos muros de hoje não tornaria história amanhã? Shakespeare tecia suas peças para apresentações ao admirável público novo, vivo, pulsante. Elizabetano. A literatura, alma escrita, não pode e não deve ser uma velha burocrata de flores pretéritas e sentimentos confortáveis, murchos, mórbidos, auto ajudantes com suas vistas ao retrovisor estéril das charretes da história saudosista, confortável.

O corpo se prende ao cárcere, mas a alma atada à caneta é força viva. A arte sangra, a arte pulsa, a arte jorra, a arte insemina, lambuza, escorre, mancha, toma conta dos espaços como a inundante água ao banho de mar. Vladimir Maiakóvski e Graciliano Ramos estavam presos em cadeias políticas – sem poesia – , hoje, livres, andam passando aperto censor em nossas estantes por não se calarem. Mais que isso: por ouvirem a voz lúcida da época. Que época é essa, em que calendário estamos hoje?

Algozes e inertes são esquecidos, a história desdenha dos que calam – mas oferece mimos e confetinhos adocicados aos mornos de espírito e insossos de coração – .

A poesia é bandeira do poeta em punho, a ela não tem muros, faca de dois gumes – por vezes, legumes – que desnuda amores, dá voz ao oprimido e desmascara a opressiva gaiola de ouro rosê dos opressivos opressores. Seja marginal, seja arlequinal, seja herói. Seja Oiticica.

Quem contentou-se apenas com belas rimas também ficou com migalhas. Tão Brasil! São as migalhas fétidas e estanques, sólidas migalhagens trêmulas de nossas épocas. Há quem goste, tem quem curta, parece que habitam por algum lugar próximo, em léguas, muito próximo daqui.

Livros censurados causam espanto, mas ainda parece confortável que poetas tenham seus posicionamentos políticos calados em nome do Status Quo. Miserê. Ora pro nobis. Poetas políticos e transgressores são afronta ao academicismo elitista – morto – , que nos salvem os Slams marginais – vivos – , pois o cerne da poesia é voz perturbadora, o grito primal raivoso e destemperado proveniente, resiliente, reluzente obra das arrancadas tripas apontadoras do verso errático, verso certo das línguas em rachadas securas, porém, jamais línguas secas.

A poesia que não incomoda, não gera reflexão. É inútil. É inútil e inexpressivo objeto parado de decoração. Os arcos dourados dessa missa para escravizados já sabemos decor. Decor e sem ser salteado, caminhamos. Os tempos são brutos. Os caminhos, retos setores sem alma. O corpo que escandaliza é corpo de lama, imagem do artista, qual se lembra mestre Chico Science, chefe de toda uma nação inteira, ainda que em modo zumbi. Rumos destemidos de uma outra ossatura disponível no espaço-ventre urbano do olhar.

E que a palavra “erudita” não afaste o simples da música. Há erudição no baião, no clássico e no rap. No repente, no poste, no pente, na alvenaria cósmica do forró. Há tragédia o bastante em não penar em nada e no argentino rastro do tango. No maxixe samba pantaneiro violado gaita-ponto rancheira melodia em xote vaneirão e chamamé. Há erudição no saber empírico do colega se mexendo ao lado. São sabedorias distintas. São conhecimentos vivos complementares que não se anulam mesmo que em sentido “contrário”. Fascismo non. Nazismo nein. Vira-latismo never-ever. A globalização só funciona se você for o globo da vez. Oh sir, good business, isn’t it?! Bananas.

Estamos em tempos em que Emicida é criticado por cantar o nordestino Belchior, preconceito até mesmo entre artistas. Belchior profetizou: “o novo sempre vem”. E é incontrolável fera selvagem estranha, mas sem selvageria. E se a época é de barbárie, há de se manifestar muito além da repressão da máquina governamental – máquinas, máquinas e maquinários engenhosos como moedores de artes e artistas com ou sem pelagem – . Há que se manifestar sobre posições puritanas, apolíticas e castradoras de artistas e de qualquer inimigo da voz, da vez. O genocídio está servido no prato expresso e posto bem ali ao lado. Qual será a sua vez? Sirva-se. Vomite-se. Engaje-se. Artiste-se. A bandeira do presente tremula nos ventos desgarrados do agora.

A saber: – Engessamento ao passado
– Neutralidade
– Acomodação política em tempo de paz
– Abafamento político em tempos de caos.
– Pensamento elitista
– Rivalidade artística
– Positivismo higienista irracional, tosco e absurdo

Ineficaz e ingênuo é começar a limpeza pela varanda fascista se o interior da casa artística padece de conflitos mal resolvidos. Alienados beijos circulares de agosto à espera na borda de uma janela qualquer que tão logo será invadida, inevitavelmente. Despejou-se o vulcão e os muros de Pompeia ainda guardam tinta. García Lorca foi morto pela guarda pretoriana de Franco e sua poesia ainda grita, alucina. Víctor Jara, multi-artista, pluri-homem latino americano, foi assassinado nos campos de concentração chilenos no estádio de Pinochet. Hasta la victoria… siempre. Chico recebe Camões com caipirinha, cerveja e tira-gosto em sua residência feita de poemações.

A arte renasce como fênix, ainda que perseguida, acuada, destruída de tempos em tempos, ela atropela moralistas e arranca de seus elegantes braços a certeza fúnebre de suas bengalas. A história não perdoa e não dá as mãos a covardes e neutros. Comezinho. Sozinho a gente não é nada e este nada serve sempre como matéria colorida para o sono dos justos dos elevadores senhorios e escritoriais de plantão detrás das mesas cômodas. Nosso empenho, nossas tintas, nossos corpos, nossas palavras ditas e reditas infinitamente dizem sempre sobre lutas e lágrimas. Não passarão enquanto aqui, ao menos, jaz o cala boca de jamais.

 


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