Mais que flores: histórias e lutas de mulheres reais no 8 de março

Em defesa dos direitos e pelo fim das violências, a luta das mulheres é a luta de sociedades inteiras; no Dia Internacional da Mulher, o Jornal Dois lembra histórias e mulheres de Bauru, suas vidas, conquistas, e desafios para a superação das desigualdades

Publicado em 8 de março de 2021

Março das mulheres, luta o ano todo: manifestação antifascista pede justiça por Mari Ferrer e por todas, em 6 de novembro de 2020, no centro de Bauru (Fotos: Camila Araujo/Jornal Dois | Arte: Bibiana Garrido/Jornal Dois)
Por Bibiana Garrido

O Dia Internacional da Mulher comemora, em 8 de março, o símbolo das lutas protagonizadas por mulheres ao longo da história. Para além das flores e dos votos de felicidade, da exaltação de qualidades ligadas ao estereótipo do feminino, o 8M é sobre movimentos políticos e sociais de mulheres que transformaram e transforam as sociedades em que vivemos.

Em defesa de direitos à moradia, alimentação sem veneno, água, energia, terra, educação, ao trabalho, ao voto, à equidade de ocupação de cargos e espaços públicos, ao equilíbrio salarial público e privado. Mulheres têm atuado em diversos campos pela superação das desigualdades em todo o mundo.

Para marcar a data, o Jornal Dois lembra histórias, dados e fatos sobre mulheres reais em Bauru. Suas vidas, lutas, conquistas e desafios para o enfrentamento da violência de gênero e violação de direitos fundamentais na cidade.

Número de mulheres em situação de rua cresce 100% em uma década

Entre 2007 e 2017 o número de mulheres em situação de rua em Bauru cresceu 100% – o aumento da população de rua em geral foi de 61% no mesmo período.

Em dezembro de 2017 as mulheres representavam 15% das pessoas em situação de rua em Bauru.  Os dados são do Censo sobre População em Situação de Rua. Na época, a Secretaria Municipal de Bem Estar Social (Sebes) dividiu o público atendido pela assistência social no Centro Pop em “homens”, “mulheres” e “LGBT”. 

Leia em: https://bit.ly/3v8evps.  

90% das mulheres de Bauru já sofreram assédio, aponta pesquisa

Uma pesquisa realizada em 2018 com 533 mulheres coletou relatos de assédio e violência de gênero em Bauru. O resultado apontou que 90,2% delas já haviam sido assediadas no município.

O estudo foi feito pelo coletivo Mirarte, composto por, na época, estudantes mulheres do curso de Artes Visuais da Universidade Estadual Paulista em Bauru.

Regiões centrais e da zona sul foram indicadas como as mais frequentes em casos de assédio. O dado pode não refletir a realidade sobre quais seriam os locais mais perigosos para mulheres diante da violência de gênero em Bauru, já que a pesquisa teve maior divulgação e abrangência entre o público universitário.

Assédio verbal, com cantadas e piadinhas constrangedoras, assédio sexual, com o corpo tocado sem permissão e agressão verbal ou psicológica foram as violências mais relatadas nos depoimentos.

Leia em: https://bit.ly/3qrSlL2

Em entrevista gravada para o 8M de 2019, a professora e pesquisadora Meiriane Jordão fala da importância da data para o desenvolvimento de sociedades mais justas. 

“É necessário um dia e uma consciência histórica, não foi um dia qualquer. Muitas mulheres precisaram morrer para que hoje a gente tenha nossas garantias e para que nossas lutas sejam enfatizadas. Eu acho que o maior marco, principalmente no Brasil, foi quando uma mulher assumiu a presidência”. 

Meiriane discute, ainda, as lutas e os tipos de feminismos, o papel da educação como ferramenta de mudança e possibilidades de um futuro plural igualitário.

Assista acima ou no canal do J2: https://youtu.be/9gBMMpT3KLY

Mulheres bauruenses e as dificuldades para fazer laqueadura

Em 2019 o Sistema Único de Saúde (SUS) de Bauru tinha, em média, de duas a cinco cirurgias de laqueadura por mês. Se até hoje as mulheres precisam de autorização do marido para a laqueadura das trompas, mesmo as não casadas encontram dificuldades para conseguir realizar o procedimento.

A reportagem do Jornal Dois entrevistou mulheres casadas, viúvas e solteiras que não foram aceitas em suas solicitações no sistema de saúde. Entre as justificativas apresentadas pelos profissionais: “E se sua filha morresse?”, escutou uma das entrevistadas que já tinha criança pequena”. Outra, mãe de três filhos, teve este retorno: “Eu não vou fazer, independente de você querer ou não”. 

O debate sobre a cirurgia envolve questões políticas, sociais, religiosas e demográficas. Muitas optam pela laqueadura devido à falta de acesso direto a outros métodos contraceptivos reversíveis. Na maioria, mulheres de baixa escolaridade. É o que afirma o estudo “História reprodutiva de mulheres laqueadas”.

Leia em: https://bit.ly/3cgRHuK

Visibilidade lésbica

Em 2019 o Mês da Visibilidade Lésbica trouxe à cidade dois dias de eventos para discutir a vida e demandas das mulheres lésbicas e bissexuais. Organizadas e convidadas pela coletiva Visibilidade Lésbica, mulheres de Bauru se reuniram em cinco rodas de conversa e prestigiaram uma exposição artística com obras de mulheres lésbicas e bissexuais.

Os temas das conversas abordaram questões como a afetividade da mulher negra e lésbica, sobre mulheres que não performam feminilidade e sobre saúde sexual da mulher lésbica. A violência, lesbocídio e lesbofobia também foram tópicos lembrados.

Lesbocídio é um termo recente, designado como a morte, seja por negligência médica, assassinato ou suicídio ocasionada por motivo de lesbofobia ou ódio, repulsa e discriminação contra a existência lésbica. A nomenclatura surgiu em 2017 juntamente com o lançamento do Dossiê Sobre Lesbocídio no Brasil. 

Leia em: https://bit.ly/3ceLrUf

Eunice no dia da colação de grau da faculdade de Assistência Social (Foto: Daiane Tadeu/Jornal Dois)
Uma vida em luta por direitos

Essa é a história de Eunice Campos, assistente social que já esteve em situação de rua e hoje luta por políticas públicas em Bauru. Aos dez anos de idade foi despejada de casa por uma tia, após a morte de seus pais, e na rua viveu até os 28. 

Correu da polícia, passou fome, frio, se virou com a ajuda de estranhos, viveu seguidas vezes a morte enquanto gerava e cuidava de uma vida. Mas foi também nesta cidade que ela prosperou. Conseguiu sua própria casa, criou os dois filhos, cuidou dos irmãos. Trabalhando sempre, ela também estudou, chegando ao ensino superior.

Formada assistente social, diz ainda enfrentar muitos desafios. “Mandei mil currículos já consciente da dificuldade. Primeiro sou negra. Segundo tenho 58 anos. Mas por mais que a sociedade fale isso… Esse é um sonho que eu estou realizando e para mim é tentar de uma forma correta garantir o direito de alguém. Aquilo que não fizeram por mim”.

Leia em: https://bit.ly/2MVYmC0

A trajetória de pessoas trans e travestis para conseguir estudar em Bauru

O ano era 2004. Luana Leon, após vinte e seis anos afastada dos estudos, decidiu enfrentar seus receios e se dirigiu ao CEJA (Centro de Ensino de Jovens e Adultos) de Bauru, determinada a fazer sua matrícula e retomar a escola de onde parou. Ao chegar na instituição de ensino, no entanto, conta ter sido maltratada pela secretária, a primeira pessoa que lhe atendeu no local.

Na época ainda não existia a Carteira de Nome Social para pessoas trans e travestis e retificar nome e sexo no RG era um longo processo burocrático. Luana tentou explicar à funcionária que o nome masculino de seu documento não era aquele pelo qual se identificava, mas não foi compreendida. Saiu de lá frustrada e sem a matrícula feita. “Eu não ia voltar para a escola para ser chamada pelo meu nome de nascença, nunca eu iria fazer isso. Nunca”, falou ao J2.

Decoradora e ativista em Bauru, Luana se chama Luana desde que tinha 16 anos. Hoje, aos 55, conta que passou cinco anos na fila da Justiça para conseguir retificar seu nome no RG.

Pioneira na cidade e no país, Luana Leon recebeu a Carteira de Nome Social número 001. Integrante em duas gestões do CADS (Conselho de Atenção à Diversidade Sexual), Luana avalia que os participantes só iam à reunião em agosto, mês da Parada da Diversidade. “Eu não vejo o grupo, a representatividade do grupo, no mais importante que tem que ser: a saúde desse grupo, a estabilidade que esse grupo poderia ter”.

Leia em: https://bit.ly/38lG44A

Ferroviárias mulheres de Bauru

Das 76 fotos na categoria “Trabalhadores”, no acervo digital do Museu Ferroviário, não existe registro das mulheres que trabalham na ferrovia. Os poucos retratos femininos são de boias-frias na colheita da cana, atividade da agricultura. Na busca pela palavra “mulher” dentro do sistema digitalizado do museu, tampouco surgem indícios sobre as ferroviárias de Bauru. 

 A estrutura precária para os registros e cultura da época ajudam a compreender este apagamento. Por isso é que o Jornal Dois resgata quem eram Flordaliza e Maria Inês neste contexto. 

O ano é 1918 e a primeira mulher contratada na Noroeste do Brasil é Flordaliza Meira Monte, de 16 anos. Ela entrou na vaga deixada pelo pai, que trabalhava com telégrafo, e tornou-se escriturária – ficandona empresa até 1942. A história de Flordaliza foi resgata pela historiadora Lidia Maria Vianna Possas, no livro ‘Mulheres, Trens e Trilhos’. A publicação, de 2001, resulta das pesquisas de Possas sobre a participação das mulheres no trabalho na ferrovia. 

Segundo os estudos de Possas, as mulheres correspondiam a 1,7% dos 14 mil prontuários de ferroviários analisados. Os documentos dos funcionários da Noroeste do Brasil foram reunidos entre os anos de 1918 e 1945. Elas tinham entre 15 e 30 anos de idade, vinham de diferentes cidades do interior e atuavam nas partes administrativa, de atendimento ao público ou na limpeza. 

Leia em: https://bit.ly/30nzYwj

Empregadas domésticas tem um perfil definido no Brasil: são mulheres e, em sua maioria, negras (Colagem: Letícia Sartori/Jornal Dois sob HQ Confinada/Leandro Assis e Triscila Oliveira)
O trabalho das empregadas domésticas na pandemia da covid-19

“A situação infelizmente é essa: ou você vai trabalhar ou é demitida”, afirmou uma trabalhadora em entrevista ao J2. Em meio à pandemia do novo coronavírus, milhões de trabalhadores sofreram cortes bruscos nos salários, foram demitidos ou estão saindo de casa para trabalhar entregues à própria sorte. O trabalho informal foi um dos setores mais atingidos pelas mudanças na economia. 

Apesar do longo processo de formalização e ampliação dos direitos – que culminou na PEC das Domésticas, de 2013 – o trabalho doméstico no Brasil persiste, em sua maioria, informal. Menos de um terço (30,4%) trabalham com carteira assinada.

“É um risco muito grande, eu tenho medo, mas que que eu vou fazer? Preciso trabalhar, não sou registrada. Eu preciso pagar aluguel”, conta Célia. 

As duas empregadas tem um perfil parecido: mães solo que moram com a única filha. 

Leia em: https://bit.ly/3c71m7e

Isolamento social e  violência doméstica

Logo no começo da primeira quarentena em combate ao novo coronavírus em Bauru, registrou-se queda no número de boletins de ocorrência para casos de violência doméstica na cidade.

De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública obtidos pelo Jornal Dois por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), em março de 2020 foram registrados 289 casos, já em abril do mesmo ano, o número caiu para 144. 

A queda nas ocorrências tem sido observada em diversas regiões do mundo e do país e sinaliza uma subnotificação dos casos de violência. 

Conforme nota técnica emitida pelo Fórum de Segurança Pública, houve queda nos registros de BO’s em todo o país. Isso acontece porque muitas vítimas encontraram dificuldades em acessar serviços especializados e as denúncias passaram a acontecer pelo 190, o telefone da Polícia Militar.

Já o 180, serviço dedicado ao atendimento de mulheres vítimas de violência, teve crescimento de 27% nas ligações entre março e abril de 2020 em todo o país. Em abril, os registros aumentaram 37,6%, em relação a 2019, em todos os estados que adotaram a quarentena. 

Leia em: https://bit.ly/3bp1mQT

Durante a pandemia em 2020 o Jornal Dois produziu séries de reportagens em vídeo sobre a situação das famílias em diferentes condições de vida e vulnerabilidade social. A série “Cidade Cindida” apresenta histórias de Bauru em meio à da covid-19, revelando que a doença não é vivida por todos da mesma forma e que é preciso levar em conta a classe social e a raça das pessoas para entender os impactos do coronavírus. Existe uma cidade, mas são várias realidades dentro dela.

Neste episódio, a história de Tatiane Borges é reflexo da especulação imobiliária, dos altos aluguéis e da falta de opção de moradia. Sob as árvores, em casas de madeirite e barracos, famílias vivem no bairro do Manchester sem regularização. Querem uma vida digna, com casa de tijolo, luz, energia elétrica, esgoto tratado. 

A ideia de cidade cindida, que inspira o nome da série, é do psiquiatra e revolucionário Frantz Fanon, em seu livro “Os condenados da Terra”. Uma cidade sólida, limpa e bem iluminada existe ao mesmo tempo em que há uma cidade marginal, onde “se morre não importa onde, não importa do quê” e onde os homens vivem “uns sobre os outros”.

Veja todos os episódios no canal do J2: https://youtu.be/Jhh4G2hiuG8

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