Fome: pandemia do coronavírus intensifica a insegurança alimentar em Bauru

Moradores contam as dificuldades para conseguir as doações  da Prefeitura

Publicado em 12 de junho de 2020

Sob uma mesa de metal, estão um prato de vidro vazio e talheres..
A Organização das Nações Unidas estima que 265 milhões de pessoas em todo o mundo podem sofrer com insegurança alimentar em 2020 por causa da pandemia. (Foto: Ana Carolina Moraes/ Jornal Dois)
Por Isabela Holl e Ana Carolina Moraes

“Meu nome está na lista, mas eu ainda não recebi a cesta básica” é uma frase comum para Shirley Sigalo, vice-presidente da Associação dos Moradores do Santa Edwiges. Desde o início da quarentena, os moradores do bairro relatam dificuldades para conseguir comprar os itens básicos para as refeições. “A maioria já perdeu o emprego ou são autônomos que estão parados”, explica Shirley. “As crianças que comiam na escola agora estão comendo em casa, e os pais não estão conseguindo arcar com o preço da alimentação”.

A pandemia da Covid-19 é também uma ameaça à segurança alimentar e nutricional, como alerta António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). A Organização define a segurança alimentar como a capacidade da pessoa produzir ou adquirir alimentos suficientes para satisfazer as necessidades nutricionais e ter uma vida saudável. Em entrevista à Agência Pública, José Raimundo Ribeiro , geógrafo e pesquisador, disse que o termo insegurança alimentar pode ser considerado um eufemismo para a fome.

Falar sobre insegurança alimentar no Brasil é um desafio. O dado mais recentes sobre os brasileiros que vivem nessa condição é de 2013. À época, 52 milhões de pessoas apresentavam alguma restrição alimentar ou alguma preocupação com a possibilidade de ocorrer restrição, de acordo com o levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) junto com o Ministério da Saúde. Em 2019, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), que cuidava da agenda e das políticas públicas para alimentação, agricultura e redução da pobreza, foi extinto.

A escassez de informações sobre alimentação também ocorre em Bauru. Mesmo com um conselho municipal dedicado à segurança alimentar, o órgão não tem um número exato sobre a quantidade de pessoas que vivem em insegurança alimentar na cidade. A justificativa é que é um dado difícil de mensurar. Para mapear essa realidade, o Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA) utiliza os indicadores de renda. A Prefeitura de Bauru informou que 10.173 pessoas estão em situação de extrema pobreza na cidade (com renda mensal de até R$ 89,00) e outras 3.211 vivem na pobreza (com renda mensal de até R$ 178,00).

Segundo a presidente interina do CONSEA, Raquel Pinotti, o conselho aguarda a aprovação de duas propostas para aumentar o acesso a alimentação e fortalecer a agricultura familiar.

Doações

As iniciativas da Prefeitura para assistir às populações vulneráveis em Bauru consistem distribuição de alimentos e kits de higiene. Em março de 2020, o Fundo Social de Solidariedade e a Secretaria de Bem-Estar Social (SEBES) lançaram a campanha CoronaVida, em parceria como Ministério Público Estadual. O projeto arrecada alimentos, itens de higiene e limpeza por meio de doações para entrega-los às pessoas em risco de insegurança alimentar.

A Prefeitura também criou uma ação para as famílias de alunos da rede municipal de ensino que são cadastradas no programa Bolsa Família. Por meio da Secretaria Municipal de Educação, kits de alimentos com a merenda escolar são distribuídos para as famílias. As doações reúnem barras de cereal, bolachas, leite em pó, frango pouch, lata de atum, macarrão, nhoque, óleo, arroz e feijão, e devem atender 9 mil famílias em situação de vulnerabilidade social durante a pandemia.

Segundo Cristiane Fernandes, diretora de Divisão da Básica da SEBES, o CoronaVida entregou 15.808 cestas básicas durante o mês de maio. No mesmo mês, foram distribuídos 5.430 kits da alimentação escolar pela Secretaria da Educação.

Na foto, um homem empurra um carrinho de supermercado com os kits de alimentos da merenda escolar que são colocados dentro de um ônibus para a distribuição aos moradores.
Distribuição dos kit de alimentos da merenda escolar para a população. (Foto: Reprodução/ Prefeitura de Bauru)
Sem respostas

Desde o começo da quarentena até a cinco de junho, a Prefeitura de Bauru distribuiu 28.505 cestas básicas. A quantidade parece ser insuficiente para atender toda a população neste momento. Débora e Milena são moradoras do Santa Edwiges e contam que não conseguiram nem ser atendidas na SEBES para receber um auxílio.

Débora Cristina  Silva Teodoro é mãe de três crianças, com idades entre 4 e 8 anos, e está desempregada. Ela trabalhava como assistente de cozinha e, por conta do emprego, os filhos não estavam cadastrados no Bolsa Família. Com a demissão e sem o cadastro, Débora não conseguiu receber o kit da merenda escolar. Sempre que tenta ligar para a SEBES, não consegue falar na Secretaria. “Eles não atendem [o telefone] ou quando atendem pedem para você aguardar e a ligação acaba caindo. Não dão resposta”, desabafa.

Milena Aparecida Ferreira também não conseguiu contato com a pasta. Ela tem três filhos pequenos, dois são estudantes da rede pública de Bauru. O terceiro filho tem paralisia cerebral e bronquite asmática, por isso precisa ficar em casa e demanda cuidados especiais. Milena está cadastrada no programa, mas quando houve a distribuição no bairro, o nome dela não estava na lista. “Falei que eu era cadastrada, mas a moça não quis olhar os papéis. Ela me passou um telefone, liguei lá e me disseram que o número estava errado”.

Shirley Sigalo, vice-presidente da associação do bairro, afirma que muitos moradores não conseguiram os auxílios municipais. “Tem caso de gente que estava esperando os 600 reais [do Auxílio Emergencial do Governo Federal] e sem conseguir receber cesta básica. Alguns moradores tem que escolher se almoçam ou tomam café da manhã”, pontua.

Para agilizar o processo das entregas, as associações enviam uma lista com informações de quem precisa das cestas básicas para a Prefeitura. Shirley conta que as associações tentaram se envolver mais no projeto para entregar os alimentos, mas os órgãos municipais não acataram o pedido, alegando que, por ser ano eleitoral, não poderia haver distribuições via associações de moradores.

‘Cenário alarmante’

Quem trabalha no terceiro setor observa o crescimento do desemprego e das dificuldades causadas pelas reduções salarias aos trabalhadores durante a pandemia. É o caso de Rosana Polatto, presidente da Associação de Moradores do Mary Dota (Assomary), que realiza um tipo de assessoria para ajudar quem precisa solicitar os auxílios ao poder público.

A organização realizou uma “força-tarefa” para cadastrar os moradores para receber as doações de alimentos da Prefeitura, Auxílio Emergencial do Governo Federal e o Seguro-Desemprego. Outra atividade da Assomary é a distribuição de roupas de frio e cobertores.

A presidente da Associação diz que também teve dificuldades para conseguir os kits da merenda escolar para famílias que não estavam cadastradas no Bolsa Família. Para Rosana, a pandemia está criando um cenário alarmante em Bauru.

Até a publicação desta reportagem, a Prefeitura de Bauru não respondeu sobre a situação de Débora e Milena.

 

 

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