“Estamos fazendo história no dia-a-dia”, diz autora de livro sobre Bauru

“Bauru, uma cidade sem limites” apresenta a história do município, desde a fundação até os dias de hoje; edição ampliada foi publicada no mês passado e o Jornal Dois conversou com uma das escritoras responsáveis pela obra

Publicado em 18 de janeiro de 2021

À esquerda, capa da nova edição do livro mostra o Parque Vitória Régia fotografado por Paulo Nabas; à direita, primeira edição, de 2016, exibe o prédio do Automóvel Clube de Bauru, desenhado por Clovis, artista de rua da cidade (Foto: Camila Araujo/Jornal Dois)
Por Camila Araujo
Edição Bibiana Garrido

A nova edição do livro “Bauru, uma cidade sem limites” foi publicada há um mês, em dezembro de 2020. Esta é uma versão revista e ampliada da obra publicada originalmente em 2016, pela editora bauruense Canal6, escrito por Sandra de Cássia Ribeiro, socióloga, e Márcia Regina Nava Sobreira, historiadora. Ambas são professoras da rede estadual de ensino de Bauru.

O material reúne fatos do início do processo de colonização da cidade até os dias atuais, em ordem cronológica.

No livro, as autoras contam que o processo de ocupação do centro-oeste paulista ocorre a partir de 1840, e se intensifica na década seguinte. Neste momento, chegavam os “pioneiros”, colonizadores, que fugiam da decadência da exploração do ouro e do café, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Por aqui, habitavam populações indígenas, entre elas as etnias kaingangs, terena e guarani.

Imagem de indígena kaingang ilustra uma das páginas do livro (Foto: Camila Araujo/Jornal Dois)

Na defesa de suas terras, muitos nativos foram assassinados ou expulsos pelos “desbravadores”. A história de Bauru não é diferente do contexto a nível nacional: também é manchada de sangue.

Constituição

O ponto de partida para a formação do povoado de Bauru aconteceu a partir de doações de terras de dois fazendeiros para a Igreja Católica, em 1885 e 1893, respectivamente. Neste contexto, de acordo com o livro, era comum que as famílias fizessem esse tipo de doação: seja por devoção ou por prestígio social.

Em 1893, foi criado o Distrito de Paz de Bauru e no ano seguinte, em julho, o primeiro cartório foi instalado na região. As primeiras eleições ocorreram um ano mais tarde, em 1895, iniciando o primeiro período legislativo da Câmara Municipal, entre 1896 e 1898. A legislatura é o período de quatro anos de mandato dos vereadores eleitos a partir da posse. Atualmente, a cidade está em sua 33ª legislatura.

A data em que se celebra o aniversário do município, 1º de agosto, remete ao momento em que a lei 428 é promulgada pelo Estado, em 1896. O artigo primeiro desta legislação diz o seguinte: “O Município de Espírito Santo da Fortaleza passa a denominar-se Bahurú, mudando-se a sua sede para esta última povoação”. Na época, não existiam limites territoriais consolidados, e a sede do município era disputada em nível local.

Ilustrações mostram ruas da cidade no século passado (Foto: Camila Araujo/Jornal Dois)

Nomes como Monsenhor Claro, Araújo Leite, Ezequiel Ramos, Rodrigo Romeiro, Eduardo Vergueiro de Lorena, Saint Martin, entre outros, surgem como personagens fazedores da história: são juízes, prefeitos, padres e comerciantes. À época, detinham poder político e econômico, vivendo em situação de privilégio social. Hoje, nomeiam ruas da cidade.

A autora Sandra sugere que quando vamos à escola, ao mercado, a todo momento estamos fazendo história. Para ela, “não adianta querer entender os fatos históricos nacionais se não entendermos que nós estamos fazendo história no dia-a-dia”. 

Motivação 

“Sentimos na pele a falta de um material sistematizado e organizado cronologicamente para usar em sala de aula”, conta Sandra. Essa foi a motivação para a escrita do livro há cinco anos, a partir da pesquisa de documentos históricos e entrevistas. A intenção era oferecer um material sobre a história local para comunidades escolares da cidade. Por isso, inclusive, que a primeira edição contava com exercícios paradidáticos como propostas de atividades.

A publicação traz novos elementos devido à “fartura de documentos e dados”. É o que relata Sandra, lembrando arquivos ao qual ela e Márcia tiveram acesso. Nesta nova edição, os exercícios e atividades para estudantes foram retirados por escolha editorial. A pretensão é de que a obra seja um livro para consulta histórica.

Trabalhadores das estradas de ferro e movimento sindical fazem parte da construção e desenvolvimento de Bauru (Foto: Camila Araujo/Jornal Dois)
Bauru hoje 

A professora Sandra entende que Bauru atualmente está bem diferente da cidade de 2016, quando foi publicada a primeira edição do livro. “Está mais carente e empobrecida, também por conta da pandemia”, reconhece. O olhar sobre a cidade, para ela, era um pouco mais otimista há cinco anos, e que hoje a juventude está “mais abandonada, com medo”.

Para enfrentar este cenário, a socióloga acredita que “é preciso arregaçar as mangas, para ir com força total em direção a mudança que queremos”. Através da apropriação da história da cidade pelos e pelas bauruenses, ela espera que o livro possa ajudar a “dar uma alavancada” no desenvolvimento do município.

Aquisição 

De acordo com Sandra, houve o interesse das secretarias estadual e municipal pelo projeto. Na época da publicação, em 2016, não havia a possibilidade de aquisição, pela prefeitura, para distribuição gratuita. A editora pretende apresentar o projeto para a comunidade escolar do município novamente, com a nova edição em mãos. Se houver retorno positivo, as escolas deverão comprar os exemplares para trabalhar com os estudantes.

O livro pode ser adquirido no Sebo Clepsidra, localizado na Rua Treze de Maio. O valor é de R$35 reais.

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