EMEF do Tangarás tem obra atrasada e alunos são atendidos em igreja

Reforma de R$1,5 milhão deveria ter sido entregue em maio; só 25% do projeto foi concluído até agora

Publicado em 13 de setembro de 2021

(Foto: Victória Ribeiro/Jornal Dois)
Por Victória Ribeiro
Edição Bibiana Garrido 

Com o atraso nas obras de reforma e ampliação da EMEF Dirce Boemer Guedes de Azevedo, no Jardim Tangarás, alunos estão sendo atendidos em uma igreja do bairro desde março. A busca pelo espaço foi iniciativa da comunidade escolar depois de reclamações dos pais. Era para a escola ter ficado pronta em maio, um ano depois do início das obras. O projeto, que recebeu por volta de R$ 1,5 milhão em verba, está 25% concluído.

Os atendimentos ocorrem na Congregação Batista Missão Resgatar, que fica a duas quadras da escola de ensino fundamental, na proposta de três vezes por semana com 1 hora de duração. Os pais fazem os agendamentos diretamente com as professoras, que avisam quando há disponibilidade de horário.

A EMEF tem 18 turmas com aproximadamente 30 alunos cada. Depois da suspensão das aulas presenciais em março, data em que o município permitiu o retorno dos alunos à sala de aula, a escola municipal segue realizando atividades de ensino remoto com o envio de materiais pela internet e com a preparação de conteúdo para retirada no prédio da escola.

“Eu tenho dó da minha filha e das outras crianças”

“A professora não conhece minha filha”, disse Ivânia Justos, operadora de caixa. Sua filha está no primeiro ano da EMEF Dirce Boemer e conseguiu atendimento na igreja em três ocasiões desde março. Ivânia conta que Lorena, de 7 anos, só consegue escrever o nome por ter memorizado as letras. “O pouco que ela sabe foi o que conseguimos ensinar”.

A escola envia de 6 a 7 vídeos por dia, relata a mãe, além de disponibilizar atividades para os pais buscarem na EMEF. Por conta da rotina de trabalho e tendo o celular como único meio de acesso à internet, a operadora de caixa tem dificuldades para acessar os materiais e acompanhar a filha nas atividades. “Quando saio pra trabalhar, preciso levar o celular. Como minha filha vai ter acesso ao conteúdo dessa forma?”, perguntou.

(Foto: Victória Ribeiro/Jornal Dois)

Preocupada com o aprendizado da filha, Ivânia comenta ter buscado vaga em outras escolas, sem sucesso. Há dois meses, resolveu entrar em contato com a Secretaria Municipal de Educação para perguntar sobre a EMEF Dirce Boemer.

Em resposta à Ivânia, o órgão teria afirmado não encontrar prédios dentro do orçamento municipal para o remanejamento dos alunos. Questionada pelo Jornal Dois, a Secretaria afirmou que o imóvel precisa estar dentro de um valor médio de mercado. Existe uma avaliação dos preços, que não pode estar muito acima do valor pré-estabelecido para não gerar tipos de ilegalidade”, explicou.

(Foto: Victória Ribeiro/Jornal Dois)

Para Ivania, a situação representa um descaso. “Eu tenho dó da minha filha e das outras crianças. Já não é mais culpa da pandemia, mas sim da paralisação das obras e do descaso”, afirmou.

Remanejamento

A Secretaria Municipal de Educação transferiu parte da mobília da escola para a igreja onde as atividades começaram a ser realizadas. “É um paliativo para que as crianças não fiquem alheias à vida escolar enquanto a questão burocrática se desenvolve”, comentou ao J2 José Vitor Bertizoli, diretor do departamento de ensino fundamental.

A igreja não passou por avaliação técnica, tendo sido supervisionadas a ventilação do prédio e a presença de banheiros.

“Nós não temos custo algum com isso”, acrescentou. “A igreja arca com gastos de luz e energia. A gente faz contato com as famílias e as que se interessam pelo atendimento, agendam com a professora e levam os alunos até o local para receber as orientações possíveis”.

O diretor relata que a busca por um prédio para realocar as crianças matriculadas na EMEF Dirce Boemer Guedes de Azevedo começou em janeiro de 2021, quando discussões sobre o retorno das aulas presenciais foram iniciadas. À reportagem, explica que a demora para encontrar o espaço se deve aos critérios de seleção, como tamanho e localização.

“É difícil encontrar um prédio com tantas especificidades em um bairro periférico. É preciso que seja próximo aos alunos e que haja condições físicas para comportar a todos, ter sala dos professores e espaço para produção de merenda”, disse.

(Foto: Victória Ribeiro/Jornal Dois)

Não é a primeira vez que a Secretaria Municipal de Educação “enfrenta dificuldades” com a realocação de alunos durante o período de obras, lembra José Vitor. Segundo ele, a prefeitura está discutindo a compra de dois prédios em “locais estratégicos da cidade” para serem utilizados em situações como essas.

A menos de 2 km da escola, o Centro de Treinamento e Vivência (CTV) é estudado pela pasta como um dos lugares possíveis para receber os estudantes. José Vitor afirma que o local está passando por adaptações como instalação de corrimãos e rampas. “A vistoria faz apontamentos e as correções são feitas. Quando retornam, percebem outra situação… e por aí vai”, disse.

Perguntado sobre o prazo para realocação dos alunos da EMEF Dirce Boemer, o diretor de departamento respondeu que não há data definida – e mantém a expectativa de que as atividades presenciais possam ser retomadas nos próximos meses.

A obra

Iniciada em maio de 2020 na gestão do ex-prefeito Clodoaldo Gazzetta (PSDB), a reforma e ampliação na EMEF Dirce Boemer Guedes de Azevedo recebeu por volta de R$1,5 milhão em verba.

A construtora responsável é a empresa paulistana Soluções Serviços Terceirizados, que foi escolhida após processo de licitação com base na oferta de trabalho mais vantajosa, informa Luciana Campos, diretora de fiscalização da Secretaria de Obras de Bauru.

(Foto: Victória Ribeiro/Jornal Dois)

A obra que deveria ter sido entregue em maio deste ano está 25% concluída. Luciana afirma que houve constante acompanhamento dos serviços realizados pela construtora, e que esta não cumpria o cronograma estabelecido no contrato.

A empresa responsável justificou que a paralisação da obra ocorreu “pelo grande atraso para entrega de materiais, devido à covid-19, e por conta de dúvidas com relação ao projeto durante sua execução”, repassou a diretora ao J2.

O Jornal Dois entrou em contato com a construtora, mas não obteve resposta.

Segundo a Secretaria de Obras, a Soluções Serviços Terceirizados foi remunerada apenas pelos serviços prestados, o que totalizou R$375 mil até o momento. O valor restante está paralisado e será aplicado na continuação da obra.

Em junho de 2021 a empresa foi notificada sobre o término da vigência do contrato e o processo está sob acompanhamento do setor jurídico da Prefeitura, relata Luciana. Um novo processo de licitação será aberto para definir a empresa que dará continuidade ao projeto, que ainda não possui prazo definido.

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