Em cena, a ausência de Mara Lucia

Em “Talvez isso não seja totalmente preciso, mas aqui está”, atores contracenam com o desafio de falar do assassinato brutal de uma criança

Publicado em 19 de  julho de 2019

"Falar da brutalidade é um desafio para a racionalidade" (Foto: Divulgação/Helder Borges)
Por Carolina Bataier, colunista da Jornal Dois

Em 1970, Mara Lucia Vieira, de 9 anos, foi assassinada em uma casa na região central da cidade de Bauru. Os suspeitos, homens da alta sociedade, nunca foram presos. Até hoje, o caso segue sem solução.

Em 2019, os atores Andressa Francelino e Fábio Valério, dirigidos por Marcelo Soler, entram no palco segurando um pedaço de giz. Dispõem de lousas e outros objetos: uma pequena cadeira branca, calcinhas de algodão, um balanço. Com esses elementos, relembram Mara Lúcia, na peça “Talvez isso não seja totalmente preciso, mas aqui está”. Os atores formam a companhia Protótipo Tópico, com sede no centro de Bauru. A estreia da peça foi realizada na cidade, em temporada com cinco apresentações, no mês de junho.

No livro “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, da autora Lionel Shriver, uma mãe rememora os momentos vividos junto do filho, numa agoniante busca pela compreensão dos fatos. O
adolescente Kevin, personagem fictício, é autor de um massacre em uma escola nos Estados Unidos. O crime é gatilho para a sequência de memórias da mãe.

No título da obra está, talvez, a origem de frases lidas repetidamente na internet. Precisamos falar sobre: estupro, aborto, machismo, feminismo, violência doméstica, masturbação,
assédio, feminicídio. E falamos, exaustivamente, sem saber se somos ouvidos. Somos capazes de nomear atitudes e encontrar culpados mas, quando um jovem de 14 anos entra em uma escola e atira contra outros adolescentes, algo dentro de nós se contorce na busca pela compreensão. Loucura? Demônio? Ódio? Ninguém tem certeza.

Falar da brutalidade é um desafio para a racionalidade. Como a mãe de Kevin, os atores de “Talvez isso não seja absolutamente preciso, mas aqui está” vasculham memórias na busca pela compreensão do crime. Eliana, amiga de Mara Lucia e mãe de Fábio Valério, fala dos momentos vividos junto da menina. As lembranças dela se mesclam às memórias da cidade: a rua que leva o nome da criança assassinada, o túmulo, depoimentos do pai e reportagens de jornais compõe a colcha de retalhos traçada no processo de pesquisa do grupo.

Contudo, Mara Lucia Vieira morreu há 49 anos e o tempo, nós sabemos, amarela fotografias e embaça memórias. Sobram os fatos, batidos à máquina de escrever e anexados a um inquérito policial. Em novembro de 1970, o corpo da criança foi encontrado ao lado do vaso sanitário, no banheiro de uma casa vazia. A menina teve os tendões de todos os dedos cortados para imobilizar o abrir e fechar das mãos. Foi estuprada e sufocada com a calcinha. Há outros detalhes, piores, dos quais até mesmo o jornal sensacionalista Agora!, em edição de 1985 com reportagem especial sobre o caso, poupou seus leitores.

Em Bauru, nós não precisamos falar sobre Mara Lúcia. A cidade sabe quem foi. Seu nome batiza uma rua e seu túmulo recebe flores, velas e orações de pessoas desconhecidas. Em “Precisamos falar sobre Kevin”, a mãe precisa, na verdade, falar sobre ela. A angústia está em reviver o passado na tentativa de entender sua própria responsabilidade sobre os atos do filho.

No remexer das memórias e fatos, os atores de “Talvez isso não seja totalmente preciso, mas aqui está” percebem que, quando precisamos falar sobre Mara Lúcia, precisamos falar, na verdade, sobre nós e sobre uma cidade sufocada por fina camada de incômodo silêncio. É impossível falar sobre uma menina sequestrada, estuprada e assassinada sem mencionar nossas instituições e nossos hábitos em sociedade.

"Talvez isso não seja absolutamente preciso, mas aqui está” não é uma peça de teatro. É uma tentativa" (Foto: Divulgação/Helder Borges)

Na reportagem do jornal Agora!, de 1985, há o nome de um dos suspeitos: Nilton Paulo Marques. O rapaz, filho de um empresário da cidade e dono da casa onde a menina foi encontrada, tinha um álibi. Ele disse estar em uma reunião de entidade beneficente, na cidade de Botucatu-SP, no dia do crime. Um policial militar apresentou provas contrárias: naquela mesma data, o oficial havia aplicado a Nilton uma multa em via bauruense: “Eu adverti Nilton porque estava em alta velocidade pela rua Duque de Caxias”, aponta o relato do policial. O fato não foi anexado ao inquérito e, dias depois, o policial militar teria sido afastado do cargo por “saber demais”. As senhoras da entidade beneficente confirmaram a presença do suspeito na reunião. De acordo com a reportagem do Agora!, os boatos na cidade davam conta de que delegado e outros policiais envolvidos no caso receberam alta quantia em dinheiro para evitar a prisão de acusados, todos pertencentes a famílias conhecidas na cidade.

O corpo dilacerado. Um túmulo com velas. A ordem estabelecida. Nenhum culpado preso. No ano vem que, o caso completa 50 anos.

Na tentativa de compreender o que nos foge ao racional, os atores se desdobram para tirar a poeira dos fatos e trazer à cena um novo olhar sobre uma história repetida muitas vezes. É lançado o desafio inerente à arte: como falar do brutal sem fazer escorrer mais sangue do que já fora derramado pelos relatos e reportagens? E, ainda assim, sem o sangue, sem os cortes, como levar a força da ausência de uma criança aos olhos do público?

A solução é a poética. Em tempos onde todos precisam falar sobre algo.

Em tempos onde faltam palavras para falar sobre uma criança assassinada.

Nestes tempos, quando precisamos sentir.

O silêncio,
o sutil,
o detalhe,
são contundentes.

“Talvez isso não seja absolutamente preciso, mas aqui está” não é uma peça de teatro. É uma tentativa, uma possibilidade, um poema cênico. Assim somos avisados antes de adentrar o espetáculo.

Uma pequena cadeira vazia. Um balanço vazio. Os lugares onde o corpo nunca esteve. As imagens que os olhos nunca viram.

Talvez, o modo mais eficiente de nos fazer sentir a morte brutal de uma criança é ouvir bem alto uma música que ela nunca chegou a conhecer e que, alegres, cantamos muitas vezes em nossos churrascos em família.

Ficha técnica:
Direção: Marcelo Soler
Elenco: Andressa Francelino e Fábio Valério
Preparação de atores: Georgette Fadel
Dramaturgia: criação coletiva (supervisão Marcelo Soler)
Cenografia e figurino: O grupo
Sonoplastia: Juliana Ramos
Iluminação: Luiz Campanha Jr.
Produção: José Vinagre e Vanessa Ochi

As colunas são um espaço de opinião. As posições e argumentos expressas neste espaço não necessariamente refletem o ponto de vista do JORNAL DOIS.

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