Equipe do Bauru Basket no jogo contra San Salvador, em 10 de fevereiro (Foto: Victor Lira/Bauru Basket)

Por Bibiana Garrido


A s faixas levantadas no canto direito da arquibancada chamam a atenção da torcida que chega para ver mais um jogo do Bauru Basket. “O ingresso mais caro do NBB” é o que diz uma delas, ao lado de outras, empunhadas pelos torcedores, ali manifestantes: “40R$ é roubo”.

Desde o começo da temporada, a torcida organizada Loucos da Central leva suas faixas e gritos de protesto aos jogos do Bauru Basket, contra a alta dos ingressos e por melhores condições aos membros do clube sócio-torcedor.

Era dia de enfrentar o Franca pelo NBB, maior competição nacional de basquete. Não deu para alcançar a vitória. Partidas depois, o time viria recuperar o fôlego nas jogadas e conquistar a classificação para a segunda fase da Liga das Américas.

Mas, naquele 6 de fevereiro, o resultado diferente do esperado serviu para mexer com a torcida que já reclamava da grana desembolsada para estar ali.

Torcida se manifesta nos intervalos da partida; enquanto a bola tá rolando, segue no apoio ao time (Foto: Bibiana Garrido/JORNAL DOIS)

“O preço do ingresso subiu de uma semana para outra”, é o que diz Mayara, que acompanha o time sempre que pode. A torcedora conhece a equipe, suas características e jogadas marcadas — coisa que ficou fácil de perceber porque assisti à partida bem abaixo dela. A cada passe e cada falha, um comentário com nome e sobrenome dos jogadores, com direito a xingamento para diretoria e arbitragem.

“No outro jogo tava 30 e hoje tá 40. É duro pagar 40 conto pra ver isso”, comenta Mayara ao lembrar da partida de dias antes contra a equipe de Caxias do Sul, com ingressos a R$30 e R$15 a meia-entrada. Para Natália, amiga que veio junto ver o clássico, fica difícil trazer os parentes para o Panela de Pressão: “pra quem tem família não compensa”.

A subida repentina no valor dos ingressos da arquibancada comum gerou questionamentos da torcida na página do time. O motivo? Seis jogos em casa no mesmo mês e o dinheiro que sai do bolso para ver a bola cair na cesta.

Giovana Piacente é sócia-torcedora e diz o que pensa: “ao invés de ajudar, de possibilitar ao torcedor ir aos jogos, acompanhar, porque nem todo mundo pode ser sócio, dão essa pisada na bola? Isso desestimula qualquer um”.

Seu César, acompanhado do neto, conta que frequenta as partidas de vez em quando. “No meu caso pago mais barato por ser idoso, paguei R$20, e meu neto é estudante”, explica, apontando o guri que vem subindo os degraus até onde estamos sentados. “Eu acho que tá um pouquinho caro. Tem uma base de quatro jogos por mês aqui, o que dá R$160 reais só de jogo”.

Apesar do custo para marcar presença no ginásio, seu César avalia o momento como positivo para apoiar o esporte na cidade: “Bauru tá precisando de uma alavancada nessa parte. Ficamos sem nada depois que o Noroeste caiu, então agora dá mais gente no basquete e no vôlei”.

Arquibancada lotada no clássico contra Franca; do lado direito, na ponta do quarto degrau de baixo para cima está seu César, camiseta branca e mão no queixo, de conversa com o neto (Foto: Bibiana Garrido/JORNAL DOIS)

Quem decide os preços dos ingressos é a diretoria do Bauru Basket. Sobre a mudança para a disputa entre Bauru e Franca, Vitor Jacó, gestor do time, afirma: “Nós temos livre arbítrio pra fazer qualquer preço, não tem nenhum vínculo com a federação, nada disso. Os preços são baseados no custo do jogo, temos um elenco muito caro”.

Na partida contra Franca, as faixas não chegaram a durar os quatro quartos: foram retiradas a pedido de policiais que trabalhavam na segurança do evento.

Estar em uma torcida organizada tem dessas. Depois do jogo, numa sexta-feira no bar do Totó, os Loucos da Central me contam um pouco do que vivem. “O preconceito com as torcidas organizadas é mundial”, diz Marcus Minei, membro-fundador. “Mas a gente sabe que também é porta-voz do torcedor comum. Na questão do ingresso veio muita gente falar que tá de acordo, que tá apoiando”.

Muitas crianças acompanhadas das famílias e responsáveis vão aos jogos do Bauru Basket (Foto: Bibiana Garrido/JORNAL DOIS)

“Os protestos deram certo pelo jeito”, avalia Felipe Petit de Abreu, também membro-fundador da Loucos da Central. Isso porque depois da derrota no começo do mês a diretoria começou a fazer uma série de promoções no estilo “combo de ingressos”.

Para quem quisesse ver Bauru na Liga das Américas, podia levar os ingressos dos dias 9, 10 e 11 de fevereiro a preço de meia-entrada. E se comprasse os três dias, o torcedor pagava ainda mais barato — medidas que tiveram boa repercussão na torcida.

A gestão do time aponta a relação dos ingressos com a expectativa de público, o que passa a depender também de quem é o adversário. Para cada partida existem ainda as despesas operacionais e da arbitragem. “Normalmente o jogo dá prejuízo. É um evento caro e o ginásio é pequeno. Não consegue ter uma arrecadação muito grande”, explica Vitor.

Quem já acompanhava o basquete antes da campanha de sucesso que levou ao título do NBB em 2013 lembra dos tíquetes a R$20-R$10. Para a torcida de hoje, um meio termo entre esse valor e os ingressos mais caros já cobrados em 2018 seria o ideal.

“Todos os jogos a gente pensa sempre em fazer promoção e trabalhar com combos”, garante o gestor do Bauru Basket. “A ideia é sempre ter o ginásio cheio e a torcida satisfeita”.

Felipe concorda que o elenco atual não é barato: “é um time de muita estrela”. Para ele e tantos outros torcedores, o preço dos ingressos não deveria prejudicar quem frequenta os jogos. “Pra quem gosta já é complicado ir, imagina pra quem quer conhecer”, argumenta o Louco da Central, que acredita ser importante a popularização do basquete em Bauru.

As torcidas organizadas Loucos da Central e Fúria 99 acompanham o time nos jogos fora de casa; os “Loucos” organizam rifas e pizzadas para juntar recursos (Foto: Loucos da Central/Acervo)

E por que Loucos da Central? Antes de serem uma torcida organizada, ficavam na parte central da arquibancada e eram as pessoas que mais faziam barulho enquanto o jogo ficava pegado. Loucos, pelo jeito de torcer. Da central, pelo lugar — depois mudaram para o canto direito, mas o nome ficou.

Sentados em volta da mesinha vermelha na calçada do bar, me dizem que o basquete em Bauru é um esporte família. Na conta deles, o vai e vem da torcida sazonal — aquela que vai ver o time nas fases boas e que some quando o bicho pega — não enfraquece quem é fiel. “A torcida transcende a instituição”, nas palavras de Marcus.

Na cola do Bauru Basket desde 2014, os Loucos da Central já enfrentaram poucas e boas para conseguir ver o time jogando fora de casa — falta de dinheiro, problemas com ônibus, viagens feitas com 20 reais, marmitas divididas e pernoites de favor. Quando pergunto o que os motiva a continuar no perrengue, eles respondem: o sentimento pelo clube, pelo basquete e pela torcida.

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