Destruição da Praça Portugal tem a cara do governo suellista

Mais de 40 árvores, plantadas há quase 30 anos na praça, foram suprimidas pela prefeitura nesta quarta-feira (8)

Publicado em 9 de setembro de 2021

Sobreposição de imagens da retirada das árvores da praça Portugal (Foto: Luiz Pires/Reprodução)
Por Henrique Perazzi de Aquino*, colunista do J2 

Insensibilidade, essa a palavra chave dessa administração, claudicante, inoperante, catastrófica e também insensível. Tudo junto e misturado. São poucos os atos governamentais sem alguma crítica, pois todos são de cima para baixo, atendendo interesses de uma minoria.

O que ocorre* neste momento na praça Portugal, localizada no Altos da Cidade, quando uma ilha inteira da praça, a sua inicial, junto ao pé do início da avenida Getúlio Vargas está vindo abaixo, com quase todas as árvores cortadas, inclusive a famosa e frondosa figueira, é mais uma demonstração do desprezo por ouvir o semelhante, neste caso o cidadão bauruense.

O projeto viário, o que dá vazão aos veículos se mostra mais importante que tudo o mais.

Comecemos pelo início para se ter algum entendimento do que se passa. Esse projeto não é novo e foi rejeitado pela administração passada, a do ex-prefeito Clodoaldo Gazzetta (PSDB).

Este não podia mesmo aprovar a derrubada das árvores como proposto, pois ele pessoalmente esteve envolvido no plantio da maioria delas, e se pronunciou nesta quarta-feira (8): “Que tristeza! Estão cortando todas as árvores da praça Portugal para transformar o local em uma grande rotatória. Que tragédia essa cidade. Nós que plantamos aquelas árvores em 1993”.

Extraio de texto publicado por Gazzetta o seguinte trecho, elucidativo sobre o triste momento:

“Me lembro como se fosse hoje das mais de 300 árvores que plantamos na Praça Portugal em 1993. Ganhamos inclusive um prêmio do Guiness pela primeira cidade do planeta a plantar o maior número de árvores ao mesmo tempo. Na sequência, através de Decreto Municipal 6760 de 15 de novembro de 1993, tombamos as árvores como Patrimônio Histórico da cidade, imaginando que estariam protegidas para as gerações futuras. Ledo engano! Acabei de passar pela Praça Portugal e as árvores estão sendo cortadas. Que tristeza ver quase 30 anos de história sendo dizimados pelas motosserras, para transformar o local em uma pista de rolamento para carros. Estamos mesmo na contramão da história!!! No passado tentaram cortar também o Óleo de Copaíba da avenida Getúlio Vargas, para dar lugar a pista de rolamento para carros. Uma escola inteira se mobilizou e as crianças conseguiram proteger a árvore, que até hoje embeleza esta avenida da cidade. Infelizmente essas árvores abatidas da Praça Portugal não tiveram a mesma sorte. A natureza e a história dando lugar ao concreto e o asfalto. Vale destacar que empresa que está executando a obra não tem culpa alguma de absolutamente nada neste processo! Ela está fazendo investimentos importantes na região e apenas está cumprindo a contrapartida obrigatória que a prefeitura definiu como necessária”.

Fui em busca do texto do ex-prefeito só para uma simples comparação de posicionamentos e posturas administrativas. Uma e outra estão bem claras, evidentes, nítidas. No governo do Gazzetta existia um projeto, bem diferente deste e, agora, outro, castrador da praça e do verde existente no local.

Quem passou pela região nesta quarta, viu motosserras retirarem árvores da Praça Portugal (Foto: Luiz Pires/Reprodução)
A aprovação dessa medida foi só da Secretaria de Meio Ambiente (SEMMA), porque se passasse pelo Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (CONDEMA), com certeza, a aprovação da derrubada das árvores não teria ocorrido. Ou seja, foi feito um novo projeto só para contemplar a derrubada, sem dó nem piedade das árvores. E isso tudo ocorreu no dia de ontem, para consternação pública da população que por ali transitou e presenciou a derrubada.
 
Momento muito triste na história da cidade, até porque estavam tombadas e para serem derrubadas necessitaria autorização especial, o que não ocorreu.
 
O argumento da prefeitura é o PROGRESSO, e em nome disso sempre se cometeram barbaridades, sendo essa mais uma delas. Existiam alternativas, mas sempre há preferência para o modal veículo em detrimento de todos os demais. No meio dessa praça tem uma pista, que foi feita para ligação futura, e nunca utilizada, entre as avenidas Comendador José Vicente Aiello e a Getúlio. Foi toda preenchida pelas árvores e hoje resgatado pelo projeto que descaracteriza o local.
 
De tudo, existe muito da sensibilidade humana, da mão humana nas transformações de uma cidade. Consulto também o professor e arquiteto Adalberto Retto Junior, morador em um dos prédios do local, pois recentemente escrevi a respeito de uma carta sua publicada na Tribuna do Leitor, no Jornal da Cidade, quando o ponto nevrálgico era justamente a utilização da Praça Portugal. O projeto pensado e idealizado por ele foi renegado, menosprezado, e no lugar algo feito exatamente ao contrário dos preceitos de respeito à natureza. “Por isso que fiz o texto, justamente para denunciar que o desenho leva a esse tipo de ação de grandes proporções”, escreve. E me envia algo para ajudar na crítica: o texto “Cidades do mundo todo começam a implementar novas estratégias de combate às ilhas de calor”, exatamente o contrário do que Bauru executa neste momento.
 
Ou seja, mais do que evidente estar Bauru na contramão de qualquer tipo de avanço e o já explícito retrocesso possui bem a cara e característica predominante do atual desGoverno da novíssima (sic) alcaide. Ela é hoje uma espécie de Rei Midas às avessas, pois onde coloca o dedinho, algo constrangedor e também com alto poder de destruição acontece. E ainda estamos no primeiro ano de seu mandato. Ela e sua equipe já comprovaram neste curto período a que vieram. E quem padece é Bauru.

* A Prefeitura de Bauru suprimiu 44 árvores da Praça Portugal nesta quarta-feira (8). A gestão do município afirma que a medida seguiu os trâmites legais e que vai haver compensação ambiental com o plantio de 550 árvores em outro local. A decisão não passou pelo CONDEMA, e faz parte de obras para implementação de um novo sistema viário na região. 

*Henrique Perazzi de Aquino é jornalista e professor de História.
As colunas são um espaço de opinião. Posições e argumentos expressos neste espaço não necessariamente refletem o ponto de vista do Jornal Dois.
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