Das ruas para as urnas: quais os caminhos para 2022?

Diversas manifestações pelo “Fora Bolsonaro” foram realizadas em 2021, mas pouco foi construído para além dos meios constitucionais

Publicado em 11 de novembro de 2021

Por Matheus Versati, colunista do J2

Com a chegada da vacina contra a covid-19 no início de 2021, lideranças da esquerda nacional começaram a organizar diversos protestos nas ruas do país em oposição ao presidente Jair Bolsonaro. Entre as reivindicações, “pão, vacina e educação” se apresentou como o lema das manifestações contra o governo atual, simbolizando as principais urgências da população.

Mas por que tantos protestos? Qual foi o objetivo dessas manifestações? Vou tentar aprofundar o debate.

Neste ano de 2022 teremos eleição para a presidência do Brasil. Diante disso, a esquerda institucional, que compreende partidos e organizações, precisa construir e fortalecer sua representação política. Dois dos espaços onde ela desenvolve novas personalidades para competir nas eleições são os protestos e as greves.

A Frente Brasil Popular é, de forma resumida, uma coalizão de forças aliadas ao Partido dos Trabalhadores (PT). Junto a ela se tem grande parte do Movimento Sem Terra (MST), da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Já a Povo Sem Medo, coalizão de forças aliadas ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), tem mais força no estado de São Paulo dentro do Movimento de Trabalhadores Sem Terra (MTST).

Na briga para construir um panorama para as eleições de 2022, seja para futuras candidaturas ou para aumentar suas influências, essas organizações disputaram as ruas chamando protestos simultâneos.

Havia como essência o enfraquecimento da imagem de Bolsonaro, e os protestos conseguiram desgastar a imagem do presidente. O movimento de apoio ao governo atual enfraqueceu e seguiu perdendo forças ao longo de 2021.

Apesar disso, o objetivo das lideranças políticas de esquerda nunca foi construir algo revolucionário ou radical nas ruas, tentar derrubar o presidente antes das eleições, nem mesmo organizar a oposição de maneira sólida para a luta. O objetivo real das organizações era desgastar a imagem de Bolsonaro enquanto construíam seus pilares para as eleições de 2022. 

Como sempre, a esquerda aposta todas as suas fichas nas urnas e nas ferramentas constitucionais.

Entendendo o contexto dado, não devemos desanimar das lutas e dos protestos. Devemos tomar as ruas, mas com narrativas que sejam de fato transformadoras e coerentes. Precisamos construir uma esquerda mais combativa, em âmbito nacional, e romper com a perspectiva reformista dentro da esquerda.

É natural que pessoas se iludam com as respostas mais fáceis, e ilusório acreditar que o que entendemos como esquerda é a solução para o país.

A esquerda brasileira está com vícios burocráticos e institucionais – não sabe por onde começar a ruptura com o sistema capitalista, nem se aprofunda nesse debate. Tem como base discursos revolucionários, mas que sem a prática se tornam vazios.

Precisamos construir uma esquerda diferente. Dentro deste cenário, os convido para uma reflexão.

Vamos supor que Boulos vença as eleições estaduais em 2022. O que nós esperamos do governo? Um governo revolucionário, que rompa com as elites dominantes estaduais? Um governo que resolva as leis de flexibilização do cerrado, que estão acabando com as nascentes e rios? Um governo que recupera os direitos dos funcionários públicos e potencializa os movimentos sociais e sindicais do estado?

Ou esperamos um governo social democrata, que assim como os outros governos de esquerda eleitos, faça manutenções e mudanças ligeiramente mais progressistas no estado de São Paulo? E depois de quatro anos torcermos para que se reeleja e essas pequenas conquistas não se tornem efêmeras, como o que aconteceu com todos os avanços obtidos através dos meios constitucionais?

Os convido para essa mesma reflexão pensando em uma perspectiva nacional. Se Lula ganhar, esperamos que ele anule a Reforma da Previdência? Esperamos que ele anule a Reforma Trabalhista? Ou só esperamos que ele segure o Brasil nesta queda livre?

Por mais importante que essas vitórias possam ser, elas não irão salvar o país. A crise econômica e a desigualdade crescem a passos largos.

Em Bauru, mais de 70 mil pessoas vivem em situação de vulnerabilidade social, de acordo com dados da Secretaria de Bem Estar Social (Sebes) divulgados em 2021. As ocupações irregulares estão se espalhando por todas as periferias da cidade. A falta de água se tornou rotina, e a tendência é ficar ainda mais grave com as destruições das nascentes do Rio Batalha.

Não venho aqui oferecer solução, a resposta deve ser encontrada de forma coletiva. Precisamos olhar para esse cenário com honestidade e aceitar que não há meios fáceis. O caminho para resolver os problemas que o país enfrenta é árduo, um processo muito longo.

Devemos parar de terceirizar a responsabilidade de cuidado da nossa sociedade e enxergar nossas obrigações. O futuro é difícil e com poucas chances de sucesso, se não nos jogarmos na luta por um futuro melhor, ele já estará perdido.

*Matheus Versati é membro do Coletivo Ação Libertária (CAL)

As colunas são um espaço de opinião. Posições e argumentos expressos neste espaço não necessariamente refletem o ponto de vista do Jornal Dois.
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