Como o Hip Hop bauruense construiu o maior festival da cultura na América Latina

Ações coletivas e políticas públicas fortalecem o movimento em quase 30 anos de história

Publicado em 02 de novembro de 2019

Encerramento da Semana do Hip Hop de Bauru com grupo RZO, em 2017. (Foto: Divulgação/Semana do Hip Hop)
Por Ana Carolina Moraes

Nos bailes, nos bairros, dentro das casas, nas ruas; entre lutas, projetos, políticas públicas: o Hip Hop em Bauru se consolida como uma das manifestações culturais mais fortes do interior paulista. O que começou na cidade como “o movimento” no início da década de 1990, é hoje o responsável por organizar um dos maiores festivais gratuitos da cultura na América Latina.

O Hip Hop surge na década de 70 nos Estados Unidos, vem pro Brasil nos anos 80 e conquista os bauruenses a partir de 90. Das coincidências do movimento nesses três lugares – Nova Iorque (EUA), São Paulo (capital paulista) e Bauru – estão:

  •  a periferia, espaço em que o Hip Hop se fortalece;
  •  as pessoas, que se tornaram agentes multiplicadores do movimento;
  •  a identificação com a cultura como uma plataforma de lazer e denúncia das desigualdades sócio-raciais e violências simbólicas.

“Uma das maiores importâncias [do Hip Hop] é poder mostrar os erros que temos dentro da sociedade, os erros políticos, erros nossos também”; quem dá a letra sobre isso é Dharles Eduardo Matoso da Silva, o Mano Dharlão, MC e membro do grupo Ment Blindada. “E a gente pode mostrar essas caminhadas através das nossas músicas, através de imagens com o Graffiti, através de dança, são várias formas de você demonstrar a sua insatisfação”.

Desde que me aproximei da cena local, ouço que o “Hip Hop salva”. E não dá pra questionar o potencial transformador desse movimento. Por isso, peço licença para registrar aqui um pouco da história e da singularidade deste universo no território 014.

Potência

“A minha maior lembrança do movimento Hip Hop em Bauru foi a luta que a gente travou em 2011, 2012. A gente fez passeatas, fizemos manifestações para que os vereadores votassem para o Hip Hop se tornar Lei Municipal, como hoje”, conta Dharlão. Ele começou a participar do Hip Hop ainda na década de 90, ouvindo os discos de rap com sua tia, que se tornou uma inspiração: “Sempre que eu subo no palco, muitas vezes quando eu tô pensando no rap, quando pensamos em largar o rap, eu penso na minha tia, não foi um bagulho do nada, não foi por acaso que ela fez essa ponte para minha caminhada pro rap”.

Quando Dharlão fala da luta para tornar o Hip Hop uma Lei, a referência é à Lei Municipal Nº 6358, de maio 2013. A Semana do Hip Hop entrou no calendário oficial de eventos de Bauru, para ser realizada anualmente em novembro.

“Foi através da luta de todos nós [que o Hip Hop em Bauru passou a ser reconhecido institucionalmente], que fizemos parte dessa história”.

A Semana rolava desde 2011 por conta – e recursos – próprios, organizada pelo Ponto de Cultura Acesso Hip Hop – braço do Instituto Acesso Popular de Educação, Cultura e Política.

O que contribuiu para a formação desses grupos foi a articulação de um coletivo no começo dos anos 2000. “Que potência que esse movimento cultural tem! E que potência para o desenvolvimento dos processos educativos na periferia!”, conta Mara Rita Oriolo de Almeida, uma das fundadoras da ONG Quilombo do Interior e coordenadora de programação no Sesc Guarulhos. Foi a partir dessa reflexão que nasceu o Quilombo do interior, a primeira ONG dedicada exclusivamente ao Hip Hop no centro-oeste paulista.

Fagulha

O ano é 2001 e está rolando uma série de oficinas de Hip Hop na extinta Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes, em Bauru. Na época, o movimento já era forte na cidade. Segundo Mara, a expressividade do Hip Hop motivou a série de atividades na Oficina Cultural que convidou Thaíde, Dj Hum, Dj Marco, Nelson Triunfo e outros nomes da cultura, além de uma reunião com dez grupos de rap da cidade, que se apresentaram no evento: “foi uma forma de apresentar o trabalho deles para essas pessoas que estavam ali – Thaíde, Nelson Triunfo, então, foi uma troca bem bacana, foi um sábado de festa”, relembra.

Do contato intenso com o Hip Hop bauruense e da articulação de pessoas envolvidas nesse meio, nasce o Quilombo do Interior. “[O Hip Hop] era uma manifestação cultural que se dava na cidade de maneira orgânica, mas não de uma maneira organizada”. A ONG surge com a proposta de estabelecer processos educativos por meio da educação não formal no Hip Hop.

Divulgação do CD Hip Hop Sem Limites, produzido pela ONG Quilombo do Interior em 2004 (Foto: Acervo pessoal) CLIQUE PARA OUVIR

Até 2006, a organização funcionou com um espaço de resistência da cultura no interior, desenvolvendo atividades na periferia de Bauru por meio de oficinas e eventos ministradas pelos jovens que compunham o movimento Hip Hop da cidade. O objetivo era torná-los protagonistas de suas histórias, fortalecendo a cidadania efetiva e formação política. O projeto tinha parceria com poder público (via Secretaria Municipal de Cultura) e apoio de políticas públicas. “O Quilombo do Interior foi essa fagulha que explodiu na cidade, que ajudou a dar mais visibilidade ao movimento e contribuiu com tudo isso que é o Hip Hop de Bauru hoje”, conclui Mara.

Depois desse período, parte do movimento passou a se reorganizar com apoio do Governo Federal via Programa Cultura Viva e se tornou o Ponto de Cultura Acesso Hip Hop, em 2011.

Quatro anos depois, o Hip Hop passou a ocupar as salas do primeiro andar da Antiga Estação Ferroviária, local considerado marco zero da cultura. Foi numa entrevista para o site da Casa do Hip Hop, em 2015 que Renato Moreira, o Magú, um dos articuladores da cultura em Bauru, me contou sobre isso: “ao mesmo tempo que as coisas estavam efervescente por lá [na São Bento], aqui também estava assim. A galera pegava o trem para ir lá e beber da fonte. Acho que é por isso que a gente tem um movimento tão forte: porque ele passa por várias gerações, por várias pessoas”.

Direção

“No movimento Hip Hop de Bauru, a importância para mim está nessa de mostrar a direção para quem não tem a direção”, comenta Mano Dharlão sobre a influência do movimento na cena cultural bauruense.

Em nove anos de eventos, A Semana do Hip Hop trouxe centenas de artistas e militantes do movimento conhecidos no Brasil e no Interior. Grandes nomes do rap nacional como RZO, Dexter e GOG passaram pelos palcos de Bauru nesse meio tempo.

A intenção é difundir a cultura Hip Hop pela cidade, criar oportunidade para os jovens mostrarem seus trabalhos e talentos; além disso, a Semana trabalha também o respeito à diversidade cultural.

A edição de 2019 conta com mais de 60 atividades – entre oficinas, saraus, debates e shows – em dez dias de eventos.

A programação completa está abaixo:

Esta é uma reportagem opinativa. A apuração e checagem das informações expressas seguem o rigor jornalístico orientado por uma hipótese elaborada pela repórter.

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