Com greve geral adiada, movimentos mantém ato contra a Reforma da Previdência

Sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos se reuniram no fim da tarde em protesto: “Reaja ou sua aposentadoria acaba”, dizia um dos cartazes

Reportagem publicada em 6 de dezembro de 2017

Grupos contrários à reforma distribuíram panfletos, gritaram palavras de ordem na tentativa de conscientizar a população (Foto: Bibiana Garrido / JORNAL DOIS)

Por Flávia Gândara e Lucas Zanetti

As medidas propostas pelo governo Michel Temer (PMDB) continuam a ser alvo de mobilizações por todo o Brasil. Em protesto contra a Reforma da Previdência que seria votada hoje (6), uma greve geral estava marcada para terça-feira (5). A votação foi adiada na Câmara dos Deputados, em Brasília, e agendada para o dia 12 de dezembro.

A mudança na data fez algumas centrais sindicais retirarem o apoio às mobilizações em diversas cidades e a greve geral foi transformada em ato. As organizações que permaneceram, buscaram dialogar com a população sobre as consequências da reforma. Em Bauru, o ato teve início às 17h, em frente a Câmara Municipal, e foi composto por cerca de 15 entidades, entre sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos.

 

Roque Ferreira critica o cancelamento da greve geral (Vídeo: Bibiana Garrido / JORNAL DOIS)

“Esse ato estava previsto como uma paralisação total. Mas, com a retirada do projeto temporariamente pela Câmara dos Deputados, nós decidimos começar a fazer um ‘esquenta’ a partir de hoje, para que no dia 12 e 13 a gente volte à carga máxima, que é parar o Brasil”, explica Itamar Calado, coordenador local da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Itamar Calado, da CUT/Bauru ressaltou os aspectos negativos da Reforma da Previdência (Vídeo: Bibiana Garrido / JORNAL DOIS)

O ex-vereador Roque Ferreira acredita que faltou vigor no ato e que a greve geral deveria ter sido mantida: “Acho que o grande empecilho, hoje, para a classe trabalhadora entrar em cena com seus melhores batalhões são as próprias direções das organizações dos trabalhadores”. Na avaliação dele, o adiamento da pauta que as centrais sindicais entenderam como vitória foi uma manobra do governo para ganhar apoio e viabilizar a aprovação da medida ainda este ano.

A diversidade de gerações, ideias e movimentos marcou a manifestação. (Fotos: Bibiana Garrido e Flávia Gândara / JORNAL DOIS)

Militantes das entidades presentes avaliaram a necessidade de união de setores da esquerda contra as ações do Governo Federal. A diversidade de sindicatos, movimentos sociais, partidos políticos e visões de sociedade foi uma das marcas da mobilização.

O protesto teve pouca adesão popular e se restringiu às ações de organizadores e apoiadores. As palavras de ordem espalhadas por meio do carro de som não foram capazes de atrair as pessoas que circulavam pelo centro.

Para Vanusa de Souza, do Sindicato da Alimentação, a pouca presença da população ocorre porque o impacto da proposta não é imediato: “Ela vai acontecer hoje e os trabalhadores vão começar a sentir daqui 5 anos. Então, a hora que começar a doer, não tem mais o que reclamar. Falta muita informação”, avalia.

A Reforma da Previdência

  • A primeira proposta da reforma previa 49 anos como o tempo mínimo para o recebimento integral e 25 anos para o direito parcial da aposentadoria. Foi enviada para a Câmara dos Deputados em dezembro do ano passado e aprovada por uma Comissão Especial em maio deste ano.
  • O desgaste ocorrido no governo Temer após a aprovação da Reforma Trabalhista e do congelamento dos gastos sociais, junto com as denúncias de corrupção contra a gestão fizeram com que o texto original da proposta sofresse modificações para tornar viável a aprovação.
  • O novo texto apresentado em novembro deste ano prevê, entre outras mudanças, cerca de 40 anos para o recebimento do benefício integral e mínimo de 15 anos para o recebimento parcial, mas mantém a idade mínima de contribuição como 65 anos para homens e 62 anos para mulheres.
  • Com a suavização da proposta, o governo espera aprová-la ainda em 2017 e precisa de 308 dos 513 votos dos deputados federais.

Roque afirma que, caso a reforma entre em vigor, grande parte da população do Brasil estará “condenada a trabalhar até a morte e não vai se aposentar”. Para o ex-vereador, no atual momento de demissões e rotatividade no mercado, será muito difícil o trabalhador atingir os 40 anos necessários para receber o benefício integral.

Tathiane Nunes ressaltou as consequências da reforma para as mulheres: “terão que fazer jornada quádrupla” (Foto: Bibiana Garrido / JORNAL DOIS)

Outro ponto de crítica dos organizadores do ato é a realidade das mulheres no mercado de trabalho. Para a conselheira do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP), Tatiane Nunes, a reforma tem maior impacto para as mulheres: “Nós acumulamos função de trabalhadoras dentro de casa e muitas vezes acumulamos o trabalho fora”, explica. A professora também reafirma a inviabilidade da proposta quando analisa a situação da própria categoria: “Professoras e profissionais da saúde podem ter dois cargos no Estado, então a gente tem jornada quádrupla. Somos extremamente sobrecarregadas“.

Em pronunciamento no Palácio do Itamaraty, em Brasília, na tarde de ontem, Temer classificou como “terrorismo inadequado” as críticas à reforma da previdência. Para o presidente, os efeitos da reforma são a longo prazo, em uma nova conjuntura social. Durante a noite, em outro discurso, defendeu que a reforma visa “promover a igualdade”, “combater os privilégios” e “proteger os pobres que, na verdade, pagam pelos que ganham muito no serviço público”.

As centrais sindicais e movimentos sociais veem na mobilização uma forma de impedir as medidas do governo: “Sem ser a nossa mobilização, não temos nenhuma outra arma. Eles não têm medo de votar no Natal ou de votar antes do Ano Novo”, avalia a conselheira da APEOESP.

 

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