Com 499 casos suspeitos de covid, garis reivindicam vacina em Bauru

Máscaras usadas e descartadas como recicláveis são frequentes no dia a dia de serviço; alto risco de contágio levou trabalhadores da coleta a pressionarem pela vacinação. Contagem de suspeitos é da Emdurb, que confirma 31 casos até o momento

Publicado em 1° de julho de 2021

Reunião de trabalhadores da coleta de lixo da Emdurb; foto tirada antes da pandemia (Reprodução/Sinserm)
Por Michel F. Amâncio
Edição Bibiana Garrido

Trabalhadores da coleta de lixo em Bauru estão se mobilizando para que sejam incluídos no grupo prioritário para a vacinação contra a covid-19. Em diálogo com a categoria, a prefeita Suéllen Rosim (Patriota) chegou a indicar que o grupo seria incluído na lista prioritária para a vacina e que receberia os imunizantes da Janssen, farmacêutica da Johnson & Johnson. Isso não ocorreu até a publicação desta matéria, mesmo com a chegada de 2230 doses em 28 de junho.

De acordo com pessoas ouvidas pelo Jornal Dois, a mobilização desses trabalhadores teve início há algumas semanas com um abaixo-assinado. Para eles, a categoria deve ser incluída no grupo prioritário de vacinação devido ao alto número de servidores contaminados recentemente pela doença. Outro fator seria o risco de exposição à covid-19 no trabalho de limpeza urbana.

O grupo tem dialogado com a prefeitura e buscou apoio do vereador Luiz Eduardo Borgo (PSL) na reivindicação pela vacina. Houve uma aproximação junto à Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), que gerencia a limpeza pública urbana. Em termos de ações, os trabalhadores organizaram abaixo-assinados, e tentaram contabilizar os casos positivos de covid-19 entre a categoria.

Motivações e argumentos dos trabalhadores

Conversamos com Nelson Souza, coletor de lixo e um dos diretores do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Bauru e Região (Sinserm). Ele faz parte das mobilizações e explica as razões para que ele e seus colegas de trabalho sejam vacinados com prioridade: “Nosso serviço é essencial e não pode parar, pois pode gerar outras doenças. A gente não tem contato direto com a covid que nem o pessoal da saúde, mas a gente está exposto por ter contato com lixo de inúmeras residências”.

Funcionários da coleta de lixo não pararam em nenhum momento da pandemia (Imagem: Reprodução/Emdurb)

É comum que o lixo das residências em que as pessoas foram contaminadas pela covid-19 não seja identificado e descartado corretamente, de acordo com Nelson. São resíduos que aumentam o risco de adoecimento dos coletores, que também têm que lidar com máscaras sendo descartadas no lixo reciclável:

“O meu setor é da coleta seletiva e a gente encontra muita máscara na parte do reciclável, sendo que é material orgânico. Isso mostra uma falta de conscientização da população”.

De acordo com Nelson, outro motivo para a mobilização é a “morosidade na vacinação, tanto pra população quanto pra quem está na linha frente”. Assim como no restante do país, Bauru apresenta um ritmo de vacinação insuficiente não apenas para os trabalhadores da limpeza, mas em todo o município, dado o avanço da contaminação.

Boletim semanal do Jornal Dois mostrou que até agora 15,8% dos bauruenses estão com a imunização completa, enquanto 29% se encontram parcialmente imunizados. Nesse ritmo, seriam necessários mais 154 dias para vacinar toda a população.

Surto de covid-19 e falta de equipamentos de proteção

Segundo levantamento feito por Nelson entre seus colegas de trabalho, houve contaminações por covid-19 nos três períodos de trabalho da coleta de lixo da Emdurb. Ele chama atenção para a extensão da contaminação no período noturno: “Foi confirmada uma equipe inteira da noite contaminada, quatro coletores e um motorista. No setor da oficina mecânica também são quatro contaminados. É um surto mesmo, um negócio que não para”.

Nelson diz que tentou fazer uma contagem mais precisa dos casos positivos de covid-19 entre todos os funcionários, ao que sua chefia direta na Emdurb respondeu dizendo que o levantamento deveria ser solicitado ao setor de saúde e segurança da empresa, e que esses dados só poderiam ser fornecidos após a autorização de outros servidores de hierarquias superiores. “Por isso eu não consegui ter o número exato, só os casos pontuais que eu conheço”.

O J2 questionou a Emdurb sobre o levantamento de casos de funcionários contaminados. A empresa afirmou que o “monitoramento é realizado desde o início da pandemia em março de 2020, através de um formulário próprio e registro da entrada de atestados médicos”. De acordo com a nota, “o setor de segurança e medicina do trabalho monitora todos os colaboradores, e não somente os da limpeza”.

Depois dessa solicitação, a Emdurb informou que há 499 funcionários sendo acompanhados e com suspeita de estarem contaminados pela covid-19. Em relação aos coletores de lixo, a assessoria da empresa registrou 31 casos de trabalhadores que comprovadamente se contaminaram com a doença. Os dados são referentes ao período entre o início da pandemia e a data de 30 de junho deste ano.

Em relação à disponibilidade de equipamentos de proteção individual (EPIs) para a pandemia, Nelson disse à reportagem que a Emdurb “forneceu desde o ano passado duas máscaras de pano”. Perguntada a respeito desse fornecimento, a Emdurb não confirmou a quantidade e nem qual tipo de máscara foi oferecida.

A empresa não respondeu se concorda com o argumento da categoria de que o trabalho de garis é de alto risco de contaminação pelo coronavírus. Quanto à reivindicação dos funcionários para que sejam vacinados de forma prioritária, a Emdurb afirmou que “segue o calendário nacional de vacinação”, e que “caso seja disponibilizada a vacina especificamente aos colaboradores da limpeza, os mesmos serão comunicados”.

À frente, o atual presidente da Emdurb, Luiz Carlos Valle (Imagem: Reprodução/Emdurb)

Sobre a relação dos trabalhadores com a empresa municipal, Nelson critica a “inexistência de diálogo” da antiga administração, presidida pelo coronel Elizeu Eclair até 2020, e opina que a atual gestão é mais aberta a conversas: “Com a administração do Luiz Valle [atual presidente da Emdurb] tem sido uma relação amistosa, mas nosso abaixo-assinado da vacinação acabou ficando entre a nossa chefia e diretoria, não chegou na presidência”.

O que foi feito até agora e a palavra da prefeita

A mobilização dos trabalhadores da limpeza urbana pela vacinação teve início com o abaixo-assinado. O documento, de acordo com Nelson, foi entregue à prefeita Suéllen, em ocasião na qual ela assumiu compromissos com a categoria. “Depois disso, começaram alguns rumores de que viria a vacina da Janssen, de uma dose só, e que a prefeita iria direcionar essa vacina pra nossa categoria e algumas outras”. Por conta da palavra da chefe do Executivo, Nelson avalia que os trabalhadores diminuíram a pressão pelas vacinas.

Procuramos a prefeitura para confirmar a informação de que a prefeita se comprometeu a direcionar os imunizantes recém-chegados da Janssen aos garis. Em nota, o órgão disse que “não é possível afirmar qual [vacina] será utilizada” para a imunização dos servidores responsáveis pela limpeza urbana. Também afirmou que a vacinação desses trabalhadores depende do envio de doses específicas para a categoria por parte do Ministério da Saúde e do estado.

A posição da prefeitura se baseia no Plano Nacional de Imunização (PNI), documento do Ministério da Saúde que no mês de abril incluiu trabalhadores da limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos no grupo prioritário de vacinação contra a covid-19. 

O PNI é uma orientação do governo federal para estados e municípios, que possuem autonomia nos critérios de destinação das vacinas. Isso significa que as doses de imunizantes disponíveis na rede pública desde antes da chegada das vacinas da Janssen já poderiam ter sido destinadas aos garis em Bauru, o que não aconteceu até a publicação desta reportagem.

Primeira remessa da vacina de dose única produzida pela Johnson & Johnson chegou no final de junho, dia 28 (Imagem: Guilherme Oliveira/Prefeitura de Bauru)

Além do abaixo-assinado entregue à prefeita, a categoria buscou o apoio do vereador Luiz Eduardo Borgo. Ele foi procurado pois foi diretor do setor de Limpeza Pública da Emdurb de 2017 a 2018 e realizou sua campanha política em 2020 entre os garis. Nelson afirmou que o vereador tem apoio dos coletores e dialoga sobre a vacina. A boa relação com a categoria não é de sempre, já que em 2018, enquanto era um dos diretores da Emdurb, Borgo entrou em conflito direto com os trabalhadores.

Em entrevista ao J2, o vereador disse que tem discutido sobre a vacinação dos garis desde março de 2021, quando alega ter pedido à prefeita que os trabalhadores fossem colocados no grupo prioritário. “Na época a prefeita não deu nenhum retorno sobre isso”, relatou Borgo. 

Ele indicou que recentemente teve um novo contato com alguns coletores, e juntos foram conversar com o secretário de Saúde e vice-prefeito, Orlando Costa Dias (Patriota), a respeito da vacinação para a categoria. “Eu passei a situação, de que há até a possibilidade de paralisação do serviço de coleta de lixo na cidade por conta da quantidade de trabalhadores contaminados”, contou o vereador. De acordo com Borgo, o secretário teria confirmado a destinação de vacinas para o grupo em nome do Poder Executivo Municipal.

No dia 24 de junho, quando perguntado sobre a posição da prefeitura de aguardar o Ministério da Saúde enviar doses específicas para os coletores e motoristas da coleta, Borgo confirmou que a prefeita havia sinalizado que iria vacinar a categoria com o imunizante da Janssen. “Pra mim, palavra dada e flecha lançada não tem volta. Se não for cumprido esse compromisso que ela fez com os coletores, vai ter cobrança. Mas eu confio que não vai chegar a esse ponto”.

Assim que as vacinas da Janssen chegaram a Bauru no dia 28 de junho, a reportagem procurou novamente Borgo. Sobre a chegada dos novos imunizantes, o vereador afirmou: “Acabei de conversar com o doutor Orlando, secretário da Saúde, e está confirmada a vacinação para os coletores e motoristas da Emdurb”. No mesmo dia, Borgo levou o assunto para sessão da Câmara Municipal pela primeira vez desde o início das mobilizações.

Ele afirmou que não havia levado o tema à Casa antes pois “é um assunto que cabe ao Executivo”. No histórico de intervenções do vereador no plenário, há a defesa de medicamentos ineficazes contra a covid-19, como ivermectina e hidroxicloroquina. Por esse motivo, o YouTube retirou do ar um vídeo em que Borgo utilizou a sessão da Câmara para defender o “tratamento precoce”, no dia 21 de junho.

Contexto de mobilizações de garis pela vacinação

Em vários lugares do país, a categoria dos garis se mobiliza pela vacinação contra a covid-19. A pressão dos trabalhadores em algumas capitais fez com que a reivindicação fosse atendida. Na cidade de Belo Horizonte, os garis realizaram paralisação em março deste ano. Apesar da demora, a vacinação para o grupo chegou em junho.

Em casos como o da capital paulista, os trabalhadores realizaram uma paralisação em 8 de junho como forma de reivindicação pela inclusão no grupo prioritário para receber os imunizantes. Em 24 horas de paralisação, 18 toneladas de lixo não foram coletadas na cidade de São Paulo, de acordo com o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Prestação de Serviços de Asseio e Conservação e Limpeza Urbana de São Paulo (Siemaco-SP). As reivindicações dos garis na capital do estado continuam.

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