Breque dos apps em Bauru na voz de sete entregadores

 

Paralisação mobiliza trabalhadores de aplicativos por melhores condições de serviço; nas capitais, o primeiro #BrequeDosApps encheu avenidas com motociclistas e ciclistas da categoria; segunda manifestação acontece hoje (25)

 

Publicado em 25 de julho de 2020

Trabalhadores dos aplicativos iFood, Uber Eats, Rappi e Loggi se uniram em ao menos 18 estados do país na primeira edição do breque (Fotos: Camila Araujo | Edição: Bibiana Garrido/JornalDois)
Por Bibiana Garrido e Camila Araujo

David está sentado no banco de uma praça duas ruas atrás do McDonalds enquanto espera o sinal do aplicativo para pegar mais uma entrega. Com uma máscara desenhada de caveiras e agasalhado, ele mexe no celular enquanto apoia o braço na mochila, seu instrumento de trabalho. São pouco mais de 20h de quinta-feira (23).

“Hoje eu fiz cinco entregas desde a hora que eu tô logado, deu vinte e cinco reais. Foi entrega perto, três, quatro quilômetros, cada uma deu cinco reais, cinco e pouquinho. Não passa disso”. Com trabalho registrado, ele ativa o iFood e o Rappi na parte da noite durante a semana, começando às 18h e rodando até 23h. Aos sábados e domingos, trabalha das 11h às 23h.

25 anos, morador do Jardim TV, ele concorda com as reivindicações do breque. “Quando a gente faz entrega, a gente faz por quilômetro. Pelo risco que a gente corre no dia a dia, pelo que a gente gasta na manutenção da nossa moto, é pouco. Tão fazendo isso pra melhorias”.

Os pontos da cidade que reúnem os trabalhadores na espera entre um serviço e outro são locais próximos aos restaurantes em que os pedidos são mais frequentes. Não existe exatamente um padrão: pode ser um estacionamento de farmácia, uma praça, um banco ou a própria sarjeta. Quando o aplicativo apita, é hora de sair.

Na calçada da Rua Raffaele Mercadante, perto da Av. Getúlio Vargas, Vabner, 27,  espera a próxima retirada de pedido, sentado, recuperando o fôlego. Ele faz as entregas de bicicleta e porta sua mochila de trabalho. Todos os dias, pedala do bairro Santa Edwirges até a região central e sul de Bauru. São pelo menos seis quilômetros para ir, e mais seis para voltar.  

A taxa que o aplicativo paga ao entregador é menor do que aquela cobrada dos clientes. Isso causa insatisfação no ciclista. No primeiro breque ele aderiu ao movimento e não trabalhou. Ele acredita que é preciso brecar para pressionar os aplicativos. “Essa paralisação aí é para as pessoas verem que a gente não tá de brincadeira, não tá aqui porque gosta, a gente tá porque precisa”.

O que querem os trabalhadores

O primeiro #BrequeDosApps aconteceu no dia 1° de julho e reuniu entregadores do iFood, Uber Eats, Rappi, Loggi e demais aplicativos em uma paralisação por melhores condições de trabalho. Em ao menos 18 estados brasileiros houve adesão de motociclistas e ciclistas. O segundo breque está marcado para esse sábado (25).

Entre as principais reivindicações estão o aumento do valor por quilômetro rodado e valor mínimo de entrega; seguros de vida, contra roubo e acidente; fim dos bloqueios que os entregadores sofrem quando uma corrida é recusada; fim do sistema de pontuação e fim da restrição da área de trabalho.

Na pandemia do coronavírus o risco de contágio para quem não pode parar de trabalhar é ainda maior. Os entregadores estão todos os dias na linha de frente do serviço de alimentação, em contato com superfícies e pessoas o tempo todo, e, por isso, também solicitam medidas de prevenção e equipamentos de proteção contra a doença.

Quem são eles

Homens, negros, moradores de periferia. Esse é o perfil de quem faz a ponte entre os restaurantes e consumidores, segundo estudo da Aliança Bike. De bicicleta ou de moto, metade dos entregadores têm até 22 anos.

Em entrevista ao Periferia em Movimento, a organização do #BrequeDosApps estima o número de 57 mil entregadores de aplicativo no estado de São Paulo. O Sindicato dos Mensageiros Motociclistas do Estado de São Paulo contabiliza 280 mil entregadores de moto e bicicleta no total. A Prefeitura de Bauru não tem dados sobre a categoria na cidade.

De 2018 para 2019 o número de ciclistas com bolsas térmicas circulando na Av. Brigadeiro Faria Lima em São Paulo aumentou 5,4 vezes: de 73 para 467. A contagem é da pesquisa divulgada pela Aliança Bike com bike-entregadores na capital.

Conforme o estudo, a média de gasto mensal com a manutenção de bicicletas é de R$ 67, sendo que o ganho médio no serviço de entrega é de R$ 992 por mês. Os bike-entregadores pedalam em média 60 km por dia, contando o trajeto para sair de casa e voltar.

Depois de três meses nas entregas de bike, a expectativa de Gabriel, 22, é aumentar o pagamento. “Eu tô começando a render mais agora, nos primeiros eu tirava menos, mas acho que esse mês já vou tirar 900, por aí”. Morador do Pousada, o bike-entregador pedala 7 quilômetros até chegar ao centro.

Para quem trabalha de moto, o gasto fica em torno de R$ 300 a R$450. “Vai bastante na moto”. É o que conta Lucas, 22, morador da Vila Industrial e entregador Uber na parte da noite. Durante o dia ele é funcionário de uma empresa da cidade. 

“Trabalho das 18h às 23h todo dia, geralmente ando 100 km por dia. Eu fiz uma média o mês inteiro, sem parar nenhum dia, e consegui tirar de 55 a 60 reais o dia, no total dá uns R$ 1750”. 

No interior é diferente

Giovani, 32, chega de moto na praça ao lado da Rua Albino Tâmbara e se junta aos colegas aguardando a próxima chamada. Ele veste um jaleco do iFood e sua mochila, ou “bag”, estampa a mesma marca. 

A rotina de trabalho começa às 11h da manhã e vai até as 23h, saindo do bairro da Quinta da Bela Olinda. Antes do breque, ele conta que fazia em média 25 entregas por dia, número que caiu para 15 depois do evento.

“Você tá acostumado a fazer 160, 200 reais por dia. Dali a pouco você faz 100, 80, e você estranha. Estou sempre aqui, trabalho seis dias por semana, 12 horas por dia. O que aconteceu? Porque que caiu tanto assim?”. 

Para compensar a queda, faz entregas particulares. “A gente que é motoqueiro está sempre nos estabelecimentos, acaba fazendo amizade, arrumando um serviço particular aqui, outro ali. Antigamente dava pra viver só do iFood, não precisava de serviço particular”.

Na sua opinião a paralisação não foi boa. “Pode ser que lá em São Paulo as distâncias e os lugares sejam diferentes, pode ser que para lá seja válido. Na cidade do interior, funciona diferente”. Ele discorda do movimento e levanta uma reivindicação: mais transparência no sistema de avaliação dos apps. 

Isso porque clientes e restaurantes dão notas às quais os entregadores não têm acesso. Caso recebam uma avaliação negativa, não conseguem saber o que houve. Os entregadores reunidos na praça especulam se a baixa nos pedidos é por má avaliação, por censura do próprio aplicativo ou por queda real na demanda depois do breque.

Um outro colega, que preferiu não se identificar, avalia que falta união para a paralisação. “Eles não vão parar pra ajudar o outro, tem uns que ganham mais, outros menos. Depende do dia. Se for ver, o breque no sábado é bom porque o iFood vai perder muito”.

A conversa é interrompida quando o aplicativo sinaliza que o pedido está pronto para ser retirado do restaurante. É hora da comida, mas não para Giovani. O que é horário de almoço e da janta para muita gente, significa horário de trabalho para os entregadores

Giovani está de saída quando mais um entregador se aproxima: “É melhor trabalhar por aqui ou lá pros lados da Getúlio?”, pergunta aos colegas de profissão. É o seu primeiro dia no aplicativo e os outros dois o aconselham a aproveitar a pontuação alta do começo para ficar bem ranqueado. João Pedro tem 20 anos, é barbeiro das 8h às 19h, e diz que pretende fazer um “bico” no iFood todos os dias até uma da manhã. 

Ele já havia trabalhado anteriormente para o aplicativo, e retomava a atividade naquela noite pois, com o início da pandemia, o movimento da barbearia que toca na Vila Industrial caiu pela metade. “Cortava 20 cabelos por dia, agora são uns sete. O que você faz com seis horas por dia de trabalho se antes tinha 14?”, questiona. 

Bauru permanece na fase laranja da flexibilização da quarentena, conforme anúncio do governo estadual ontem (24). A classificação permite a abertura do comércio com restrições.

Mais pedidos e ainda mais entregadores 

Houve um aumento de 75% no download dos aplicativos de entrega entre fevereiro e março. O uso vinha registrando queda no início do ano e, de acordo com uma pesquisa do RankMyApp, foi impulsionado pelo isolamento social. 

O aumento na demanda por entregas, no entanto, não compensou o aumento do número de entregadores cadastrados na plataforma para trabalhar. 

Só em Bauru mais de 5,7 mil pessoas perderam seus registros em carteira entre os meses de abril e maio – é o que divulgou o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). No Brasil foram 12,7 milhões afetados pelo fechamento de postos de trabalho no mesmo período, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Novas inscrições de entregadores nos aplicativos de comida bateram recordes: em março o iFood teve mais de 175 mil novos cadastros de motoqueiros e ciclistas. Outros 40 mil que estavam ociosos, ou seja, não usavam a plataforma há um tempo, voltaram à ativa. 

A reportagem solicitou à Prefeitura de Bauru informações sobre os trabalhadores de aplicativos: não há dados nem estimativas sobre a categoria (Foto: Camila Araujo | Edição: Bibiana Garrido/JornalDois)

Matheus, porta-voz do grupo Entregadores Antifascistas no Distrito Federal, comenta que o número de entregadores aumentou mais que o número de pedidos. “Por isso a gente tá ficando sem pedido”. 

Ele avalia que no interior dos estados as relações de trabalho são diferentes do que nas capitais, principalmente nas cidades em que os aplicativos não estão presentes. “A gente tá se espalhando pelas redes sociais, que é nosso principal instrumento de diálogo”, comenta, ressaltando que “onde tem ‘motoca’ e ciclista a ideia da paralisação tem chegado”. 

O grupo Entregadores Antifascistas tem como uma de suas figuras mais proeminentes Paulo ‘Galo’ Lima, que, ao ter o pneu de sua moto furado no meio de uma entrega, teve que cancelar o pedido. Antes de fazer isso Galo conta que havia entrado em contato com o iFood informando sobre o ocorrido, e a plataforma lhe garantiu que seu perfil não seria bloqueado. No dia seguinte não deu outra: estava impossibilitado de trabalhar. Diante da situação, tentou fazer uma denúncia na sede da Rede Globo em São Paulo. Não funcionou. Foi aí que publicou seu relato nas redes sociais, gerando comoção e identificação entre colegas de trabalho de todo o país. 

Matheus é um deles. Ele acredita que o breque dos entregadores é uma maneira de reivindicar melhorias nas condições de trabalho nas plataformas, porque “todo mundo tá sentindo na pele a exploração”, e incentiva que os entregadores conversem entre si nos locais de espera, se juntem em grupos, se organizem e “brequem geral”. 

Discriminação, solidariedade e esperança

“Muita gente não reconhece, né?”, lamenta David, logo após o iFood apitar no celular para a retirada do pedido no McDonalds. A entrega é na Vila Pinto, próxima à Av. Rodrigues Alves, dois quilômetros dali. O entregador se levanta para a corrida, e, antes de ir embora, desabafa: “Eu acho errado que muita gente discrimina o entregador”. 

Riscos de vida atrelados à profissão somam acidentes de trânsito, como já sofreu David, e a possibilidade de contágio com a covid-19. Além dos perigos na pandemia, os entregadores são vítimas de discriminação por parte de usuários de aplicativos e estabelecimentos. 

“Tem restaurante na Getúlio Vargas que impede a entrada do trabalhador mesmo em dias de chuva”. Já o McDonalds acionou um recurso junto ao iFood para impedir a aproximação de entregadores do local. Se o motorista fica esperando o pedido a menos de 100 metros do estabelecimento, é bloqueado. 

O acidente de David aconteceu no mês passado. Chovia e o asfalto molhado fez a moto derrapar perto da rotatória da Av. Duque de Caxias com a Av. Orlando Ranieri. No chão, com o pedido na tela do celular, ele foi auxiliado por outros dois entregadores que vinham logo atrás. Esse não é um fato isolado: ele já caiu fazendo entrega em uma rua de pedra e conta a história de outros trabalhadores de aplicativo que se acidentaram. 

Nem sempre o entregador consegue se levantar e voltar para as corridas. Quando o acidente é sério, fica impossibilitado de trabalhar. Foi o que ocorreu com um conhecido de David. Sem conseguir montar na moto, perdeu a renda e foi com a ação dos colegas entregadores que recebeu apoio e comida. 

A solidariedade da categoria também ficou marcada quando um bike-entregador teve sua bicicleta furtada. “Pessoal se juntou pra fazer uma vaquinha e comprar uma nova”, orgulha-se David. Há união na categoria mesmo em meio a tantos desafios. É isso que ele gostaria de compartilhar – antes de partir para mais uma entrega.

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