Bauru na UTI: por que o sistema de saúde está em colapso

Operando acima da capacidade há semanas, sistema de saúde municipal não tem espaço para tratar nem pacientes covid, nem demais comorbidades; novos leitos não são mais solução do que abrir espaço para a doença, enquanto medidas mínimas de proteção como distanciamento social e uso de máscara ficam em segundo plano

Publicado em 17 de junho de 2021

Fruto de um convênio entre a Famesp e a Prefeitura de Bauru, dez novos leitos foram instalados no hospital de campanha da cidade (Foto: Thayna Polin/Prefeitura de Bauru)
Por Camila Araujo
Edição Bibiana Garrido 

Seu Vanderlei, uma das pessoas listadas para receber cestas básicas do projeto De Grão em Grão no assentamento Vila Agrária Nova Família, não conseguiu levantar da cama para atender os voluntários, na manhã de sábado (12). O assentamento fica na região nordeste de Bauru. Na ocasião, 75 pessoas foram contempladas com doações em três bairros da cidade.

Com 54 anos de idade, seu Vanderlei estava há três dias sem comer desde que passou mal na segunda-feira (7). Segundo informações de vizinhos e de seu irmão, o atendimento na Unidade de Pronto Atendimento do Mary Dotta demorou muito. Ele não conseguiu internação depois que os exames descartaram covid-19 e qualquer outra doença. Ainda com dor, retornou à unidade de saúde na terça-feira. Não havia vaga.

Por volta das 11h daquele sábado de doações, vizinhos e voluntários do projeto chamaram o Samu, enquanto seu Vanderlei gemia de dores. Vítima recente de um AVC, recebia ajuda do irmão quando estava com dificuldades. O familiar trabalha como segurança à noite, o que reduzia seu tempo disponível para o cuidado.

A ambulância chegou sábado à tarde, por volta das 16h30, depois de dezenas de ligações. Internado, seu Vanderlei morreu na segunda-feira (14), e o resultado para covid-19 foi divulgado um dia depois.

A mãe de Samira Freitas sofreu um acidente doméstico no início do mês e foi atendida no Hospital de Base imediatamente, segundo informou a filha. Com o punho fraturado e com dores, foi enviada para casa. Precisou ir à Unidade de Pronto Atendimento na Vila Ipiranga, no dia 9. Samira ficou com a mãe durante a madrugada, das 23h às 11h, esperando que fosse atendida. “Eu nunca passei uma noite tão ruim na minha vida”, disse.

Samira conta que ao longo da noite pacientes com coronavírus foram colocados na enfermaria junto com outros não infectados. Sem vagas na UTI, uma das mulheres na fila de espera gritava, com falta de ar: “pai eterno, socorro, eu vou morrer”. Uma outra senhora, que fazia inalação, não gritava, segundo Samira, tinha os olhos arregalados de medo: passou a madrugada inteira sem coberta nem travesseiro, com chinelo no pé, sentada em uma cadeira.

O cenário era de colapso: sem formação na área de saúde, Samira relata que auxiliou o trabalho das enfermeiras. Levou paciente com o fêmur quebrado para ir ao banheiro, fechou o soro de um outro paciente e abriu o soro de um terceiro. 

Enquanto seguia ao lado da mãe, ela lembra que por volta das 10h, a senhora que ficou descoberta durante a noite, com frio, foi entubada em sua frente, e que perto das 11h, estava morta. Em seguida, uma mulher mais jovem foi entubada no leito que a falecida deixou vago.

“A culpa não é dos funcionários da UPA, mas é um erro colocar gente com covid no mesmo local com gente sem a doença”, opinou Samira. Depois de 17 dias com o punho quebrado, e quase quatro dias na fila do pronto atendimento, sua mãe conseguiu ser atendida por volta das 18h do último sábado (12).

Em nota a prefeitura divulgou que “a unidade forneceu cobertores a todos os pacientes que estavam internados”. Disse também que “a realização de qualquer procedimento nos pacientes, como aplicação de injeções, de medicamentos por via oral ou intravenosa, é feito somente por profissionais de saúde que estão na escala de plantão naquele momento” e que “uma sindicância será aberta na Corregedoria do município”.

Lotação 

Relatos como os de Samira e Vanderlei atingiram o ápice no feriado de Corpus Christi, quando as Unidades Básicas de Saúde (UBS) não funcionaram. As atividades foram paralisadas pelo feriado, de acordo com a Fundação Estatal Regional de Saúde, responsável pela contratação dos funcionários dos serviços de saúde.

“A gente está vendo as consequências de uma situação em que a transmissão da doença está absolutamente fora de qualquer controle ou intervenção”, avaliou Fernando Monti, infectologista e ex-secretário de Saúde de Bauru. Para ele, as ações tomadas para o enfrentamento à pandemia permitem que a doença ocorra de modo natural, e dessa forma, argumentou Fernando, não seria possível controlar a pandemia pelo serviço de saúde.

“O sistema vai entrar em colapso com a quantidade de casos que se atinge, e isso vale para qualquer pandemia ou epidemia”, afirmou ao Jornal Dois. Em sua gestão, entre os anos 2009 e 2016, a prefeitura lidou com a epidemia de H1N1, com a gripe suína, e com surtos de dengue. O ex-secretário sugere que aumentar o número de leitos não é uma medida eficaz. “Você coloca dez leitos a mais, e eles lotam. Daqui a pouco mais dez, e precisa de mais dez. Isso não tem fim”.

Desde o início do mandato como prefeita, Suéllen Rosim (Patriota) encabeça uma campanha por mais leitos para tratamento de covid. Segundo ela, “Bauru não pode parar”.

Em junho do ano passado, a cidade tinha 39 leitos disponíveis para tratamento da covid-19. Atualmente são 70, com lotação de 113%. Isso significa que leitos de outras especialidades estão sendo utilizados para tratar casos de covid-19. Na Diretoria Regional de Saúde (DRS-VI) a situação é parecida: eram 96 leitos disponíveis há um ano, agora são 251, dos quais 102% estão ocupados.

A primeira vez que Bauru atingiu ocupação máxima dos leitos UTI neste ano foi 20 de janeiro de 2021. Dois dias depois, em 22 de janeiro, foi a DRS-VI, que atingiu a ocupação máxima, chegando a 102%.

Com 50 leitos disponíveis, à época, a cidade chegou ao recorde de 126% de ocupação dos leitos, com 63 pessoas internadas, em 20 de março de 2021. Nesta quarta (16), com 70 leitos, a taxa de ocupação era de 113%, com 79 pessoas internadas (Dados e gráfico: Rodrigo Molina com base nos boletins epidemiológicos da Prefeitura de Bauru)
Na DRS-VI, a maior taxa de ocupação dos leitos foi em 16 de março, com 122% ocupados: de 175 leitos disponíveis, 214 pessoas estavam internadas. Nesta quarta (16), a taxa de ocupação era de 102%, com 257 pessoas internadas e 151 leitos destinados ao tratamento covid-19. (Dados e gráfico: Rodrigo Molina com base nos boletins epidemiológicos da Prefeitura de Bauru)

“O colapso não é a causa, é uma consequência de uma pandemia descontrolada”, avaliou o infectologista. Ele lembra que diante de um quadro avançado de calamidade na saúde, a quantidade de pessoas com covid-19 que vai evoluir para o óbito aumenta em proporção. Em uma situação “normal”, com o sistema de saúde funcionando, o número de óbitos gira em torno de 1,5% a 2%. Quando há colapso, explica Fernando, esse número sobe para 3% a 3,5%.

A média móvel chegou a 307 novos casos diários no domingo (13). Em relação aos óbitos, a média é de 7,43 pessoas mortas por dia.

Se comparado ao primeiro ano da pandemia, a maior média móvel de óbitos foi em 16 de agosto, com 3,43 mortes por dia. Em 2021, Bauru atingiu média móvel de 8,57 óbitos diários em 12 de abril.

No início do mês, a cidade registrou a morte de 100 pessoas com covid-19 que aguardavam na fila de espera por leitos de UTI.

Lockdown

O isolamento e distanciamento social continuam sendo medidas recomendadas por especialistas da área da Saúde para conter o avanço da pandemia. Em um cenário com 15,6% da população bauruense vacinada com as duas doses, e considerando que, no ritmo atual, levariam 170 dias para que todos os habitantes fossem imunizados, o lockdown, o uso de máscara e a higiene das mãos seguem como práticas que podem diminuir o contágio e as mortes.  

Em uma audiência pública realizada pela Câmara Municipal em 14 de abril para discutir lockdown. O vice Orlando Costa (Patriota) afirmou que não havia casos de covid-19 nas Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e que “graças a Deus os leitos no Posto Avançado Covid-19 (PAC) têm dado conta”. 

Bauru freou a orientação para o lockdown em 18 de abril, quando houve a reabertura do comércio e de atividades consideradas não essenciais pelo Plano São Paulo. Em 2020, a cidade chegou a ter 55% de isolamento, quando o recomendado era de 60% a 70%. Os últimos boletins do Sistema de Monitoramento Inteligente (SIMI) mostram um índice de isolamento na casa dos 37% – número referente à segunda-feira (14). 

Nesta quarta-feira (16), a prefeitura anunciou “medidas mais rígidas” para o combate à pandemia: redução de 40% para 30% da ocupação de estabelecimentos comerciais, proibição da venda de bebidas alcoólicas em qualquer horário aos finais de semana, e das 19h às 6h durante a semana, proibição do consumo de bebidas alcoólicas em vias públicas e multas mais altas são algumas das novas regras, publicadas em uma edição extra do Diário Oficial, que entram em vigência entre 18 e 30 de junho.

Critérios

Em relação à testagem da população, a prefeitura informa que todas as pessoas que chegarem às UPAs e UBS de referência no atendimento à doença, Mary Dota, Geisel e Falcão, com sintomas de coronavírus há pelo menos quatro dias serão testadas.

Imagem mostra testagem rápida conduzida pela prefeitura com feirantes e produtores rurais a partir da coleta de sangue (Foto: Thayna Polin/Prefeitura de Bauru)

O infectologista aponta que “não adianta nada, absolutamente nada” apenas colher o teste e entregar o resultado para a pessoa testada. Fernando avalia que seria preciso um acompanhamento, buscando isolar pessoas que tiveram contato, e garantindo o isolamento.

Por conta da superlotação das UPAs e dos relatos de violência que têm ocorrido dentro das unidades de saúde, a Secretaria de Saúde passou a cogitar a possibilidade de colocar a Polícia Militar da atividade delegada, convênio firmado entre a prefeitura e a PM em 2018, para fazer a segurança nos locais.

Para Melissa Lamônica, servidora municipal e diretora do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Bauru e Região (Sinserm), se trata de uma má idéia: “não confio na polícia para fazer segurança”. Para ela, o correto seria contratar vigias de segurança, que façam a segurança do paciente e do servidor, uma vez que a vigia patrimonial, serviço que existe hoje para a infraestrutura das unidades de saúde, não intervém em eventuais casos de violência.

Terceirização

A servidora avalia que o setor da saúde municipal vem sendo precarizado já há algum tempo. Ela aponta que a falta de funcionários da categoria é um problema grave. Os profissionais da área são contratados hoje por meio do convênio com a Fundação Estatal Regional de Saúde da Região de Bauru (Fersb).

A fundação é responsável pela gestão do serviço de plantões médicos nas UPAs do Bela Vista, Ipiranga, Geisel, Mary Dota, no PAC e em algumas unidades sentinela que funcionam nas UBS.

De acordo com Cláudia Prado, diretora-geral da Fersb, em oitiva da Comissão Especial de Inquérito da COVID-19 da Câmara Municipal, na última terça-feira (15) as escalas de médicos plantonistas são enviadas semanalmente para a prefeitura, e são atualizadas diariamente, de modo que o Executivo, segundo ela, tem ciência das lacunas na escala com 24 horas de antecedência.

Questionado pelo J2, o atual secretário de Saúde Orlando Costa, disse que a vantagem do convênio com a Fersb está relacionada na maior agilidade dos processos administrativos.

Na oitiva, Cláudia destacou que existem dificuldades enfrentadas pela fundação em manter plantonistas.

Com o acordo entre prefeitura e Fersb, é responsabilidade das secretarias municipais definir o número de profissionais que atuarão nas UPAs, independentemente do porte da unidade, desde que respeitado o número de um médico por turno.

Os médicos são contratados como prestadores de serviço, via MEI, um formato de contratação de serviços de microempreendedores individuais. Em nota ao J2, a prefeitura informou que a vantagem desse formato torna “mais rápida a reposição” de trabalhadores.

Outros profissionais, como enfermeiros, técnicos de enfermagem, técnicos de farmácia e fisioterapeutas, são contratados como temporários, por processos seletivos simplificados com base na CLT.

A lei 173/2020, do início da pandemia, impede a contratação de pessoal e realização de concurso público, exceto para reposições de vacância, ou seja, quando um cargo está desocupado. “Em Bauru, o que mais se tem é vacância”, apontou Melissa.

A sindicalista argumenta que a Prefeitura de Bauru “está perdendo muito por não abrir diálogo com o governo do Estado de São Paulo” – cenário fruto do alinhamento ideológico de Suéllen Rosim com o governo de Jair Bolsonaro. “A prefeita vai para Brasília, gasta dinheiro público, e não consegue verbas especiais para as UPAs”, criticou.

Igrejas

A Igreja Rasgando os Céus, cujo pastor Marcos Saraiva foi recém empossado diretor do Departamento de Água e Esgoto (DAE), está prestando serviço voluntário de manutenção da UPA do Ipiranga, fruto de uma parceria com o vice-prefeito Orlando Costa.

Imagem publicada em 31 de maio e posteriormente retirada das redes sociais (Foto: Reprodução)

Outras igrejas cotadas para serviço voluntário em UPAs na cidade são a Igreja Evangélica Assembleia de Deus Ministério de Madureira e a Igreja Comunidade Evangélica Restaurar.

As instituições religiosas ficarão responsáveis por realizar pinturas, revitalizar e fazer reparos.

“A igreja coloca o pix para a população colaborar com a manutenção dos espaços e retira o sentimento da população de que ela já paga pelo serviço”, relatou Melissa.

A sindicalista opina que essa seja uma porta para “evangelização em massa”.

O J2 solicitou um posicionamento para a Secretaria de Saúde sobre o assunto. Quando e se assim o fizer, atualizaremos a matéria com o pronunciamento da pasta. 

Antivacina

Na reunião do Conselho Municipal de Saúde (CMS), em 17 de maio, conselheiros se manifestaram sobre um movimento antivacina que “está ocorrendo na cidade”, segundo relatou a conselheira Graziela Marafiotti. Ezequiel Ramos, diretor da Divisão Epidemiológica de Bauru, disse que existem pessoas tentando diminuir a importância da vacina com “acusações sem fundamento”.

Em reunião do Conselho Municipal de Saúde, conselheiros reclamam de "movimento antivacina" (Foto: Guilherme Oliveira/Prefeitura de Bauru)

Segundo consta na ata da reunião, Ezequiel diz que diretores e chefias da área da saúde pública na cidade “estão sofrendo [por conta] de alguns vereadores”, que estariam entrando em contato na Secretaria Municipal de Saúde para dizer que os profissionais seriam chamados à Câmara, e que uma Comissão Especial de Inquérito seria instaurada caso determinadas informações solicitadas não fossem dadas.

Orlando Costa (Patriota), vice-prefeito e secretário de Saúde, pediu para que os conselheiros não ficassem “mencionando vereadores”.

Graziela reclamou na reunião de um radialista do município que havia colocado em dúvida a eficácia da vacina naquela semana.

Funcionamento

Com as novas medidas anunciadas pela prefeitura, comércios em geral poderão funcionar das 6h às 21h com 30% da capacidade máxima. Bares, lanchonetes, restaurantes e demais estabelecimentos de alimentação, poderão funcionar das 6h às 19h, também com 30% da capacidade.

Esportes coletivos ficam proibidos, inclusive jogos e torneios, em espaços públicos e privados, exceto para equipes profissionais. Igrejas e templos religiosos podem funcionar com 30% da ocupação máxima.

As infrações gravíssimas passarão a ter multa de R$ 6.678,86, para quem descumprir o novo decreto, propiciar aglomeração ou “não tomar medidas para assegurar o distanciamento social”, segundo a nota.

Serviço 

Pessoas com quadros graves suspeitos ou confirmados de covid-19 podem se dirigir ao Pronto Socorro Central (PSC) e à UPA Geisel/Redentor, que atendem 24 horas. 

Para atendimentos de casos leves ou moderados, suspeitos ou confirmados de covid-19, a população deve se dirigir às UBS do Geisel, todos os dias das 7h até 00h, da Vila Falcão, de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h, ou do Mary Dota, de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. 

Já as UPAs do Bela Vista e do Ipiranga não atendem casos de covid-19.

UPA do Geisel/Redentor passou a ser unidade exclusiva de Covid-19 e pediatria a partir desta quarta-feira (16) (Foto: Priscila Medeiros/Prefeitura de Bauru)

A equipe do Jornal Dois se solidariza e manifesta sentimentos de pesar pela morte de Seu Vanderlei. Desejamos força a familiares e amigos, que colaboraram conosco nesta reportagem.

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