Os relatos sobre a Arca da Fé em Bauru. E o que a ONG tem a dizer

Centenas de pessoas compartilharam suas experiências ao solicitar resgate animal e questionam: como funciona a Arca da Fé? Entenda a organização que envolve jovens em recuperação das drogas, trabalho voluntário e cursos preparatórios

Os "valentes" da Arca da Fé podem ser encontrados em sua missão de voluntariado nos semáforos e espaços públicos de Bauru e região, coletando doações para a ONG de resgate animal (Colagem: Lucas Zanetti/Jornal Dois | Foto de voluntário: Acervo Arca da Fé)
Por Bibiana Garrido

Carolina viu Whisk ser atropelado na frente de casa e logo tratou de colocar o cachorro de rua para dentro. Enquanto buscava ajuda para cuidar do animal, ela ainda não sabia que essa história iria acabar em adoção. Fez contato com clínicas particulares, procurou veterinários, e descobriu que não tinha como pagar a consulta. “O tratamento ia sair caro porque ele teria que ser internado e tudo mais. Foi aí que eu liguei na Arca da Fé”, conta a técnica em enfermagem. “Eles me falaram que primeiro tinha que fazer um post na página deles. Passou uma semana e nada, liguei de novo, liguei de novo. Até hoje não foi aceito o post”. 

Situações como a da Carolina viraram assunto na cidade de Bauru. O grupo Aonde Não Ir em Bauru recebeu postagens e centenas de comentários contando experiências parecidas das pessoas ao solicitarem socorro animal à Organização Não Governamental Arca da Fé. Dois pontos são os que mais se repetem nos relatos: falta atendimento em resgates e há cobrança por serviços. 

Sobre o post 

Postar o pedido de resgate faz parte de uma nova medida da ONG para lidar com a demanda de ocorrências, explica Vanessa Araújo, presidente fundadora da Arca da Fé. Se a organização diz que não pode atender no momento, a pessoa que encontra ou que está com o animal doente/machucado deve publicar as informações no grupo do Facebook. Mais de 70 mil pessoas participam dessa comunidade e o intuito dos posts, segundo a presidente, é encontrar mais gente que possa ajudar e apadrinhar o tratamento de algum bichinho.

“Funciona assim: tem um caso de emergência? O animal foi atropelado? A ONG vai. Depois que a gente posta no face, o pessoal que puder ajuda. Agora, o animal tem dono e está doente? O dono é responsável. A gente não tem condição de assumir responsabilidade por animal que tem dono”, diz a presidente da Arca da Fé. “O que a gente faz nesses casos é indicar veterinário que cobra o preço de consulta social”.

Para Whisk, o resgate não chegou depois do atropelamento e a postagem não deu resultado. Carolina Vasco, que o encontrou já machucado, acabou adotando o animal e seguiu fazendo curativos nas feridas, com o auxílio do conhecimento da profissão na área médica. 45 dias depois do acidente e sem sucesso na busca de padrinhos para a causa, ela apelou para um conhecido que tinha um amigo em uma clínica veterinária particular. Ela conta que, na época, conseguiram juntar dinheiro com demais ONGs da cidade para pagar o tratamento – que ficou em R$ 4,2 mil.

A presidente avalia que as contribuições e doações para a Arca da Fé caíram desde que a ONG virou assunto na cidade e que um veículo de comunicação local fez uma reportagem sobre isso: “Perdemos doações por conta da matéria”. O setor jurídico da organização foi acionado porque consideraram que o título escolhido para o texto não estava de acordo com a verdade, e feria a imagem do trabalho realizado. A publicação foi excluída.

200 reais o resgate

“A gente colocou esse valor que é simbólico, porque não é nem ⅓ do que a gente tem de despesa”, desabafa Vanessa. Ela relata que a decisão de começar a cobrar pelo resgate animal foi tomada em assembleia na organização para ajudar a custear os gastos dos tratamentos e da manutenção das atividades. 

Vanessa tem 31 anos e é formada em Direito, compõe o Conselho do Município e faz parte da Comissão de Defesa e Proteção Animal da OAB/Bauru. Sentada em carteira do tipo escolar, dentro de uma das salas do escritório da ONG, a presidente ora exibe álbuns de fotos, ora corre o dedo pelo celular nas redes sociais da Arca da Fé. Ao seu lado, está Pedro Marcelino, de 24 anos. Ingressou no projeto ainda em seu início, em 2016, e hoje é tesoureiro da diretoria. Os olhos de Pedro acompanham cada frase e palavra anotada durante a entrevista – de ponta cabeça, já que estávamos frente a frente.

Sem veterinários voluntários, a organização conta com profissionais da área que são parceiros e cobram o valor de uma consulta social para atender os animais resgatados. Para administração de vacinas há uma veterinária responsável técnica, que, de acordo com Vanessa, é a única pessoa remunerada mensalmente no projeto.

Voluntários da ONG, Vanessa e Pedro vestem o uniforme padrão do projeto (Foto: Bibiana Garrido/Jornal Dois)

Todos os animais passam por consulta assim que são recolhidos. Depois do tratamento, são colocados para adoção já vermifugados e vacinados e, se tiverem mais de quatro meses, também são entregues castrados. A regra faz parte das normas sanitárias municipais para a realização de feiras de adoção em locais públicos.

“O foco principal é a adoção”, afirma a fundadora. “É a gente conseguir um lar para esses animais. A ideia é que nosso abrigo não seja um depósito, mas somente um lugar de passagem”. Cada bichinho adotado vai para a nova casa junto com um termo de responsabilidade e uma ficha com informações de saúde.

Os valentes vestem

A ONG ficou conhecida em Bauru e arredores por seus voluntários marcarem presença nos semáforos e espaços públicos centrais. Jovens homens e mulheres, vestindo suas camisetas vermelhas e seus chapéus de palha, pedem doações para salvar os animais abandonados. Em branco, no peito, as palavras “OS VALENTES VESTEM…” se tornaram marca da organização. Nas costas, o uniforme completa a frase: “…A CAMISA DA ONG”. 

“Questionei sobre os jovens que ficavam no sinal arrecadando dinheiro”, lembra Daniela Zanon, quando solicitou o resgate de três cachorros com sarna que encontrou em um ponto de ônibus. Ao ligar para a Arca a Fé, a contadora foi informada sobre o custo de R$200 para o resgate. “Falaram que se eu quisesse visitar a ONG, marcariam um dia e horário. Fui às redes sociais pois não me conformei com tal descaso, o intuito era simplesmente ajudar os animais”. 

Com uma vaquinha online ela e o marido conseguiram juntar R$600 e escolheram uma consulta particular para ter o comprovante de pagamento. “Pedimos a nota fiscal para informar quem ajudou que realmente usamos esse dinheiro para tal ato”, justifica Daniela. Sobre a Arca da Fé, ela sugere: “Bauru quer saber para onde vai esse dinheiro do semáforo que tanto pedem. Não estamos questionando se fazem algo ou não, mas se fossem transparentes a população não teria tanta desconfiança e não os julgaria tão mal”.

A transparência

São necessários R$ 40 mil por mês para manter a Arca da Fé funcionando. É o que estimam Vanessa e Pedro, membros da diretoria, com base nas despesas da operação: transporte, alimentação e comida – tanto para os animais, quanto para as pessoas voluntárias envolvidas -, estrutura, vacinas, consultas, cirurgias, tratamentos, contas, consertos, investimentos e melhorias. “Tem semana que a gente resgata 20 animais”, revela a presidente. “Estamos de plantão o tempo todo, é tudo fotografado e filmado o cuidado que a gente tem. Porque se for para pegar um animal e não dar qualidade de vida, a gente não pega”. 

Os custos com transporte somam os trajetos entre o escritório da ONG na cidade e o abrigo, que fica na zona rural, a caminho de Tibiriçá. Segundo a organização, o endereço do local não é divulgado publicamente por questão de segurança: para proteger os animais – há casos furtos, comuns no caso de cavalos resgatados, por exemplo -, e para evitar que pessoas “depositem” seus bichinhos lá na frente sem informações. É possível visitar o local mediante contato prévio e hora marcada. 

Isso tudo gera despesas com manutenção e gasolina. A Arca da Fé possui três veículos registrados associados ao seu nome no Diário Oficial: uma Kombi, um ônibus e um Fiat Uno 2011. Na consulta ao DETRAN, o Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo, é possível encontrar uma multa em haver para o Uno no valor de R$134,15. 

Entre gatos, cachorros, cavalos, cabras, vacas, bezerros e aves, cerca de 700 animais vivem nos dois alqueires de terra do abrigo – área correspondente a sete campos de futebol. Vanessa cita que a terra foi conseguida por meio de doação, e que está no nome da ONG Arca da Fé. O registro da gleba consta no cadastro de imóveis rurais do INCRA, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

Questionada sobre quanto arrecadam em doações por mês, Vanessa responde que não é a arrecadação em si que mantém o projeto. “O que ajuda mais a gente hoje são esses meninos que tiveram a vida mudada [os voluntários], e aí eles apadrinham muitas coisas que a gente precisa”, diz. Ela dá o exemplo de um voluntário da ONG que comprou telhas novas quando precisaram de ajuda para construir novas alas no abrigo.   

Para Keity Abreu, presidente da Comissão de Responsabilidade Social no Terceiro Setor da OAB/Bauru, vale lembrar que ONGs cobrarem por seus serviços não é algo que está fora da lei. “A expressão ‘sem fins lucrativos’ não significa que a entidade não possa comercializar bens e serviços, obtendo com tais atividades receita, ou até mesmo lucro. O que a legislação impede a essas organizações é que jamais poderá haver a distribuição de lucro”, detalha a advogada. “Muitas vezes necessitam contratar funcionários e eles devem ser remunerados, e para essas e outras despesas servirão as receitas dessas organizações”.

A Arca da Fé é constituída juridicamente como uma associação privada, tem CNPJ e está registrada como empresa ativa no Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo. Segundo Keity, as ONGs são obrigadas a colocar em seus estatutos com quais recursos serão mantidas. “Nesse estatuto são especificadas minuciosamente as receitas permitidas às organizações, e onde as mesmas serão aplicadas”.

Provérbios 12:10

O escritório da ONG Arca da Fé em Bauru fica numa rua paralela à Avenida Nações Unidas, perto do Terminal Rodoviário. É lá que, no período noturno, também funcionam os cursos do professor Daniel Barreira, o “mestre dos concursos” na área da segurança pública é também idealizador e fundador da organização em defesa dos animais junto com Vanessa. 

Virando a esquina, ao lado do prédio em que essas duas coisas acontecem está o Templo da Fé Sobrenatural do Deus Vivo.

É no nome desse Templo da Fé Sobrenatural do Deus Vivo que está registrada, segundo o INCRA, a terra vizinha ao abrigo dos animais da Arca da Fé – que fica na zona rural da cidade. Com CNPJ cadastrado, o Templo tem como presidente Daniel Barreira.

Ambos os terrenos, do abrigo da ONG e do Templo, têm dois alqueires. E se um é destinado a cuidar dos animais, o outro dá casa e comida aos “valentes”.

Vanessa explica que a Arca da Fé mantém um projeto paralelo de apoio e recuperação de jovens envolvidos com drogas, o Projeto Sou Eu. E é no terreno do Templo que esse projeto acontece. A maioria dos voluntários, que são 30 na contagem da presidente, mora lá. “Esses voluntários são internos. Durante o dia fazem atividades da ONG, e à noite tem os voluntários que estudam, porque eles ganham curso preparatório aqui mesmo [nos cursos do Daniel Barreira]”, afirma ela. 

“A pessoa chega como usuária de droga, aí ela passa por esse processo de reabilitação lá no abrigo. Quando ela tá preparada, ela já começa a vir pra cidade, porque até então ela não pode ter esse contato”, diz Vanessa sobre como funciona o acompanhamento no Sou Eu. “Ela não tá preparada pra ter um emprego, ela não tá preparada nem psicologicamente, nem fisicamente, porque tendo contato com essas outras pessoas, vai voltar rapidamente a usar droga. Quando eles estão preparados, começam a estudar… até mesmo porque se receberem um salário ainda sendo usuários, vão consumir tudo em droga. A gente faz esse trabalho de preparo pra essas pessoas voltarem ao meio social e conquistarem o que é o desejo delas”. 

Diversos voluntários da Arca da Fé são formados como policiais militares depois de frequentarem os cursos de Daniel Barreira. Alguns residem na capital São Paulo, outros em Bauru e cidades da região. Vanessa mostra o álbum com fotos de homens e mulheres fardadas. Pedro, voluntário da ONG ali presente, é um deles. 

O Projeto Sou Eu pode servir como um exemplo de comunidade terapêutica, que se coloca na configuração de trabalho social com usuários de drogas.

Em junho de 2019, o presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) sancionou uma lei que prevê possibilidades de acolhimento do usuário e dependente de drogas nessas comunidades por adesão voluntária e mediante a realização de exames médicos. No mês de abril, ele já havia mudado por decreto a Política Nacional sobre Drogas – retirando do texto as medidas de redução de danos e valorizando práticas que pregam abstinência, o que tornou possível uma maior transferência de recursos às comunidades terapêuticas.

Pela lei, esses ambientes devem ser residenciais com desenvolvimento de vínculos, atividades educativas e vocacionais, sendo proibido o isolamento físico. No Brasil existem cerca de 1,8 mil instituições do tipo em funcionamento no país, segundo a Agência Câmara, muitas delas relacionadas a grupos e movimentos religiosos. 

Mateus 5:11-12

A formalização da Arca da Fé, como consta no registro do CNPJ da ONG, data de 18 de fevereiro de 2016. Oito dias antes, está marcado o começo da história do Templo da Fé Sobrenatural do Deus Vivo: 10 de fevereiro de 2016. 

No mês de abril daquele mesmo ano, Daniel Barreira e demais membros voluntários foram parar na delegacia porque o idealizador da Arca da Fé havia parado o carro em local irregular para resgatar um animal. É o que conta Vanessa e o que diz essa reportagem – no texto do link, o nome “Arca de Noé” foi grafado erroneamente e confirmamos com os responsáveis que se trata de uma referência à “Arca da Fé”.

“Era ano de eleição e a gente sofreu muita perseguição em Bauru”, comenta a presidente da ONG. “Tudo que a gente fazia nessa época gerava problema, e aí já viralizava na rede social. A gente foi pra exposição e foi expulso [do evento no Recinto Mello Moraes]. Colocaram foto que os animais tavam com maus tratos, mas eles tavam dormindo. Depois falaram que a gente dava sonífero durante as feiras de adoção”, lista Vanessa. 

O histórico envolvendo acusações de maus tratos levou a Arca da Fé à Polícia Militar Ambiental, que gerou um boletim de ocorrência sobre a ONG. A reportagem do Jornal Dois entrou em contato com o órgão e a assessoria informou o processo está sob sigilo. Só quem poderia comentar o caso, segundo a Polícia Militar Ambiental, é quem esteve envolvido. 

A presidente da ONG comenta: “Nunca foi provado nada”. Em diversas as ocasiões naquele ano, relata, a diretoria apresentou documentação e certificados para comprovar a regularidade da Arca da Fé. 

Os versículos bíblicos citados nesta reportagem, Provérbios 12:10 e Mateus 5:11-12, são lemas que a Arca da Fé carrega como suas verdades, disseram Vanessa e Pedro em entrevista, e estão estampados nos veículos da organização. A seguir, a transcrição da Bíblia na Nova Versão Internacional (NVI), que é a adotada pela ONG:



Provérbios 12:10
“O justo cuida bem dos seus rebanhos, mas até os atos mais bondosos dos ímpios são cruéis”.





Mateus 5:11-12
“Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês.
Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês”.






















A NVI está em português contextualizado, considerado mais simples de ler e entender. Foi traduzida em 1978 pela Sociedade Bíblica Internacional e, segundo esse site, lhe faltam alguns trechos do Novo Testamento por conta do texto original utilizado. 

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