O preço da fome: como o alto custo dos alimentos no Brasil impacta Bauru

Com a redução do auxílio emergencial e permanência da pandemia, alta nos preços de itens básicos faz vulnerabilidade social ganhar espaço

Publicado em 28 de maio de 2021

Itens da cesta básica a preços cada vez maiores nos supermercados; insegurança alimentar é consequência (Foto: Michel F. Amâncio/Jornal Dois)
Por Michel F. Amâncio
Edição Bibiana Garrido e Camila Araujo

O preço do arroz e do feijão aumentou em mais de 60% desde o início da pandemia, em março de 2020, até março de 2021. O dado é da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que pesquisou a elevação no preço de itens da cesta básica brasileira para explicar por que o dinheiro de hoje não compra mais a mesma quantidade de alimentos que comprava antes.

A carne e o óleo também tiveram aumento. O cenário, segundo a pesquisa, impacta na economia de toda a população, em comércios e restaurantes locais.

Em conversa com o Jornal Dois, João Victor de Oliveira, proprietário de um restaurante no Jardim Redentor, afirmou que, embora as vendas de marmitas não tenham caído durante a pandemia, o “grande problema está sendo a alta do preço dos alimentos”.

O comerciante disse que o preço da marmita no seu estabelecimento teve um aumento de pouco mais de 10% em outubro de 2020. “Tem alimento que subiu mais de 100%”, lembra João Victor.

“Em um fardo de arroz de 30kg eu pagava antes R$ 63. Agora eu tô pagando R$ 128”. O mesmo aconteceu com o óleo: “Antes da pandemia, custava R$ 2,80. Quando era R$ 3 eu achava caro. Mas sabe quanto tá hoje no mercado? R$ 7,20 ou R$ 7 quando tá em promoção”, declarou, criticando os preços inflacionados.

Fome no Brasil e em Bauru

David Deccache, economista e professor na Universidade de Brasília (UnB), avaliou que “mesmo antes da pandemia, já vivíamos uma crise profunda no mercado de trabalho, com desemprego e informalidade próximos ao recorde histórico”. Hoje, há oficialmente em todo o Brasil 14,4 milhões de desempregados e 40 milhões de trabalhadores na informalidade, situação que reflete nos indicadores socioeconômicos da cidade de Bauru. 

No município, como mostra a série “Alimento: a nutrição vulnerável em Bauru”, a pandemia intensificou o problema da fome. A média de cestas básicas solicitadas ao poder público durante o ano de 2020 foi de 1000 a cada mês. De acordo com a Secretaria de Bem-Estar Social (Sebes), são mais de 70 mil pessoas em Bauru em situação de vulnerabilidade, das quais 57.011 possuem como fonte de renda apenas meio salário mínimo.

Conforme estudo da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) divulgado em reportagem do Jornal Dois, 116,8 milhões de pessoas se encontram em situação de insegurança alimentar ou fome no país. Isso significa que 55% da população brasileira não tem se alimentado de forma adequada. Segundo o economista, o quadro poderia ser ainda mais grave, não fosse o auxílio emergencial em 2020.

“Se a situação econômica do Brasil foi muito ruim em 2020, sem o auxílio emergencial teríamos um cenário pior, de tragédia generalizada. Do ponto de vista social, o auxílio impediu que milhões de pessoas passassem fome e entrassem em situação de extrema pobreza”. 

Por serem problemas a nível nacional que contribuem para o crescimento da fome, Deccache defende que o alto custo dos alimentos e o desemprego devem ser combatidos com medidas estruturais: “A solução passa pela retomada da política de valorização do salário mínimo, controle cambial mais rígido e mudança nas políticas de preços administrados, como dos combustíveis, buscando amenizar pressões de preços na cesta básica”.

Estudos comprovam alto custo dos alimentos

O Banco Central define um cenário de inflação quando há alta nos preços de bens e serviços e diminuição do poder de compra da população. Em uma pesquisa divulgada no dia 11 de maio, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constatou a alta no preço dos itens alimentícios a partir do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do país.

Nos últimos 12 meses, a inflação acumulada ficou em 6,76%, valor acima da meta estipulada pelo Banco Central de 5,25%. Esse quadro está diretamente relacionado com a alta dos preços de itens básicos, uma vez que o óleo de soja e o arroz, por exemplo, são dois alimentos que acumularam as maiores taxas inflacionárias nos últimos 12 meses, segundo levantamento do IBGE.

Preços nos supermercados de Bauru evidenciam alta do arroz; pacotes de cinco quilos do item chegam a bater a marca de R$ 29,99 (Foto: Michel F. Amâncio/Jornal Dois)

Os preços das carnes bovina, suína e de frango devem se manter elevados em todo o 1º semestre de 2021, avaliou o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em estudo publicado no dia 29 de abril. O elevado custo da proteína animal já é realidade no restaurante de João Victor, por exemplo. Ele afirma que a carne é o item de maior custo do estabelecimento e, de longe, a maior despesa.

A alta dos itens alimentícios consta nos últimos levantamentos mensais do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Segundo a organização, o preço médio da cesta básica subiu em 15 das 17 capitais brasileiras que foram alvo do monitoramento entre março e abril de 2021.

Já ao considerar os últimos 12 meses, o Dieese apontou que houve aumento do preço da cesta básica em todas as capitais analisadas. São Paulo, uma das cidades monitoradas, é a capital com a segunda cesta básica mais cara do país, atrás somente de Florianópolis, capital de Santa Catarina. Na capital paulista, o conjunto de itens básicos atualmente custa R$ 632,61, o equivalente a 62,17% do salário mínimo nacional.

A partir dos preços das cestas básicas nas capitais, o Dieese calcula qual deveria ser o salário mínimo necessário para a subsistência de uma família de quatro pessoas: R$ 5.330,69. Valor quase cinco vezes maior que o atual piso nacional de R$ 1.100,00.

Fatores para o aumento dos preços

Um dos fatores que explica o custo elevado dos alimentos é a alta do dólar frente ao real e a consequente desvalorização da moeda nacional. Durante quase todo o período da pandemia até agora, o dólar esteve cotado acima dos R$ 5, batendo recordes históricos ao longo de 2020. A consequência da alta da moeda estadunidense é que a exportação de produtos primários, tais como os alimentos e insumos, passa a ser mais lucrativa para os produtores rurais brasileiros o que por outro lado prejudica o abastecimento do mercado consumidor interno.

Essa explicação é utilizada pelo próprio Dieese para justificar a variação de preços de alguns produtos da cesta básica brasileira. Ao tratar do preço da carne e do açúcar, a organização destaca o grande volume de exportação desses produtos nacionais, enquanto a oferta interna é reduzida. O mesmo vale para o óleo de soja: “Grande parte do óleo de soja produzido foi exportada, por causa da alta demanda externa e dos bons preços pagos no exterior”, informou o Dieese em relatório.

David Deccache também vê o impacto da alta do dólar frente ao real no preço dos alimentos, e acrescenta fatores políticos para explicar a atual conjuntura. O economista explicou que a pandemia de covid-19 fez com que muitos trabalhadores tivessem sua fonte de renda reduzida ou zerada, sem qualquer garantia de proteção social.

“No meio desse caos na saúde, houve um choque cambial, potencializado pelas incertezas geradas pela falta de planejamento do governo, que refletiu em aumento do preço dos alimentos, encarecendo o custo de vida em um momento de queda acelerada da renda”, argumentou.

Auxílio emergencial e poder de compra

Diante da pandemia de covid-19 e do alto custo de alimentos, o poder de compra de quase 68 milhões de brasileiros dependeu, em 2020, de políticas públicas como o auxílio emergencial. Em Bauru, 81 mil pessoas receberam o benefício no último ano, o que equivale a 21,5% da população da cidade.

O programa, criado para que as pessoas se mantivessem em isolamento social e longe do risco de contaminação, foi encerrado em dezembro de 2020, mas voltou a ser discutido pelo Governo Federal e Congresso Nacional em 2021. Em março deste ano, foi aprovada nova rodada do auxílio, com mudanças em relação ao ano anterior.

Entre as alterações, destacam-se as novas regras para conseguir o benefício, mesmo para quem recebeu em 2020. Com isso, há a estimativa de que 1 em cada 4 contemplados em 2020 não o sejam em 2021, por não se enquadrarem nos novos critérios do programa. Isso significa que, em Bauru, 20 mil pessoas devem ficar sem auxílio emergencial em 2021.

Outras mudanças também ocorreram em relação à abrangência do programa, já que a atual regra não permite o atendimento de pessoas que não acessaram o benefício em 2020. Quanto ao valor pago, o mínimo do auxílio em 2020 era de R$ 600, enquanto o máximo chegava a R$ 1.200 mensais para mulheres chefes de família. Já em 2021, o piso do auxílio ficou em R$ 150, ao passo que o teto foi reduzido para R$ 375 por mês.

Na opinião de David Deccache, a redução no valor do auxílio emergencial deve trazer consequências sociais e econômicas graves para o país. Afirmou que “todo esse cenário de tragédia para a classe trabalhadora ainda está ocorrendo em um momento de alta nos preços dos alimentos”.

“Teremos o pior dos mundos” com a diminuição do auxílio, segundo Deccache. “Desaceleração econômica, incapacidade do mercado em absorver os trabalhadores que estarão voltando a procurar empregos e, portanto, todas as consequências sociais: miséria, volta da fome, desemprego, precarização acentuada no mundo do trabalho, aumento nos índices de criminalidade e destruição dos pequenos e médios empreendimentos”, alertou o economista.

Iniciativas populares contra a fome

Na ausência de medidas estruturais como as propostas por Deccache, a sociedade civil encontra formas de atenuar o impacto da pandemia e do alto custo dos alimentos no crescimento da fome. Em Bauru, há diversas ações de solidariedade com essa finalidade. Uma delas é o projeto De Grão em Grão, parceiro do Jornal Dois que já atuava antes da pandemia. Maria Cecília Campos, uma das voluntárias que atuam no projeto, explica a proposta:

“A formalização do grupo se tornou necessária com o aumento significativo do desemprego, da insuficiência das políticas públicas no atendimento das necessidades de sobrevivência da população trabalhadora impactada pela pandemia. Resultado disso é que a fome voltou a atingir muito mais gente, e o atendimento não pode esperar”. Ela também afirmou que o projeto tem enfrentado dificuldades na arrecadação de alimentos por conta da crise econômica e sanitária, e que “toda colaboração é bem-vinda”. 

Para além do De Grão em Grão, há outras iniciativas que se mobilizam contra a fome em Bauru, tais como o coletivo Raízes do Baobá, o projeto Mão Que Ajuda, o coletivo Ação Libertária, o Esquadrão do Rock e o projeto Pachamama. Para conhecê-las e saber como ajudar, o J2 reuniu todas essas seis ações de solidariedade em reportagem, que pode ser acessada clicando aqui.

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